terça-feira, 29 de julho de 2014

O raio e o argumento

Quando sua filha o vê assim, inerte, na varanda, a olhar a queda da chuva, toma-o por um homem triste. Mas ele a tranquiliza:

 Não é tristeza, filha. É só poesia.

A filha não se convence e, sinceramente preocupada, pergunta-lhe em que ele está pensando. Ele desconversa:

 Em muitas coisas, depende do momento.

Ela não se dá por satisfeita:

 Agora, por exemplo, pensa em quê?
 Agora, penso nos raios. Penso que não há nada mais errado do que fotografar um raio.

Ela pergunta por que e ele explica:

 O raio, assim como os homens, precisa do movimento para ser o que é. Imagine que, quando se fotografa um raio, retira-se dele o que ele tem de mais belo: a continuidade. O cair de um raio é o que o faz ser o que ele é. A fotografia é um argumento, muito mais do que um recorte da realidade. E eu odeio argumentos.

A filha encara o pai, aparentemente reprovando aquela linha de raciocínio. Ele continua e lhe propõe um exercício de imaginação:

 Digamos que você está andando na rua, rumo a uma cafeteria, onde encontrará seu noivo. No caminho, você tropeça no chão, mas sua felicidade é tamanha que você se levanta rapidamente, sem dar nenhuma importância à queda. Você efetivamente chega ao café, se encontra com seu namorado e vocês têm uma ótima tarde. Acontece que, no momento da queda, alguém te fotografou. Essa fotografia sai nos jornais, roda as redes sociais e você, em vez de ser vista como alguém feliz, prestes a desfrutar de excelentes momentos, passa a ser tida como vítima de um péssimo dia, de um infortúnio, de uma humilhação por ter caído em uma via pública. 

Ela balança a cabeça negativamente. Não que estivesse a discordar da fala do pai, mas ele conhece aquele gesto: significa uma reprovação ao mero fato de o velho gastar seu tempo conjecturando esses raciocínios tão esvaziados de significado prático. Ele se antecipa a ela e se defende:

 Foi você que perguntou em que eu estava pensando.
 Para mim, um raio é só um raio.  Ela dá de ombros.  Por acaso, ele cai.
 Acaso este decorrente de vários fatores, mas, ainda assim, um acaso, você tem razão. Contudo, foi justamente isso que eu quis dizer quando te falei que isso não era tristeza, que era só poesia.

Ela não disse nada e ele prosseguiu:

 O maior erro de Aristóteles foi considerar o acaso inimigo da poesia. Ora, são esses acontecimentos episódicos que constituem a poesia! Onde só há previsibilidade, nada pode ser poético.

Percebendo que aborrecia a filha com divagações a que ela não dava nenhuma importância, ele se calou. Decorreu-se um considerável tempo com ambos em silêncio. Ela, por sua vez, sentindo-se culpada por se manter tão calada nas raras ocasiões em que visitava o pai, tentou dizer algo:

 Só acho que discutir a beleza dos raios não é a coisa mais importante a se fazer. Eu sei que você gosta de entrar em debates, trocar ideias etc., mas, nesse caso, discuta sobre economia ou política, que, pelo menos, influenciam diretamente a sua vida. 
 Ora, filha, discutir política é a pior coisa que existe. Quando se discute uma coisa dessas, você tem que ser coerente. A discussão se torna uma guerra de argumentos e eu já disse que odeio argumentos; não sei ser coerente. Nesse tipo de guerra, se eu entro, eu perco.
 Você não precisa encarar a discussão política como uma guerra, mas como uma oportunidade de pensar em coisas em que ainda não havia pensado.
 O que já é uma derrota.  Ele riu.  Nesse tipo de guerra, você tem que derrotar o argumento do outro o tempo todo e, se por dez segundos, você se cala para pensar no que o outro está a te dizer, você já é atropelado, já é um sinal de fracasso. 

A filha ia protestar, mas ele continuou:

 Para piorar, quando se discute política ou economia, geralmente o que se tem são guerras factuais. E, sinceramente, não sou a mais informada das pessoas. Acho que tenho razoáveis convicções políticas e até um aceitável nível de informação, mas somente o básico para exercer minha cidadania. Numa guerra factual, eu invariavelmente serei derrotado, até mesmo porque dificilmente saberei dizer se meu oponente está sendo honesto.
 E você, discutindo poesia, também não corre esse risco?
 Não. Em discussões literárias, não há perdedores, não há fatos. Aqui, sim, posso concordar contigo que talvez eu pense em coisas novas e que o debate some à minha vida.  Ele parou de falar, com uma expressão que variava do plácido ao cansado, respirou mais profundamente e retomou:  Filha, gosto muito de um programa na TV Cultura, chamado Roda Viva, não sei se você conhece.  Ela balançou negativamente a cabeça e ele prosseguiu:  É um programa que consiste em sabatinar o entrevistado com as perguntas mais desconcertantes possíveis, a fim de pôr constantemente em xeque suas convicções. Acontece que, em um programa, especificamente, essa fórmula não funcionou: foi quando entrevistaram a poetisa Adélia Prado. Não era incomum ela dizer que simplesmente não sabia dar determinada resposta. Às vezes, mesmo quando tinha algo a responder, não se constrangia ao gastar, em silêncio, preciosos segundos do programa, pensando em qual seria a réplica mais adequada.

Ela, por mais distante que estivesse das divagações do pai, não deixava de sentir um misto de afeição e piedade por ele. Velho como estava, morando sozinho, só ocasionalmente via os filhos, quando estes o visitavam. Ele, por sua vez, sabia que ela não dava a mínima para o que ele estava dizendo, mas prosseguiu, como em um monólogo:

 Outra recente entrevista que me impressionou por motivos análogos foi a do presidente uruguaio Mujica à Rede Bandeirantes. Quando lhe perguntaram o que faria caso as descriminalizações do aborto e da maconha se mostrassem um erro, ele deu a resposta mais óbvia de todas, mas que nunca vi um político dar: "A gente desfaz tudo". No meio político, exceção feita ao Mujica, não existe "desfazer tudo". Quando se volta a um estágio anterior, admite-se um erro, uma fraqueza, assina-se um atestado de incompetência. É aceitável mudar de partido, mas, contraditoriamente, não de ideia. Admitir uma releitura política é quase como admitir uma fraqueza de caráter.

Ele parou de novo, com um olhar umedecido, e a filha se incomodava particularmente porque não sabia dizer o que o emocionava, afinal.

 E, aqui, novamente me recordo de Aristóteles  disse o pai.  Quando ele fala que o homem é um animal político, se refere à nossa incompletude e às mútuas necessidades que temos uns dos outros. Eu, porém, diria mais: o homem é um animal político porque, enquanto político, ele não tem o direito de errar. Mais do que isso: ele não tem sequer o tempo necessário para pensar se errou.

Sua filha voltou a encará-lo com aquele misto de piedade e incompreensão. Ao seu solitário pai, tudo o que restava era ver a chuva cair, buscar a leveza da poesia com o mesmo afinco com que fugia do peso dos argumentos. Nesse instante, outro raio caiu, iluminando a varanda, e ela pôde perceber claramente um tímido sorriso no rosto de seu pai, muito mais envelhecido do que ela se lembrava.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Originalidade

Não convêm os motivos pelos quais a jovem estudante e o empresário se viam pela primeira vez, em um encontro que era suposto ser romântico. As razões não vêm ao caso simplesmente porque seria impossível explicar o fenômeno que juntava na mesma mesa de restaurante duas pessoas tão diferentes, diametralmente distintas, com absurdas e risíveis pretensões de se enamorarem.
Assim que entrou no estabelecimento e avistou o engravatado engomadinho que a esperava, a menina teve vontade de ir embora. Como se não bastasse ela ser três anos mais jovem, essa diferença parecia ainda maior quando se olhava rapidamente para ambos. Ela tinha um cabelo curto pintado de azul, raspado nas laterais, piercing no nariz e nos lábios, saia jeans curta e rasgada, meia arrastão e camisa de banda. Ele, com cabelo minuciosamente cortado e penteado, blusa social, gravata, terno sobre o encosto da cadeira, óculos comportados, barba feita, não conseguiria desagradá-la mais. “Poderia ser meu pai”, ela pensou, com asco, ignorando que a diferença entre suas idades não era assim tão grande.

Apesar da ojeriza, ela sentou-se na cadeira em frente a ele e iniciaram aquela conversa de praxe, em que um pergunta o que o outro faz da vida, se estuda, se trabalha, em quê, onde etc. Ele falava muito mais, sob um olhar da estudante que variava do entediado ao agressivo, mas que não o intimidava. Ela tentava conter a repulsa pelo modo de vida do rapaz, organizado, bom moço e ao mesmo tempo tão comprometido com ganhos financeiros.

Quanto mais conversavam, maior ficava o abismo que os separava. O empresário sentia desprezo pela menina, culpando seu velho amigo que o incentivara a buscar uma garota pela internet. Era como se estivesse falando com uma adolescente desmiolada, o que, para ele, por si só, rebaixava seu próprio grau de inteligência. Torcia para que ninguém o visse naquele encontro constrangedor. Ela, por sua vez, sentia algo além do desprezo: uma vontade de vomitar, uma falta de apetite, um desgosto com a vida que a simples presença daquele sujeito ocasionava. Tanto que ela mal tocou no prato que pedira.

Não devem ter passado quinze minutos até ambos ficarem sem assunto. Foi tempo suficiente para ele saber que ela fazia arte, morava com a mãe e  silêncio profundo  não deu muito mais ouvidos ao restante. Ela já estava ciente de que ele era empresário e todo o resto, o que ele fazia, quem atendia, como trabalhava, em que universidade se formara, quantos carros tinha, tudo era mais do mesmo que apenas compunham um personagem chato, engravatado, um “fantoche do sistema”.

 Fantoche do sistema?  ele perguntou, de rabo de olho.

Ela gaguejou. Soltou sem querer que ele era um fantoche do sistema, pensou alto demais. Até então, estavam contendo perfeitamente a repugnância que sentiam um pelo outro.

 Por que fantoche do sistema?  ele insistiu.
 Ah, não me leve a mal... Todos somos fantoches, de alguma forma – ela tentou contemporizar.
 Inclusive você?
 Ah, eu tento não ser... Bem, você sabe, não é fácil.
 Não, eu não sei. Afinal, eu sou um fantoche do sistema.

Por mais que a estudante não quisesse ter dito aquilo, ela se surpreendeu que ele tivesse se ofendido. 

 Você, que não é um fantoche do sistema, me explica por que eu sou. Ilumine-me!  disse ele, um pouco irônico, um pouco agressivo.
 Ah, você sabe, toda essa pressão para ganhar dinheiro, viver uma existência regrada, seguir conceitos pré-estabelecidos... Tudo isso nos faz fantoches do sistema. Fantoches do dinheiro.
 E você não gosta de dinheiro?
 Ah, gosto, é claro. Mas, você sabe, eu quero, acima de tudo, ser feliz.
 Se uma pessoa ganha dinheiro e é feliz, é fantoche do sistema?
 Não tanto, imagino.
 Ah, um meio fantoche?
 Pode-se dizer que sim.  Ela riu, tentando dar fim àquela conversa. Mas ele não parou:
 E o que te leva a crer que eu não sou feliz?
 Você não faz o que gosta.
 E por que você pensa isso?
 Você é um empresário.
 E não posso ser feliz sendo um empresário?
 Não. Não pode.

Ela, que estava arredia, incomodada com o rumo que a conversa tinha tomado, desferiu essa última resposta com os olhos faiscantes e já pronta para a guerra.

 Por que não posso?  o empresário perguntou, agora ele mais defensivo, depois da repentina agressividade da garota.
 Você sabe, poucas profissões estão mais inseridas na lógica capitalista do que essa.
 Digamos que você tenha razão. Não posso ser feliz estando imerso na tal lógica capitalista?
 Quero acreditar que não. Quero acreditar que há um modelo de felicidade mais abrangente que esse modelo estadunidense.
 Modelo estadunidense?  ele debochou.  Você não gosta dos Estados Unidos?
 Você gosta?
 Nada contra, mas pensei que você gostasse. Quantas vezes você falou “você sabe”? Isso não pode vir de outro lugar que não da expressão inglesa “you know”.
 E só os Estados Unidos falam inglês... É perfeito o seu raciocínio. Inclusive, se eu aprender francês, sou automaticamente uma fã da França - disse ela, tomando um tom muito mais irônico do que usava até então.
 Você é uma militante! Você me irrita como qualquer militante, seja qual for o motivo da militância, ainda que seja uma causa da qual eu compartilhe.
 Vai ver os militantes têm uma coragem e uma originalidade que você não tem...
 Olha, não vou nem discutir o fator coragem. Talvez você seja corajosa. Se um idiota entra na jaula de um tigre, é corajoso, embora não deixe de ser um idiota. Então, ok. Digamos que você seja mais corajosa do que eu (o que não é nenhum grande mérito seu). Mas, com relação à originalidade, o que você pensa que tem de tão original? Mais que isso: de onde você tirou que militantes são originais? A originalidade é a maior proibição de todo militante. Se ele se junta a uma causa, ele adere àquilo como ela é. Ele não tem liberdade para modificar a causa. Ele está junto com outras centenas ou milhares de pessoas gritando as mesmas palavras de ordem. Não é nem questão de não ser original. Ele não pode ser original! Ele busca um ideal como quem busca Deus!
 Acho que sou original, simplesmente  respondeu ela, ignorando o restante da fala do empresário.  Me visto como eu quero, vivo como eu quero, falo o que eu quero, penso o que eu quero.
 Bravo! Te congratulo! E o que isso tem a ver com originalidade?
 Eu sou eu mesma!
 Bravo de novo! Mas você ser você mesma só te faz original se, antes disso, você for original. Se você for falsa, uma cópia, é melhor fingir ser outra pessoa, para, aí, sim, tentar ser original.
 Eu sou original. Todos somos originais. Até você, embora se esconda atrás desse detestável personagem.
 Ah, partimos para as agressões?
 Se agredi alguém, foi seu personagem, não você.

Ele riu ironicamente e prosseguiu:

 Você não é original. Eu não sou original. Você se engana justamente nesse ponto: você diz que somos todos originais e eu te digo que não, que ao contrário, nenhum de nós é original.
 Fale por você, então.
 Menina, existem sete bilhões de pessoas no mundo. Você acha que você não é cópia de ninguém?  Ela tentou interrompê-lo, mas ele aumentou a voz:  Ah, ok, ok! Você é única dentre esses sete bilhões, é claro! Além desses sete bilhões, estima-se que outras cem bilhões de pessoas já tenham passado por esse planeta. Cento e sete bilhões de pessoas, ao todo! E você é única! Você quer me convencer de que você é diferente no meio de cento e sete bilhões de pessoas? Só por causa do seu cabelo azul e do seu piercing? Pelo amor de Deus!
 Qual é a sua tese? Que existe ou já existiu outra pessoa exatamente igual a mim?
 100% igual, não. Mas seus olhos são iguais aos olhos de uma ou mais pessoas que vive ou vivem, viveu ou viveram, no Brasil, na Argentina, na Eslovênia ou na Austrália! Sua boca, por sua vez, é igual à de outra pessoa nesse mundo afora. Não só seus olhos e sua boca. Seus cabelos são os mesmos dos de uma outra pessoa, no mínimo. E também seu nariz, seu queixo, suas pernas, seus cotovelos... Não só fisicamente. Sua voz já foi falada, seus pensamentos já foram pensados, sua tristeza já foi chorada, sua vitória já foi comemorada, seus gestos já foram executados, sua originalidade é nula!
 Você diz isso porque não sabe interpretar nada, porque é raso, vazio. E se isso são ofensas, sim, agora parti para elas. E não mais me refiro ao seu personagem, mas a você! Se você vê duas pessoas sofrendo por amor, pensa que não há originalidade em seus sofrimentos, porque choram pelo mesmo motivo, ignorando que cada uma sente aquela dor de uma maneira. Se você vê uma passeata (e, agora, acho que percebo seu desdém pela militância), acha que todos são iguais, uma vez que gritam as mesmas palavras de ordem, ignorando que cada um interpreta aquelas palavras de uma forma e espera um resultado diferente. Você vai a um museu para encontrar história, mas não a percebe na sua própria casa, não ouve as paredes do seu próprio lar.
 Que poético! Não sei o que isso tem a ver com o assunto, mas está bem, vou prestar mais atenção ao que as paredes do meu lar têm a me dizer. E, se as metáforas estão no campo imobiliário, você, para mim, é uma casa vazia. Sabe quando você está procurando imóvel e vai visitar um lugar que pode vir a ser interessante, mas não é? As portas estão direitas, a pintura está nova, as janelas são bonitas, o piso está correto, tudo é muito belo, mas não tem um móvel, uma vida, nada! Pode vir a ter, é um lar em potencial, porém a sensação não é de esperança, mas de angústia. Você se sente angustiado porque a sua voz ecoa. Isso é você! Tenho esperança de que você venha a ser alguém interessante no futuro, garota, já fui como você, mas hoje você é apenas um espaço vazio ecoante.
 Vai à merda! Já foi como eu... Valeu, vovô, só que você se esquece que só é três anos mais velho!
 Mas tenho trinta anos a mais de maturidade.
 Tão maduro que apodreceu!

Ela foi embora, ele pagou a conta, a comida mal foi tocada e cada um seguiu seu rumo. Ao contrário do que um leitor mais esperançoso poderia ter pensando no início do texto, essa não é uma história de duas pessoas completamente diferentes que se apaixonam inexplicavelmente. Não é um amor de opostos que se atraem. Não, nem é amor. É, ao contrário, uma história de duas pessoas completamente diferentes cujas diferenças fazem com que elas se odeiem  afinal, trata-se da maioria dos casos. A estudante e o empresário nunca mais se falaram. E não desejam o contrário.

domingo, 20 de julho de 2014

Orgulho e vergonha

Noticia-se que, em 2005, a embaixadora brasileira em Moçambique, ao ser proibida de entrar em um restaurante com seu cachorro, disse ao segurança que seu animal de estimação era mais limpo que a cidade de Maputo e que os moçambicanos, o que me encheu de uma vergonha descabida. Reparem que o suposto incidente, do qual só fui ter ciência há pouco tempo, ocorrera há nove anos e, mesmo assim, me envergonhou. Vergonha semelhante senti quando brasileiros, no Facebook, xingaram dos piores nomes a pequena filha do colombiano Zuñiga, que tirou o Neymar da Copa em uma entrada violenta, ou quando a torcida brasileira vaiou o hino do Chile no jogo entre as duas seleções no Mineirão. 

Assim como boa parte dos brasileiros, me senti humilhado com a derrota de 7 a 1 para a Alemanha, do mesmo modo que me irritou a derrota do vôlei para a Rússia, de virada, na final das Olimpíadas de Londres. Mas por quê? Por que devo me importar com isso, se não pertenço à seleção de futebol nem à de vôlei, se não xinguei nenhuma criança na internet, se não vaiei o hino de ninguém e se a única cachorra que eu tive certamente era mais suja que o esgoto de Maputo? Em vez disso, não deveria me envergonhar, isso sim, dos atos que eu, enquanto indivíduo, efetivamente pratico e repudio?  

Se desaprovo um brasileiro que se porte mal – e pode-se aqui ter um amplo entendimento sobre o que seja se portar mal, desde grosserias e falta de educação no exterior até assaltos a estrangeiros em Copacabana –, por que não faço eu o que considero correto e esqueço as brasilidades alheias? O que tenho eu a ver com essas pessoas? 

Se, em vez da embaixadora brasileira, fosse a embaixadora suíça, russa ou japonesa que tivesse comparado os moçambicanos ao seu cachorro, eu não daria a mínima. No entanto, a ofensa estaria lá e seria tão grave quanto se proferida por uma brasileira. Concluo que o que me incomoda, portanto, não é a fala em si, mas o fato de quem a disse ter algo em comum comigo: a nacionalidade. Não se trata de um ato de altruísmo, empatia ou indignação com a ofensa sofrida por outrem. Não; é, antes disso, um sentimento mesquinho e egoísta: não posso suportar o fato de aquela pessoa ter nascido no mesmo país que eu e partilhar da minha terra e do meu idioma. Se eu não tivesse absolutamente nenhuma conexão com essa mulher, estaria pouco me lixando para a ofensa aos moçambicanos. 

Do mesmo modo, me orgulho quando vejo algo de positivo vindo de um brasileiro e estou quase virando um militante da causa que prega que nem tudo no exterior é bom, nem tudo no Brasil é ruim. Mas por que essa mania de me orgulhar de algo que outra pessoa fez, pessoa esta que só tem em comum comigo a terra onde nasceu – o que, tratando-se de um país continental como o Brasil, pode significar muito pouca coisa? Da mesma maneira que a vergonha, o orgulho aqui funciona de um modo bastante egoísta: se um canadense se levantar de seu assento no metrô para cedê-lo a uma velhinha, não vou me orgulhar por pertencer à mesma espécie humana que ele; provavelmente, não vou nem me importar. Ou pior: vou invejá-lo, pensando: os brasileiros poderiam fazer o mesmo no metrô do Rio, em vez de se acotovelarem para embarcar na Estácio. 

Mas que diabo de identificação é essa que me une a um povo ao qual não pedi para pertencer? Por que tenho que me orgulhar por ser brasileiro, me envergonhar por ser brasileiro, se simplesmente não escolhi ser brasileiro? Se nasci aqui, foi por acaso, o mesmo acaso que determinou que sou branco, magro, esquisito e desengonçado. Pois bem, se concordo que esse é um orgulho besta – porque ninguém tem mérito por ser brasileiro, chinês ou indiano –, terei que concluir que movimentos como orgulho negro ou orgulho gay são igualmente desprezíveis, com o que, de fato, não tendo a concordar. Embora não escolhamos nossa cor de pele ou nossa sexualidade, entendo o orgulho gay e o orgulho negro, assim como outros movimentos minoritários, como uma forma de dizer: "Você, opressor, tentou me subjugar ao longo da história, mas não conseguiu. Não é por sua causa que terei vergonha de ser o que sou (negro, gay, deficiente, mulher, não importa). Tenho orgulho de pertencer a esse grupo de pessoas, ainda que eu não tenha mérito nenhum por isso". 

Justamente por se tratar de um posicionamento de um grupo minoritário perante os outros, não vejo sentido em grupos que se auto-intitulam orgulhosos por serem brancos ou hetero. E, aqui, chego perto de uma resposta para a minha pergunta quanto ao orgulho de ser brasileiro. O Brasil, no rol histórico das nações, ainda que hoje ocupe um lugar muito melhor do que jamais ocupara, se posiciona no mesmo grupo dos negros, gays e subjugados, não no grupo dos brancos e heterossexuais. Por isso, quando vou para o exterior, exalto as qualidades tupiniquins até o extremo. Por esse mesmo motivo, quando me mudei do Rio para Brasília, não me constranjo em nada ao criticar o clima, a violência, o trânsito, tudo de ruim da "cidade maravilhosa", isso porque, no rol dos estados brasileiros, o Rio está no grupo dominante, não precisando em nada ser defendido em nome de qualquer orgulho carioca. Mas percebam que isso só vale para quando estou em outra unidade federativa dentro do próprio país. No exterior, o dominante Rio de Janeiro já não tem esse mesmo papel e, quando o cito, é para dizer que seu clima é espetacular, que as belezas naturais são esplêndidas, que a violência já não ameaça mais tanto quanto outrora... 

Bem, essa linha de raciocínio tem seus furos, é claro. Essa explicação não abrange, por exemplo, o caso dos franceses ou estadunidenses, que, apesar de sempre terem exercido um papel dominante na história do mundo, são excessivamente patriotas. Também entendo que o senso de pertencimento é uma necessidade natural do ser humano, embora veja mais sentido quando se trata de um grupo com ideias e características que não estão pré-estabelecidas antes do nosso nascimento. Compreendo que um anarquista se sinta pertencente – e até orgulhoso – em um grupo de anarquistas, assim como os comunistas, os liberais, os roqueiros, os fãs de quadrinhos japoneses... Mas os brasileiros? Que tenho eu a ver com o fato de ter nascido nessa porção de terra tropical? Nada, suponho. Mas que eu adoraria que aquela embaixadora em Maputo fosse argentina, isso eu não nego. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Uma questão celestial

Deus jogava GTA em seu escritório quando bateram em sua porta.

– Quem é? Já falei para não incomodar!

Era um anjo assistente, que, em tom de desculpas, girou a maçaneta e contou ao Senhor que o Conselho estava em acalentados debates acerca de conflitantes pedidos provenientes da Terra.

– Que conflitantes pedidos? – reclamou Deus. – Hoje é domingo, meu dia de folga!
– Nós sabemos, nós sabemos! – exclamou o anjo, sem fôlego. – Mas não temos mais como proceder. Tem dois sujeitos fazendo, ao mesmo tempo, pedidos excludentes!
– Leiam o guia prático de recomendações e não me encham, que hoje não vou trabalhar!
– Mas...
– E feche a porta! Os pedidos estão chegando até aqui, estão me aborrecendo, minha cabeça, minha cabeça!
– Pois não, Senhor... – O anjo fechou a porta. – Mas, como eu dizia, já lemos o guia e nenhuma instrução soluciona o nosso problema.

Deus jogou o joystick de lado, coçou a longa barba branca e, em tom mal humorado, perguntou:

– São ambos cristãos?
– Sim.
– Praticantes?
– Não.
– Então, atenda ao praticante.
– Nenhum deles é.
– Comportaram-se bem?
– No mesmo nível.
– Mesmo nível de pecados?
– Sim.
– Gays?
– Err... Isso está no guia?
– Gays?
– Não.
– Atenda a quem tem mais fé.
– Senhor, é um empate absoluto. Ambos estão no grau 567.83 do medidor de fé.

Era mesmo um caso impensado. Parecia impossível um empate nesse nível. A decisão teria que ser inédita.

– Qual é o caso? – perguntou Deus, agora mais interessado.
– É decisão de um campeonato de futebol. Trata-se de um pênalti decisivo. O cobrador pede ajuda para acertar e o goleiro, obviamente, quer defender.

Eram mesmo casos incompatíveis, pedidos inconciliáveis.

– Bem, a essa altura, o pênalti já foi cobrado, não? – perguntou Deus, esperançoso em não precisar decidir.
– Não – respondeu o anjo, para a decepção divina. – Fiz cair a energia elétrica do estádio, para ganhar tempo ao debater com os outros conselheiros e poder vir consultá-lo.

Deus coçou novamente sua barba e definiu:

– Atenda ao cobrador.

O anjo aquiesceu, mas, antes de sair do escritório do patrão, perguntou-lhe o porquê daquela escolha.

– Ora, a responsabilidade é muito maior para quem bate do que para quem defende o pênalti – explicou Deus, já num tom menos mal humorado e mais paternal. – Será muito mais penoso para o cobrador perder o pênalti do que para o goleiro deixar de defendê-lo.

Argumento incontestável. Mais uma vez, Deus mostrava toda a sua superior sabedoria.

domingo, 13 de julho de 2014

O suicídio

Suicídio é algo de que aquelas pessoas só tinham ouvido falar em livros ou no cinema. No máximo, uma pessoa muito distante, de quem elas nada sabiam, dizem que tinha se matado havia anos e uma leve lembrança ainda pairava no ar. Mas agora o suicídio não era mais algo de outro mundo. Acabou de morrer a filha da vizinha, garota inteligente, bonita, noiva de um menino para quem qualidades tampouco faltavam. Ela se enforcou em seu próprio quarto, para desespero da mãe, que estava inconsolável até agora. 

O que se seguiu na vizinhança foi um tipo de mórbida curiosidade. Por que uma menina tão jovem e aparentemente tão feliz se matou? Não perguntaram à mãe, poderia parecer falta de tato, indiscrição. Mas as pessoas não conseguiam conter suas línguas e levantavam as mais criativas conjecturas: 

 Tem traição na jogada, tenho certeza!  disse o vizinho 1. 
 Está dizendo que o noivo estava com outra?!  questionou a vizinha 2. 
 E ela pegou no flagra, só pode! 
 Vocês são muito maldosos  interveio a vizinha 3, que era a mais maldosa de todos.  Eles podem ter simplesmente terminado o noivado, por que tem que ter traição? 
 Por que tem que ter é homem na história? Por quê?  perguntou a vizinha feminista.  Se uma garota tira sua vida, é por desilusão amorosa, é? Porque somos o sexo frágil! 
 Desde o século XVIII, Goethe ressignificou o conceito de sexo frágil com seu Werther  disse o vizinho intelectual, que não perdia uma chance de ser chato. 
 Acho que ela apostou dinheiro e perdeu tudo!  disse o vizinho 37. 
 Apostar dinheiro seria uma hipótese criativa para um quarentão anacrônico, mas acho que não se aplica à filha de nossa vizinha  respondeu o vizinho 46. 

Era um colóquio de várias pessoas, a vizinhança inteira. Foi com muito pesar que a vizinha maldosa que criticava a maldade alheia teve que concluir que só havia uma maneira de descobrirem a fatídica verdade: perguntando à mãe! 

Proposta feita, todos se entreolharam, calados, como se o assunto-tabu tivesse vindo à tona. Perguntar à mãe? Que falta de sensibilidade! Mas claro, por mais indelicada que fosse a sugestão, ninguém podia discordar. Entretanto, quem teria essa ingrata função? 

Sorteio! 

Seria feito um sorteio e aquele que “vencesse” seria o responsável por ir à casa da falecida e perguntar à mãe o motivo do suicídio, mas não sozinho. Todo o batalhão iria atrás, para dar força ao infeliz entrevistador, pois naquela vizinhança, é assim: um por todos e todos por um! 

 Um por todos e todos por um, é?  disse o vizinho sorteado, muito abatido por ver seu nome ser o escolhido.  Mas falar com ela ninguém quer, né? 
 Foi questão de sorte! Não reclame! 

Sim, o batalhão de curiosos iria junto, mas sem direito a voz. Só o sorteado poderia perguntar aquilo que todos queriam saber. 

Assim fizeram. Bateram na porta da mãe em luto, que atendeu despenteada e com olhos inchados. 

 Estamos aqui para saber por que sua filha se enforcou! 

Todos puseram as mãos na cabeça com tamanha inabilidade para fazer tal pergunta, sem nenhuma introdução e ainda tocando diretamente naquele que deve ser o mais horrendo modo escolhido para o suicídio: o enforcamento. 

 A televisão pifou!  respondeu a mãe, em prantos. Todos olharam uns para os outros, como que incrédulos: 
 O que ela falou? 
 Não ouvi bem. Parece que a televisão pifou. 
 Mas o que isso tem a ver com o suicídio? 
 Não sei... Ela pode estar delirando. 
 Ou pode ter sido esse o motivo... Não, né? 
 Como assim a televisão pifou?  perguntou o sorteado. 
 Pifou! - respondeu a mãe.  Agora, me diz: precisava se matar por isso? Se isso era tão importante para ela, poderíamos comprar outra TV. É claro que ia demorar, não estamos bem de dinheiro, não sei quando seria... A pobrezinha deve ter pensado nisso: que nunca mais teria uma TV de novo... Ainda assim, não é razão para tirar a própria vida! Mas ela escreveu uma carta e disse que o motivo foi realmente esse! Uma TV! Uma TV! 

As pessoas só não acharam que aquilo era uma piada porque a mulher estava realmente em prantos, com certeza sem condições de brincar com a cara dos outros. O entrevistador despediu-se e virou as costas com a mesma insensibilidade com que se apresentara. Todos foram embora e se criaram novos colóquios para debater o assunto. 

 Gente, vamos raciocinar um pouco  disse a vizinha psicóloga.  Ela não se matou por isso. Ela já deveria estar com algum tipo de problema e a TV pifar foi a gota d’água. Não foi por isso que ela se matou, isso é tão óbvio quanto dois mais dois serem quatro. É só pensar um pouquinho. 

Os outros não gostaram muito daquele tom que dava a entender que eles eram burros, mas relevaram e concluíram: teriam que conseguir essa carta! Como? Invadindo o quarto da defunta. 

 Eu não entro em quarto de morto!  disse a vizinha supersticiosa.  Quanto mais de morto suicidado! 
 Não é necessário  respondeu o vizinho perspicaz.  A carta está na sala. Não repararam que, quando nossa sofrida e querida vizinha citou a carta que a filha tinha escrito, ela apontou para uma escrivaninha à sua direita? A carta está lá. 
 Ótimo! Não precisamos nem perder tempo vasculhando as coisas da defunta! 
 E, à sala, é muito mais fácil de chegar. Tem uma porta lateral que está sempre aberta. 
 Perfeito! Então, quem irá? 

Sorteio de novo! 

E não é que o sorteado foi o mesmo infeliz? 

 Não acredito! Não pode ser!  resmungou o azarado.  Só ganho sorteio que não quero. 
 Vamos sortear de novo  disse o vizinho 54.  Se nosso amigo entrar na sala com o mesmo tato com que fez a pergunta do suicídio, vai disparar todos os alarmes da casa, até aqueles que não existem! 

O azarado não gostou da brincadeira, mas, como lhe convinha, aquiesceu. 

Sortearam de novo e o eleito foi o vizinho 43. Ele levou duas noites para entrar na casa, pois nunca se sentia confiante. Só não esperou mais tempo porque as cobranças eram muito fortes, ninguém mais podia segurar a curiosidade. Quando ele entrou na casa, precisou tatear de leve o escuro e não levou muito até encontrar a carta e sair de lá. 

 Você leu?  perguntaram-no. 
 Não! Vamos ler em conjunto, porque nessa vizinhança, é assim: um por todos e todos por um! 

Assim que começou a Terceira Reunião Extraordinária do Departamento da Fofoca, o vizinho com vozeirão leu alto para todos as últimas palavras da morta: 


“Amor, te amo. Mãe, te amo. Pai, avó, avô, tio, irmão, amo todos imensamente. Mas, acima de vocês (e isso não diminui meu amor), amo minha TV. Sem ela, não vivo. Sem ela, dou fim à minha existência. Adeus.” 


 Isso é uma piada de mau gosto!  gritou o vizinho irritado. 
 Esperem, tem uma observação no final  disse o leitor da carta. 


“PS: Não tentem achar pelo em ovo. Eu me matei única e exclusivamente por causa da TV. Até ela pifar, eu era feliz. Quem quiser descobrir motivos que não existem não passa de psicólogo frustrado.” 


Todos olharam para a vizinha psicóloga, que estava ficando vermelha como um pimentão. 

 Eu acho  disse o vizinho provocador  que tentar encontrar motivos além dos citados é um equívoco imenso. Tenho tanta certeza de se tratar de um erro quanto tenho de dois e dois serem quatro
 Concordo  respondeu a vizinha não menos provocadora.  É só raciocinar um pouco para saber que foi mesmo por causa da TV que ela se matou.  
 Tem outro PS  disse o leitor, para alívio da vizinha psicóloga.  Diz aqui embaixo: 


“PS 2: Não me julguem. Tem gente que se mata por amor. Tem gente que se mata por futebol. Tem quem se mate pelo mais estapafúrdio motivo - estapafúrdio para os meus olhos, para os seus olhos, mas não para a própria pessoa. E, para mim, não existe nada mais importante no mundo do que a televisão.” 


Deram-se, enfim, por satisfeitos com a explicação. Invadiram de novo a casa da mãe da garota e devolveram a carta para o mesmo lugar onde a encontraram, sem saber se a mulher chegou a dar falta do objeto. 

Cansados do tema, exaurido o assunto, as pessoas foram aos poucos voltando às suas vidas normais. E assim acabou a curiosidade de todos. Precisaram de tempo para introjetar o motivo do suicídio. Uma televisão! Mas, respeitando a vontade da garota, não a julgaram (não muito). Com o passar do tempo, já ninguém mais se lembrava daquele enforcamento e a vizinhança caiu novamente em sua velha e pacata rotina diária de vivos que não se matam. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Feto

É fato que o feto da foto fui eu
O feto da foto de fato morreu
Farto fantasma do feto afeta
o homem feito que fita o fim.

A vida nos finta
e a fita é forte,
fortifica o que é fútil,
o fragor e o olfato!

Furtada a fortuna,
só fito o fugaz
Feito, o infortúnio
fratura e não faz.

domingo, 6 de julho de 2014

Bolinhas eclípticas

Acordei, olhei o celular, eram 10 da manhã. Levantei-me, abri as cortinas e as janelas e, para minha surpresa, ainda estava escuro. 10 da manhã e o sol ainda não tinha nascido? Atravessei a porta do meu quarto rumo à varanda, a fim de olhar o céu e confirmar aquele estranho acontecimento: realmente, não havia nenhuma claridade natural. Um eclipse? Não me lembrava de nada desse tipo ter sido comentado pelos veículos de comunicação. Liguei meu notebook, busquei na internet por qualquer informação do fenômeno, mas não encontrei nada.

Não tive muito tempo para refletir sobre o mistério. No fim do horizonte, uma nuvem branca já se fazia visível, juntamente com um pedaço de céu azul. Essa mesma nuvem foi se avolumando e veio em minha direção, voando rapidamente, varrendo a negritude celestial e tornando dia tudo o que havia segundos era noite. Foi aí que percebi que havia várias bolinhas no céu, como pequenos balões, muito minúsculos, que caberiam nas palmas de nossas mãos. Esses pequenos objetos circulares eram coloridos – tinha azul, vermelho, amarelo, laranja com estrela branca, verde com pontinhos azuis – e caíam no chão. Eram eles que tapavam o sol. Apesar de serem de inúmeras cores, o céu não era colorido, mas negro: só se percebiam suas cores quando já estavam próximos ao solo. Conforme a nuvem varria a noite, mais e mais dessas bolinhas despencavam e uma música comemorativa começou a ser tocada, como em um carro de som. Sim, era mesmo um carro de som: tinha agora alguém falando ao longe em um microfone, como um sindicalista em um áudio ruim, cujas palavras não captamos, mas com a ênfase sonora toda na animada canção que anunciava o fim da noite.

Eu, porém, embora estivesse aliviado por ver o sol, estava mais preocupado do que animado. Eram milhares, milhões de bolinhas que caíam lá de cima. No momento, a nuvem ainda não me alcançara, mas, assim que atingisse minha varanda, esses pequenos e pesados balões destruiriam meu teto, sujariam minha casa inteira. Minha varanda tem quatro portas, sendo que apenas uma dá para o quarto. Fui fechá-las apressadamente, a fim de, pelo menos, impossibilitar que as bolinhas entrassem no interior de minha residência. Mas a nuvem era mais rápida do que eu e só deu tempo de eu fechar três das quatro portas, deixando aberta justamente a do quarto. As bolinhas, que, agora eu percebia que caíam na diagonal, não quebraram meu teto (embora tenham feito um horrendo barulho), mas invadiram meu quarto com enorme violência. Eu, com êxito, encolhi-me e me protegi para não ser atingido por elas. Já era dia completo, céu azul. Olhei para o interior do recinto: os tapetes, o chão, tudo no quarto tinha uns dois palmos de altura de bolinhas. A cama, mesmo sendo grande, só tinha visível sua cabeceira. O colchão estava tomado por aqueles pequenos e coloridos objetos. O jardim, do lado de fora, parecia uma piscina de bolinhas, daquelas que antigamente encantavam as crianças em alguns parques de diversões.

Saí da varanda e voltei para o quarto, meio encantado com o cenário, meio com preguiça de limpar aquilo tudo. Como jogaria tanta bolinha fora? Haja saco plástico! Varrê-las, talvez? Para onde? Felizmente acordei e me vi livre desse angustiante enigma prático de limpeza.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A vida é uma loteria

 Ganhei! Ganhei! Ganhei!

Os gritos provinham de um entusiasmado jovem, que pulava ensandecidamente nos aposentos de seu pequeno apartamento.

 Ganhei! Ganhei! Ganhei!

Que hora para ganhar na loteria! É claro que não existe momento ruim para se ganhar uma bolada dessas, porém, nesse caso, era especialmente oportuno. O rapaz estava desempregado, mas, antes de ser demitido, tinha pedido a mão de sua namorada em casamento. Depois, sem trabalho e sem salário, via-se às vésperas de se casar e não tinha coragem de desmanchar os planos, principalmente porque as famílias já haviam planejado todo o cerimonial da festa, que, inclusive, já tinha data marcada. Como se não bastasse, sua noiva estava grávida.

 Ganhei! Ganhei! Ganhei!

Ele não parava de reler os números divulgados no jornal e compará-los aos por ele apostados. Eram, de fato, os mesmos. Estava milionário. Um dos maiores prêmios acumulados da história.

 Ganhei! Ganhei! Ganhei! Não posso acreditar! Eu ganhei!

Saiu do apartamento (que estava com o aluguel atrasado) e correu rumo à casa da noiva para lhe contar que todos os problemas do casal estavam terminados. Poderiam viver numa mansão, dar uma vida de luxo para o filhinho que esperavam e serem muito felizes, sem as preocupações financeiras que comumente arruínam amores.

 Amor, amor! – bradou ele, entrando afoitamente pela casa da moça. – Você não vai acreditar!
 O que foi? – perguntou ela, esbugalhando os olhos. – Meu Deus! Você está suando!
 Olha isso! Olha isso! – ele falou, numa voz estridente e empolgada, entregando à noiva o jornal.
 Que tem? Fala logo, você está me assustando!
 Sabe as filas nas casas lotéricas? Sabe o prêmio que estava acumulado?
 Sei... Que tem o prêmio?
 Você está falando com o ganhador!

Ela parou, pôs a mão no ventre e se sentou no sofá.

 Você... ganhou?
 Ganhei! Ganhei! Seremos felizes!

Ela se emocionou tanto que não conseguia responder. As palavras não lhe vinham, assim como o ar. Aos poucos, foi ficando vermelha. Ainda com a mão no ventre, tombou para o lado e morreu.