domingo, 15 de junho de 2014

O dito pelo não dito

Uma das partes mais importantes de um livro são as conversas, as falas dos personagens. Todo mundo já deve ter passado pela experiência de ler aqueles livros de escrita corrida, sem diálogos, e sentir que a coisa é mais pesada, flui bem menos do que textos com conversações. Quando isso acontece, o escritor tem que ter muito mais habilidade para não aborrecer o leitor. 

Cada autor tem seu jeito de transcrever as falas de seus personagens. Por exemplo: tem os que usam aspas e os que preferem travessão. Dentre estes últimos, há autores que não delimitam onde acaba a fala do personagem e começa a do narrador e outros que deixam tudo marcadinho. Além disso, existe a possibilidade do discurso indireto. 

Olhem só quantos jeitos diferentes de falar que Fulano, ao entrar no carro, disse estar atrasado: 

1) “Estou atrasado”, disse Fulano, entrando no carro. 
2) Fulano entrou no carro e disse “estou atrasado”.  
3) Fulano falou que estava atrasado e entrou no carro. 
4) – Estou atrasado – disse Fulano, entrando no carro. 
5) – Estou atrasado disse Fulano ao entrar no carro. 

Mas bem, todo esse blá-blá-blá é para dizer que, lendo “O Testamento do Sr. Napumoceno”, do cabo-verdiano Germano Almeida, me deparei com um método inovador (eu, pelo menos, nunca tinha visto) de transcrever a fala dos personagens. Vejam esse trecho, extraído das páginas 133 e 134: 

“E nesse sentido fizera algumas tentativas disfarçadas, nada de pedidos formais, apenas uma ou outra indireta a alguns membros dos corpos sociais do tipo qualquer dia vou conhecer o vosso retiro, parece ser lugar alegre e de bom convívio, S. Vicente está fraco de diversões, só nas fraldas já se encontra qualquer coisa, mas sabe, a minha posição já não me permite essas andanças, prefiro antes lugares mais recatados, etc., mas a verdade é que todos se fizeram desentendidos, apenas sim, sim, o Grêmio é um lugar interessante, excelente para um copo, apareça qualquer dia, diga que vai como meu convidado”  

Viram que doideira? O texto fica muito mais dinâmico, mais corrido. O autor não pontua nenhum diálogo, não delimita em nada onde começa e termina cada fala e, apesar disso, usa o discurso direto. Isso foi o que mais me chamou atenção nesse que foi o último livro que li. “O Testamento do Sr. Napumoceno” é provavelmente a obra mais importante de Germano Almeida e faz parte da coleção de livros africanos de língua portuguesa que estou lendo. A história em si é bem bobinha, mas achei muito interessante essa maneira de narrar as falas dos personagens. E esse pequeno detalhe fez um livro que, de outra forma, seria totalmente dispensável e sobre o qual eu jamais comentaria, se tornar bem peculiar. 

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em junho de 2013. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

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