sexta-feira, 18 de julho de 2014

Uma questão celestial

Deus jogava GTA em seu escritório quando bateram em sua porta.

– Quem é? Já falei para não incomodar!

Era um anjo assistente, que, em tom de desculpas, girou a maçaneta e contou ao Senhor que o Conselho estava em acalentados debates acerca de conflitantes pedidos provenientes da Terra.

– Que conflitantes pedidos? – reclamou Deus. – Hoje é domingo, meu dia de folga!
– Nós sabemos, nós sabemos! – exclamou o anjo, sem fôlego. – Mas não temos mais como proceder. Tem dois sujeitos fazendo, ao mesmo tempo, pedidos excludentes!
– Leiam o guia prático de recomendações e não me encham, que hoje não vou trabalhar!
– Mas...
– E feche a porta! Os pedidos estão chegando até aqui, estão me aborrecendo, minha cabeça, minha cabeça!
– Pois não, Senhor... – O anjo fechou a porta. – Mas, como eu dizia, já lemos o guia e nenhuma instrução soluciona o nosso problema.

Deus jogou o joystick de lado, coçou a longa barba branca e, em tom mal humorado, perguntou:

– São ambos cristãos?
– Sim.
– Praticantes?
– Não.
– Então, atenda ao praticante.
– Nenhum deles é.
– Comportaram-se bem?
– No mesmo nível.
– Mesmo nível de pecados?
– Sim.
– Gays?
– Err... Isso está no guia?
– Gays?
– Não.
– Atenda a quem tem mais fé.
– Senhor, é um empate absoluto. Ambos estão no grau 567.83 do medidor de fé.

Era mesmo um caso impensado. Parecia impossível um empate nesse nível. A decisão teria que ser inédita.

– Qual é o caso? – perguntou Deus, agora mais interessado.
– É decisão de um campeonato de futebol. Trata-se de um pênalti decisivo. O cobrador pede ajuda para acertar e o goleiro, obviamente, quer defender.

Eram mesmo casos incompatíveis, pedidos inconciliáveis.

– Bem, a essa altura, o pênalti já foi cobrado, não? – perguntou Deus, esperançoso em não precisar decidir.
– Não – respondeu o anjo, para a decepção divina. – Fiz cair a energia elétrica do estádio, para ganhar tempo ao debater com os outros conselheiros e poder vir consultá-lo.

Deus coçou novamente sua barba e definiu:

– Atenda ao cobrador.

O anjo aquiesceu, mas, antes de sair do escritório do patrão, perguntou-lhe o porquê daquela escolha.

– Ora, a responsabilidade é muito maior para quem bate do que para quem defende o pênalti – explicou Deus, já num tom menos mal humorado e mais paternal. – Será muito mais penoso para o cobrador perder o pênalti do que para o goleiro deixar de defendê-lo.

Argumento incontestável. Mais uma vez, Deus mostrava toda a sua superior sabedoria.

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