domingo, 13 de julho de 2014

O suicídio

Suicídio é algo de que aquelas pessoas só tinham ouvido falar em livros ou no cinema. No máximo, uma pessoa muito distante, de quem elas nada sabiam, dizem que tinha se matado havia anos e uma leve lembrança ainda pairava no ar. Mas agora o suicídio não era mais algo de outro mundo. Acabou de morrer a filha da vizinha, garota inteligente, bonita, noiva de um menino para quem qualidades tampouco faltavam. Ela se enforcou em seu próprio quarto, para desespero da mãe, que estava inconsolável até agora. 

O que se seguiu na vizinhança foi um tipo de mórbida curiosidade. Por que uma menina tão jovem e aparentemente tão feliz se matou? Não perguntaram à mãe, poderia parecer falta de tato, indiscrição. Mas as pessoas não conseguiam conter suas línguas e levantavam as mais criativas conjecturas: 

 Tem traição na jogada, tenho certeza!  disse o vizinho 1. 
 Está dizendo que o noivo estava com outra?!  questionou a vizinha 2. 
 E ela pegou no flagra, só pode! 
 Vocês são muito maldosos  interveio a vizinha 3, que era a mais maldosa de todos.  Eles podem ter simplesmente terminado o noivado, por que tem que ter traição? 
 Por que tem que ter é homem na história? Por quê?  perguntou a vizinha feminista.  Se uma garota tira sua vida, é por desilusão amorosa, é? Porque somos o sexo frágil! 
 Desde o século XVIII, Goethe ressignificou o conceito de sexo frágil com seu Werther  disse o vizinho intelectual, que não perdia uma chance de ser chato. 
 Acho que ela apostou dinheiro e perdeu tudo!  disse o vizinho 37. 
 Apostar dinheiro seria uma hipótese criativa para um quarentão anacrônico, mas acho que não se aplica à filha de nossa vizinha  respondeu o vizinho 46. 

Era um colóquio de várias pessoas, a vizinhança inteira. Foi com muito pesar que a vizinha maldosa que criticava a maldade alheia teve que concluir que só havia uma maneira de descobrirem a fatídica verdade: perguntando à mãe! 

Proposta feita, todos se entreolharam, calados, como se o assunto-tabu tivesse vindo à tona. Perguntar à mãe? Que falta de sensibilidade! Mas claro, por mais indelicada que fosse a sugestão, ninguém podia discordar. Entretanto, quem teria essa ingrata função? 

Sorteio! 

Seria feito um sorteio e aquele que “vencesse” seria o responsável por ir à casa da falecida e perguntar à mãe o motivo do suicídio, mas não sozinho. Todo o batalhão iria atrás, para dar força ao infeliz entrevistador, pois naquela vizinhança, é assim: um por todos e todos por um! 

 Um por todos e todos por um, é?  disse o vizinho sorteado, muito abatido por ver seu nome ser o escolhido.  Mas falar com ela ninguém quer, né? 
 Foi questão de sorte! Não reclame! 

Sim, o batalhão de curiosos iria junto, mas sem direito a voz. Só o sorteado poderia perguntar aquilo que todos queriam saber. 

Assim fizeram. Bateram na porta da mãe em luto, que atendeu despenteada e com olhos inchados. 

 Estamos aqui para saber por que sua filha se enforcou! 

Todos puseram as mãos na cabeça com tamanha inabilidade para fazer tal pergunta, sem nenhuma introdução e ainda tocando diretamente naquele que deve ser o mais horrendo modo escolhido para o suicídio: o enforcamento. 

 A televisão pifou!  respondeu a mãe, em prantos. Todos olharam uns para os outros, como que incrédulos: 
 O que ela falou? 
 Não ouvi bem. Parece que a televisão pifou. 
 Mas o que isso tem a ver com o suicídio? 
 Não sei... Ela pode estar delirando. 
 Ou pode ter sido esse o motivo... Não, né? 
 Como assim a televisão pifou?  perguntou o sorteado. 
 Pifou! - respondeu a mãe.  Agora, me diz: precisava se matar por isso? Se isso era tão importante para ela, poderíamos comprar outra TV. É claro que ia demorar, não estamos bem de dinheiro, não sei quando seria... A pobrezinha deve ter pensado nisso: que nunca mais teria uma TV de novo... Ainda assim, não é razão para tirar a própria vida! Mas ela escreveu uma carta e disse que o motivo foi realmente esse! Uma TV! Uma TV! 

As pessoas só não acharam que aquilo era uma piada porque a mulher estava realmente em prantos, com certeza sem condições de brincar com a cara dos outros. O entrevistador despediu-se e virou as costas com a mesma insensibilidade com que se apresentara. Todos foram embora e se criaram novos colóquios para debater o assunto. 

 Gente, vamos raciocinar um pouco  disse a vizinha psicóloga.  Ela não se matou por isso. Ela já deveria estar com algum tipo de problema e a TV pifar foi a gota d’água. Não foi por isso que ela se matou, isso é tão óbvio quanto dois mais dois serem quatro. É só pensar um pouquinho. 

Os outros não gostaram muito daquele tom que dava a entender que eles eram burros, mas relevaram e concluíram: teriam que conseguir essa carta! Como? Invadindo o quarto da defunta. 

 Eu não entro em quarto de morto!  disse a vizinha supersticiosa.  Quanto mais de morto suicidado! 
 Não é necessário  respondeu o vizinho perspicaz.  A carta está na sala. Não repararam que, quando nossa sofrida e querida vizinha citou a carta que a filha tinha escrito, ela apontou para uma escrivaninha à sua direita? A carta está lá. 
 Ótimo! Não precisamos nem perder tempo vasculhando as coisas da defunta! 
 E, à sala, é muito mais fácil de chegar. Tem uma porta lateral que está sempre aberta. 
 Perfeito! Então, quem irá? 

Sorteio de novo! 

E não é que o sorteado foi o mesmo infeliz? 

 Não acredito! Não pode ser!  resmungou o azarado.  Só ganho sorteio que não quero. 
 Vamos sortear de novo  disse o vizinho 54.  Se nosso amigo entrar na sala com o mesmo tato com que fez a pergunta do suicídio, vai disparar todos os alarmes da casa, até aqueles que não existem! 

O azarado não gostou da brincadeira, mas, como lhe convinha, aquiesceu. 

Sortearam de novo e o eleito foi o vizinho 43. Ele levou duas noites para entrar na casa, pois nunca se sentia confiante. Só não esperou mais tempo porque as cobranças eram muito fortes, ninguém mais podia segurar a curiosidade. Quando ele entrou na casa, precisou tatear de leve o escuro e não levou muito até encontrar a carta e sair de lá. 

 Você leu?  perguntaram-no. 
 Não! Vamos ler em conjunto, porque nessa vizinhança, é assim: um por todos e todos por um! 

Assim que começou a Terceira Reunião Extraordinária do Departamento da Fofoca, o vizinho com vozeirão leu alto para todos as últimas palavras da morta: 


“Amor, te amo. Mãe, te amo. Pai, avó, avô, tio, irmão, amo todos imensamente. Mas, acima de vocês (e isso não diminui meu amor), amo minha TV. Sem ela, não vivo. Sem ela, dou fim à minha existência. Adeus.” 


 Isso é uma piada de mau gosto!  gritou o vizinho irritado. 
 Esperem, tem uma observação no final  disse o leitor da carta. 


“PS: Não tentem achar pelo em ovo. Eu me matei única e exclusivamente por causa da TV. Até ela pifar, eu era feliz. Quem quiser descobrir motivos que não existem não passa de psicólogo frustrado.” 


Todos olharam para a vizinha psicóloga, que estava ficando vermelha como um pimentão. 

 Eu acho  disse o vizinho provocador  que tentar encontrar motivos além dos citados é um equívoco imenso. Tenho tanta certeza de se tratar de um erro quanto tenho de dois e dois serem quatro
 Concordo  respondeu a vizinha não menos provocadora.  É só raciocinar um pouco para saber que foi mesmo por causa da TV que ela se matou.  
 Tem outro PS  disse o leitor, para alívio da vizinha psicóloga.  Diz aqui embaixo: 


“PS 2: Não me julguem. Tem gente que se mata por amor. Tem gente que se mata por futebol. Tem quem se mate pelo mais estapafúrdio motivo - estapafúrdio para os meus olhos, para os seus olhos, mas não para a própria pessoa. E, para mim, não existe nada mais importante no mundo do que a televisão.” 


Deram-se, enfim, por satisfeitos com a explicação. Invadiram de novo a casa da mãe da garota e devolveram a carta para o mesmo lugar onde a encontraram, sem saber se a mulher chegou a dar falta do objeto. 

Cansados do tema, exaurido o assunto, as pessoas foram aos poucos voltando às suas vidas normais. E assim acabou a curiosidade de todos. Precisaram de tempo para introjetar o motivo do suicídio. Uma televisão! Mas, respeitando a vontade da garota, não a julgaram (não muito). Com o passar do tempo, já ninguém mais se lembrava daquele enforcamento e a vizinhança caiu novamente em sua velha e pacata rotina diária de vivos que não se matam. 

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