domingo, 20 de julho de 2014

Orgulho e vergonha

Noticia-se que, em 2005, a embaixadora brasileira em Moçambique, ao ser proibida de entrar em um restaurante com seu cachorro, disse ao segurança que seu animal de estimação era mais limpo que a cidade de Maputo e que os moçambicanos, o que me encheu de uma vergonha descabida. Reparem que o suposto incidente, do qual só fui ter ciência há pouco tempo, ocorrera há nove anos e, mesmo assim, me envergonhou. Vergonha semelhante senti quando brasileiros, no Facebook, xingaram dos piores nomes a pequena filha do colombiano Zuñiga, que tirou o Neymar da Copa em uma entrada violenta, ou quando a torcida brasileira vaiou o hino do Chile no jogo entre as duas seleções no Mineirão. 

Assim como boa parte dos brasileiros, me senti humilhado com a derrota de 7 a 1 para a Alemanha, do mesmo modo que me irritou a derrota do vôlei para a Rússia, de virada, na final das Olimpíadas de Londres. Mas por quê? Por que devo me importar com isso, se não pertenço à seleção de futebol nem à de vôlei, se não xinguei nenhuma criança na internet, se não vaiei o hino de ninguém e se a única cachorra que eu tive certamente era mais suja que o esgoto de Maputo? Em vez disso, não deveria me envergonhar, isso sim, dos atos que eu, enquanto indivíduo, efetivamente pratico e repudio?  

Se desaprovo um brasileiro que se porte mal – e pode-se aqui ter um amplo entendimento sobre o que seja se portar mal, desde grosserias e falta de educação no exterior até assaltos a estrangeiros em Copacabana –, por que não faço eu o que considero correto e esqueço as brasilidades alheias? O que tenho eu a ver com essas pessoas? 

Se, em vez da embaixadora brasileira, fosse a embaixadora suíça, russa ou japonesa que tivesse comparado os moçambicanos ao seu cachorro, eu não daria a mínima. No entanto, a ofensa estaria lá e seria tão grave quanto se proferida por uma brasileira. Concluo que o que me incomoda, portanto, não é a fala em si, mas o fato de quem a disse ter algo em comum comigo: a nacionalidade. Não se trata de um ato de altruísmo, empatia ou indignação com a ofensa sofrida por outrem. Não; é, antes disso, um sentimento mesquinho e egoísta: não posso suportar o fato de aquela pessoa ter nascido no mesmo país que eu e partilhar da minha terra e do meu idioma. Se eu não tivesse absolutamente nenhuma conexão com essa mulher, estaria pouco me lixando para a ofensa aos moçambicanos. 

Do mesmo modo, me orgulho quando vejo algo de positivo vindo de um brasileiro e estou quase virando um militante da causa que prega que nem tudo no exterior é bom, nem tudo no Brasil é ruim. Mas por que essa mania de me orgulhar de algo que outra pessoa fez, pessoa esta que só tem em comum comigo a terra onde nasceu – o que, tratando-se de um país continental como o Brasil, pode significar muito pouca coisa? Da mesma maneira que a vergonha, o orgulho aqui funciona de um modo bastante egoísta: se um canadense se levantar de seu assento no metrô para cedê-lo a uma velhinha, não vou me orgulhar por pertencer à mesma espécie humana que ele; provavelmente, não vou nem me importar. Ou pior: vou invejá-lo, pensando: os brasileiros poderiam fazer o mesmo no metrô do Rio, em vez de se acotovelarem para embarcar na Estácio. 

Mas que diabo de identificação é essa que me une a um povo ao qual não pedi para pertencer? Por que tenho que me orgulhar por ser brasileiro, me envergonhar por ser brasileiro, se simplesmente não escolhi ser brasileiro? Se nasci aqui, foi por acaso, o mesmo acaso que determinou que sou branco, magro, esquisito e desengonçado. Pois bem, se concordo que esse é um orgulho besta – porque ninguém tem mérito por ser brasileiro, chinês ou indiano –, terei que concluir que movimentos como orgulho negro ou orgulho gay são igualmente desprezíveis, com o que, de fato, não tendo a concordar. Embora não escolhamos nossa cor de pele ou nossa sexualidade, entendo o orgulho gay e o orgulho negro, assim como outros movimentos minoritários, como uma forma de dizer: "Você, opressor, tentou me subjugar ao longo da história, mas não conseguiu. Não é por sua causa que terei vergonha de ser o que sou (negro, gay, deficiente, mulher, não importa). Tenho orgulho de pertencer a esse grupo de pessoas, ainda que eu não tenha mérito nenhum por isso". 

Justamente por se tratar de um posicionamento de um grupo minoritário perante os outros, não vejo sentido em grupos que se auto-intitulam orgulhosos por serem brancos ou hetero. E, aqui, chego perto de uma resposta para a minha pergunta quanto ao orgulho de ser brasileiro. O Brasil, no rol histórico das nações, ainda que hoje ocupe um lugar muito melhor do que jamais ocupara, se posiciona no mesmo grupo dos negros, gays e subjugados, não no grupo dos brancos e heterossexuais. Por isso, quando vou para o exterior, exalto as qualidades tupiniquins até o extremo. Por esse mesmo motivo, quando me mudei do Rio para Brasília, não me constranjo em nada ao criticar o clima, a violência, o trânsito, tudo de ruim da "cidade maravilhosa", isso porque, no rol dos estados brasileiros, o Rio está no grupo dominante, não precisando em nada ser defendido em nome de qualquer orgulho carioca. Mas percebam que isso só vale para quando estou em outra unidade federativa dentro do próprio país. No exterior, o dominante Rio de Janeiro já não tem esse mesmo papel e, quando o cito, é para dizer que seu clima é espetacular, que as belezas naturais são esplêndidas, que a violência já não ameaça mais tanto quanto outrora... 

Bem, essa linha de raciocínio tem seus furos, é claro. Essa explicação não abrange, por exemplo, o caso dos franceses ou estadunidenses, que, apesar de sempre terem exercido um papel dominante na história do mundo, são excessivamente patriotas. Também entendo que o senso de pertencimento é uma necessidade natural do ser humano, embora veja mais sentido quando se trata de um grupo com ideias e características que não estão pré-estabelecidas antes do nosso nascimento. Compreendo que um anarquista se sinta pertencente – e até orgulhoso – em um grupo de anarquistas, assim como os comunistas, os liberais, os roqueiros, os fãs de quadrinhos japoneses... Mas os brasileiros? Que tenho eu a ver com o fato de ter nascido nessa porção de terra tropical? Nada, suponho. Mas que eu adoraria que aquela embaixadora em Maputo fosse argentina, isso eu não nego. 

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