domingo, 6 de julho de 2014

Bolinhas eclípticas

Acordei, olhei o celular, eram 10 da manhã. Levantei-me, abri as cortinas e as janelas e, para minha surpresa, ainda estava escuro. 10 da manhã e o sol ainda não tinha nascido? Atravessei a porta do meu quarto rumo à varanda, a fim de olhar o céu e confirmar aquele estranho acontecimento: realmente, não havia nenhuma claridade natural. Um eclipse? Não me lembrava de nada desse tipo ter sido comentado pelos veículos de comunicação. Liguei meu notebook, busquei na internet por qualquer informação do fenômeno, mas não encontrei nada.

Não tive muito tempo para refletir sobre o mistério. No fim do horizonte, uma nuvem branca já se fazia visível, juntamente com um pedaço de céu azul. Essa mesma nuvem foi se avolumando e veio em minha direção, voando rapidamente, varrendo a negritude celestial e tornando dia tudo o que havia segundos era noite. Foi aí que percebi que havia várias bolinhas no céu, como pequenos balões, muito minúsculos, que caberiam nas palmas de nossas mãos. Esses pequenos objetos circulares eram coloridos – tinha azul, vermelho, amarelo, laranja com estrela branca, verde com pontinhos azuis – e caíam no chão. Eram eles que tapavam o sol. Apesar de serem de inúmeras cores, o céu não era colorido, mas negro: só se percebiam suas cores quando já estavam próximos ao solo. Conforme a nuvem varria a noite, mais e mais dessas bolinhas despencavam e uma música comemorativa começou a ser tocada, como em um carro de som. Sim, era mesmo um carro de som: tinha agora alguém falando ao longe em um microfone, como um sindicalista em um áudio ruim, cujas palavras não captamos, mas com a ênfase sonora toda na animada canção que anunciava o fim da noite.

Eu, porém, embora estivesse aliviado por ver o sol, estava mais preocupado do que animado. Eram milhares, milhões de bolinhas que caíam lá de cima. No momento, a nuvem ainda não me alcançara, mas, assim que atingisse minha varanda, esses pequenos e pesados balões destruiriam meu teto, sujariam minha casa inteira. Minha varanda tem quatro portas, sendo que apenas uma dá para o quarto. Fui fechá-las apressadamente, a fim de, pelo menos, impossibilitar que as bolinhas entrassem no interior de minha residência. Mas a nuvem era mais rápida do que eu e só deu tempo de eu fechar três das quatro portas, deixando aberta justamente a do quarto. As bolinhas, que, agora eu percebia que caíam na diagonal, não quebraram meu teto (embora tenham feito um horrendo barulho), mas invadiram meu quarto com enorme violência. Eu, com êxito, encolhi-me e me protegi para não ser atingido por elas. Já era dia completo, céu azul. Olhei para o interior do recinto: os tapetes, o chão, tudo no quarto tinha uns dois palmos de altura de bolinhas. A cama, mesmo sendo grande, só tinha visível sua cabeceira. O colchão estava tomado por aqueles pequenos e coloridos objetos. O jardim, do lado de fora, parecia uma piscina de bolinhas, daquelas que antigamente encantavam as crianças em alguns parques de diversões.

Saí da varanda e voltei para o quarto, meio encantado com o cenário, meio com preguiça de limpar aquilo tudo. Como jogaria tanta bolinha fora? Haja saco plástico! Varrê-las, talvez? Para onde? Felizmente acordei e me vi livre desse angustiante enigma prático de limpeza.

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