segunda-feira, 21 de julho de 2014

Originalidade

Não convêm os motivos pelos quais a jovem estudante e o empresário se viam pela primeira vez, em um encontro que era suposto ser romântico. As razões não vêm ao caso simplesmente porque seria impossível explicar o fenômeno que juntava na mesma mesa de restaurante duas pessoas tão diferentes, diametralmente distintas, com absurdas e risíveis pretensões de se enamorarem.
Assim que entrou no estabelecimento e avistou o engravatado engomadinho que a esperava, a menina teve vontade de ir embora. Como se não bastasse ela ser três anos mais jovem, essa diferença parecia ainda maior quando se olhava rapidamente para ambos. Ela tinha um cabelo curto pintado de azul, raspado nas laterais, piercing no nariz e nos lábios, saia jeans curta e rasgada, meia arrastão e camisa de banda. Ele, com cabelo minuciosamente cortado e penteado, blusa social, gravata, terno sobre o encosto da cadeira, óculos comportados, barba feita, não conseguiria desagradá-la mais. “Poderia ser meu pai”, ela pensou, com asco, ignorando que a diferença entre suas idades não era assim tão grande.

Apesar da ojeriza, ela sentou-se na cadeira em frente a ele e iniciaram aquela conversa de praxe, em que um pergunta o que o outro faz da vida, se estuda, se trabalha, em quê, onde etc. Ele falava muito mais, sob um olhar da estudante que variava do entediado ao agressivo, mas que não o intimidava. Ela tentava conter a repulsa pelo modo de vida do rapaz, organizado, bom moço e ao mesmo tempo tão comprometido com ganhos financeiros.

Quanto mais conversavam, maior ficava o abismo que os separava. O empresário sentia desprezo pela menina, culpando seu velho amigo que o incentivara a buscar uma garota pela internet. Era como se estivesse falando com uma adolescente desmiolada, o que, para ele, por si só, rebaixava seu próprio grau de inteligência. Torcia para que ninguém o visse naquele encontro constrangedor. Ela, por sua vez, sentia algo além do desprezo: uma vontade de vomitar, uma falta de apetite, um desgosto com a vida que a simples presença daquele sujeito ocasionava. Tanto que ela mal tocou no prato que pedira.

Não devem ter passado quinze minutos até ambos ficarem sem assunto. Foi tempo suficiente para ele saber que ela fazia arte, morava com a mãe e  silêncio profundo  não deu muito mais ouvidos ao restante. Ela já estava ciente de que ele era empresário e todo o resto, o que ele fazia, quem atendia, como trabalhava, em que universidade se formara, quantos carros tinha, tudo era mais do mesmo que apenas compunham um personagem chato, engravatado, um “fantoche do sistema”.

 Fantoche do sistema?  ele perguntou, de rabo de olho.

Ela gaguejou. Soltou sem querer que ele era um fantoche do sistema, pensou alto demais. Até então, estavam contendo perfeitamente a repugnância que sentiam um pelo outro.

 Por que fantoche do sistema?  ele insistiu.
 Ah, não me leve a mal... Todos somos fantoches, de alguma forma – ela tentou contemporizar.
 Inclusive você?
 Ah, eu tento não ser... Bem, você sabe, não é fácil.
 Não, eu não sei. Afinal, eu sou um fantoche do sistema.

Por mais que a estudante não quisesse ter dito aquilo, ela se surpreendeu que ele tivesse se ofendido. 

 Você, que não é um fantoche do sistema, me explica por que eu sou. Ilumine-me!  disse ele, um pouco irônico, um pouco agressivo.
 Ah, você sabe, toda essa pressão para ganhar dinheiro, viver uma existência regrada, seguir conceitos pré-estabelecidos... Tudo isso nos faz fantoches do sistema. Fantoches do dinheiro.
 E você não gosta de dinheiro?
 Ah, gosto, é claro. Mas, você sabe, eu quero, acima de tudo, ser feliz.
 Se uma pessoa ganha dinheiro e é feliz, é fantoche do sistema?
 Não tanto, imagino.
 Ah, um meio fantoche?
 Pode-se dizer que sim.  Ela riu, tentando dar fim àquela conversa. Mas ele não parou:
 E o que te leva a crer que eu não sou feliz?
 Você não faz o que gosta.
 E por que você pensa isso?
 Você é um empresário.
 E não posso ser feliz sendo um empresário?
 Não. Não pode.

Ela, que estava arredia, incomodada com o rumo que a conversa tinha tomado, desferiu essa última resposta com os olhos faiscantes e já pronta para a guerra.

 Por que não posso?  o empresário perguntou, agora ele mais defensivo, depois da repentina agressividade da garota.
 Você sabe, poucas profissões estão mais inseridas na lógica capitalista do que essa.
 Digamos que você tenha razão. Não posso ser feliz estando imerso na tal lógica capitalista?
 Quero acreditar que não. Quero acreditar que há um modelo de felicidade mais abrangente que esse modelo estadunidense.
 Modelo estadunidense?  ele debochou.  Você não gosta dos Estados Unidos?
 Você gosta?
 Nada contra, mas pensei que você gostasse. Quantas vezes você falou “você sabe”? Isso não pode vir de outro lugar que não da expressão inglesa “you know”.
 E só os Estados Unidos falam inglês... É perfeito o seu raciocínio. Inclusive, se eu aprender francês, sou automaticamente uma fã da França - disse ela, tomando um tom muito mais irônico do que usava até então.
 Você é uma militante! Você me irrita como qualquer militante, seja qual for o motivo da militância, ainda que seja uma causa da qual eu compartilhe.
 Vai ver os militantes têm uma coragem e uma originalidade que você não tem...
 Olha, não vou nem discutir o fator coragem. Talvez você seja corajosa. Se um idiota entra na jaula de um tigre, é corajoso, embora não deixe de ser um idiota. Então, ok. Digamos que você seja mais corajosa do que eu (o que não é nenhum grande mérito seu). Mas, com relação à originalidade, o que você pensa que tem de tão original? Mais que isso: de onde você tirou que militantes são originais? A originalidade é a maior proibição de todo militante. Se ele se junta a uma causa, ele adere àquilo como ela é. Ele não tem liberdade para modificar a causa. Ele está junto com outras centenas ou milhares de pessoas gritando as mesmas palavras de ordem. Não é nem questão de não ser original. Ele não pode ser original! Ele busca um ideal como quem busca Deus!
 Acho que sou original, simplesmente  respondeu ela, ignorando o restante da fala do empresário.  Me visto como eu quero, vivo como eu quero, falo o que eu quero, penso o que eu quero.
 Bravo! Te congratulo! E o que isso tem a ver com originalidade?
 Eu sou eu mesma!
 Bravo de novo! Mas você ser você mesma só te faz original se, antes disso, você for original. Se você for falsa, uma cópia, é melhor fingir ser outra pessoa, para, aí, sim, tentar ser original.
 Eu sou original. Todos somos originais. Até você, embora se esconda atrás desse detestável personagem.
 Ah, partimos para as agressões?
 Se agredi alguém, foi seu personagem, não você.

Ele riu ironicamente e prosseguiu:

 Você não é original. Eu não sou original. Você se engana justamente nesse ponto: você diz que somos todos originais e eu te digo que não, que ao contrário, nenhum de nós é original.
 Fale por você, então.
 Menina, existem sete bilhões de pessoas no mundo. Você acha que você não é cópia de ninguém?  Ela tentou interrompê-lo, mas ele aumentou a voz:  Ah, ok, ok! Você é única dentre esses sete bilhões, é claro! Além desses sete bilhões, estima-se que outras cem bilhões de pessoas já tenham passado por esse planeta. Cento e sete bilhões de pessoas, ao todo! E você é única! Você quer me convencer de que você é diferente no meio de cento e sete bilhões de pessoas? Só por causa do seu cabelo azul e do seu piercing? Pelo amor de Deus!
 Qual é a sua tese? Que existe ou já existiu outra pessoa exatamente igual a mim?
 100% igual, não. Mas seus olhos são iguais aos olhos de uma ou mais pessoas que vive ou vivem, viveu ou viveram, no Brasil, na Argentina, na Eslovênia ou na Austrália! Sua boca, por sua vez, é igual à de outra pessoa nesse mundo afora. Não só seus olhos e sua boca. Seus cabelos são os mesmos dos de uma outra pessoa, no mínimo. E também seu nariz, seu queixo, suas pernas, seus cotovelos... Não só fisicamente. Sua voz já foi falada, seus pensamentos já foram pensados, sua tristeza já foi chorada, sua vitória já foi comemorada, seus gestos já foram executados, sua originalidade é nula!
 Você diz isso porque não sabe interpretar nada, porque é raso, vazio. E se isso são ofensas, sim, agora parti para elas. E não mais me refiro ao seu personagem, mas a você! Se você vê duas pessoas sofrendo por amor, pensa que não há originalidade em seus sofrimentos, porque choram pelo mesmo motivo, ignorando que cada uma sente aquela dor de uma maneira. Se você vê uma passeata (e, agora, acho que percebo seu desdém pela militância), acha que todos são iguais, uma vez que gritam as mesmas palavras de ordem, ignorando que cada um interpreta aquelas palavras de uma forma e espera um resultado diferente. Você vai a um museu para encontrar história, mas não a percebe na sua própria casa, não ouve as paredes do seu próprio lar.
 Que poético! Não sei o que isso tem a ver com o assunto, mas está bem, vou prestar mais atenção ao que as paredes do meu lar têm a me dizer. E, se as metáforas estão no campo imobiliário, você, para mim, é uma casa vazia. Sabe quando você está procurando imóvel e vai visitar um lugar que pode vir a ser interessante, mas não é? As portas estão direitas, a pintura está nova, as janelas são bonitas, o piso está correto, tudo é muito belo, mas não tem um móvel, uma vida, nada! Pode vir a ter, é um lar em potencial, porém a sensação não é de esperança, mas de angústia. Você se sente angustiado porque a sua voz ecoa. Isso é você! Tenho esperança de que você venha a ser alguém interessante no futuro, garota, já fui como você, mas hoje você é apenas um espaço vazio ecoante.
 Vai à merda! Já foi como eu... Valeu, vovô, só que você se esquece que só é três anos mais velho!
 Mas tenho trinta anos a mais de maturidade.
 Tão maduro que apodreceu!

Ela foi embora, ele pagou a conta, a comida mal foi tocada e cada um seguiu seu rumo. Ao contrário do que um leitor mais esperançoso poderia ter pensando no início do texto, essa não é uma história de duas pessoas completamente diferentes que se apaixonam inexplicavelmente. Não é um amor de opostos que se atraem. Não, nem é amor. É, ao contrário, uma história de duas pessoas completamente diferentes cujas diferenças fazem com que elas se odeiem  afinal, trata-se da maioria dos casos. A estudante e o empresário nunca mais se falaram. E não desejam o contrário.

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