terça-feira, 29 de julho de 2014

O raio e o argumento

Quando sua filha o vê assim, inerte, na varanda, a olhar a queda da chuva, toma-o por um homem triste. Mas ele a tranquiliza:

 Não é tristeza, filha. É só poesia.

A filha não se convence e, sinceramente preocupada, pergunta-lhe em que ele está pensando. Ele desconversa:

 Em muitas coisas, depende do momento.

Ela não se dá por satisfeita:

 Agora, por exemplo, pensa em quê?
 Agora, penso nos raios. Penso que não há nada mais errado do que fotografar um raio.

Ela pergunta por que e ele explica:

 O raio, assim como os homens, precisa do movimento para ser o que é. Imagine que, quando se fotografa um raio, retira-se dele o que ele tem de mais belo: a continuidade. O cair de um raio é o que o faz ser o que ele é. A fotografia é um argumento, muito mais do que um recorte da realidade. E eu odeio argumentos.

A filha encara o pai, aparentemente reprovando aquela linha de raciocínio. Ele continua e lhe propõe um exercício de imaginação:

 Digamos que você está andando na rua, rumo a uma cafeteria, onde encontrará seu noivo. No caminho, você tropeça no chão, mas sua felicidade é tamanha que você se levanta rapidamente, sem dar nenhuma importância à queda. Você efetivamente chega ao café, se encontra com seu namorado e vocês têm uma ótima tarde. Acontece que, no momento da queda, alguém te fotografou. Essa fotografia sai nos jornais, roda as redes sociais e você, em vez de ser vista como alguém feliz, prestes a desfrutar de excelentes momentos, passa a ser tida como vítima de um péssimo dia, de um infortúnio, de uma humilhação por ter caído em uma via pública. 

Ela balança a cabeça negativamente. Não que estivesse a discordar da fala do pai, mas ele conhece aquele gesto: significa uma reprovação ao mero fato de o velho gastar seu tempo conjecturando esses raciocínios tão esvaziados de significado prático. Ele se antecipa a ela e se defende:

 Foi você que perguntou em que eu estava pensando.
 Para mim, um raio é só um raio.  Ela dá de ombros.  Por acaso, ele cai.
 Acaso este decorrente de vários fatores, mas, ainda assim, um acaso, você tem razão. Contudo, foi justamente isso que eu quis dizer quando te falei que isso não era tristeza, que era só poesia.

Ela não disse nada e ele prosseguiu:

 O maior erro de Aristóteles foi considerar o acaso inimigo da poesia. Ora, são esses acontecimentos episódicos que constituem a poesia! Onde só há previsibilidade, nada pode ser poético.

Percebendo que aborrecia a filha com divagações a que ela não dava nenhuma importância, ele se calou. Decorreu-se um considerável tempo com ambos em silêncio. Ela, por sua vez, sentindo-se culpada por se manter tão calada nas raras ocasiões em que visitava o pai, tentou dizer algo:

 Só acho que discutir a beleza dos raios não é a coisa mais importante a se fazer. Eu sei que você gosta de entrar em debates, trocar ideias etc., mas, nesse caso, discuta sobre economia ou política, que, pelo menos, influenciam diretamente a sua vida. 
 Ora, filha, discutir política é a pior coisa que existe. Quando se discute uma coisa dessas, você tem que ser coerente. A discussão se torna uma guerra de argumentos e eu já disse que odeio argumentos; não sei ser coerente. Nesse tipo de guerra, se eu entro, eu perco.
 Você não precisa encarar a discussão política como uma guerra, mas como uma oportunidade de pensar em coisas em que ainda não havia pensado.
 O que já é uma derrota.  Ele riu.  Nesse tipo de guerra, você tem que derrotar o argumento do outro o tempo todo e, se por dez segundos, você se cala para pensar no que o outro está a te dizer, você já é atropelado, já é um sinal de fracasso. 

A filha ia protestar, mas ele continuou:

 Para piorar, quando se discute política ou economia, geralmente o que se tem são guerras factuais. E, sinceramente, não sou a mais informada das pessoas. Acho que tenho razoáveis convicções políticas e até um aceitável nível de informação, mas somente o básico para exercer minha cidadania. Numa guerra factual, eu invariavelmente serei derrotado, até mesmo porque dificilmente saberei dizer se meu oponente está sendo honesto.
 E você, discutindo poesia, também não corre esse risco?
 Não. Em discussões literárias, não há perdedores, não há fatos. Aqui, sim, posso concordar contigo que talvez eu pense em coisas novas e que o debate some à minha vida.  Ele parou de falar, com uma expressão que variava do plácido ao cansado, respirou mais profundamente e retomou:  Filha, gosto muito de um programa na TV Cultura, chamado Roda Viva, não sei se você conhece.  Ela balançou negativamente a cabeça e ele prosseguiu:  É um programa que consiste em sabatinar o entrevistado com as perguntas mais desconcertantes possíveis, a fim de pôr constantemente em xeque suas convicções. Acontece que, em um programa, especificamente, essa fórmula não funcionou: foi quando entrevistaram a poetisa Adélia Prado. Não era incomum ela dizer que simplesmente não sabia dar determinada resposta. Às vezes, mesmo quando tinha algo a responder, não se constrangia ao gastar, em silêncio, preciosos segundos do programa, pensando em qual seria a réplica mais adequada.

Ela, por mais distante que estivesse das divagações do pai, não deixava de sentir um misto de afeição e piedade por ele. Velho como estava, morando sozinho, só ocasionalmente via os filhos, quando estes o visitavam. Ele, por sua vez, sabia que ela não dava a mínima para o que ele estava dizendo, mas prosseguiu, como em um monólogo:

 Outra recente entrevista que me impressionou por motivos análogos foi a do presidente uruguaio Mujica à Rede Bandeirantes. Quando lhe perguntaram o que faria caso as descriminalizações do aborto e da maconha se mostrassem um erro, ele deu a resposta mais óbvia de todas, mas que nunca vi um político dar: "A gente desfaz tudo". No meio político, exceção feita ao Mujica, não existe "desfazer tudo". Quando se volta a um estágio anterior, admite-se um erro, uma fraqueza, assina-se um atestado de incompetência. É aceitável mudar de partido, mas, contraditoriamente, não de ideia. Admitir uma releitura política é quase como admitir uma fraqueza de caráter.

Ele parou de novo, com um olhar umedecido, e a filha se incomodava particularmente porque não sabia dizer o que o emocionava, afinal.

 E, aqui, novamente me recordo de Aristóteles  disse o pai.  Quando ele fala que o homem é um animal político, se refere à nossa incompletude e às mútuas necessidades que temos uns dos outros. Eu, porém, diria mais: o homem é um animal político porque, enquanto político, ele não tem o direito de errar. Mais do que isso: ele não tem sequer o tempo necessário para pensar se errou.

Sua filha voltou a encará-lo com aquele misto de piedade e incompreensão. Ao seu solitário pai, tudo o que restava era ver a chuva cair, buscar a leveza da poesia com o mesmo afinco com que fugia do peso dos argumentos. Nesse instante, outro raio caiu, iluminando a varanda, e ela pôde perceber claramente um tímido sorriso no rosto de seu pai, muito mais envelhecido do que ela se lembrava.

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