terça-feira, 24 de junho de 2014

A consulta

O homenzinho chegou ao consultório médico com olhar fatigado:

 Boa tarde, doutor.
 Boa tarde – respondeu o médico, imponente. – O que sentes?
 Gostaria de um atestado médico para três dias, pois precisei faltar hoje o trabalho e receio que precisarei faltar também nos próximos dois dias.
 Pois vamos ver, portanto, sua situação. Que queixas o senhor tem?
 Pois não? – perguntou o homenzinho, chegando-se mais para frente, como se necessitasse se certificar de que ouvira corretamente.
 Pergunto o que sentes.
 Oh, doutor, mas que pergunta! Só quero o atestado, por favor.

O médico se quedou taciturno, sem saber ao certo se compreendera a real intenção do homenzinho curvado e enrugado à sua frente.

 Senhor, posso escrever o atestado sem nenhum problema. Mas preciso saber o que o senhor tem.
 Mas como eu poderei te dizer isso? – perguntou o homenzinho, com uma voz estridente, como se fosse óbvio o absurdo que o doutor lhe pedia.
 O senhor sente alguma dor? – perguntou o médico, após um suspiro que lhe fez retomar a paciência.
 A meu ver, sim – respondeu o paciente, cerrando as sobrancelhas.
 A seu ver? O senhor está gozando de mim?
 Ora, pois a mim parece que o senhor é que está tirando com a minha cara!
 Meu senhor! – gritou o médico e, logo percebendo que se tratava de um tom inapropriado, remendou-se: – Peço-lhe apenas que me digas se tem alguma dor, algum incômodo, qualquer que seja. Afinal, o senhor não veio aqui à toa, veio?
 Mas é claro que não! Como já disse, vim em busca de um atestado médico, que, infelizmente, só o senhor ou algum colega de sua profissão pode me oferecer.
 Mas, meu senhor! Como posso te escrever um atestado médico se nem mesmo sei qual doença o senhor tem?
 Ora, escreva qualquer coisa! Como o senhor pretende saber minha doença? Não é óbvia a impossibilidade desse desejo?
 Se assim fosse, eu rasgaria o meu diploma, senhor. Aliás, o senhor está tomando meu tempo desnecessariamente.
 Assim, não sairemos desse impasse – respondeu o paciente, cruzando as pernas e afrouxando o corpo na cadeira, como se fosse ele o estorvado.
 Mais uma vez vou te perguntar o que o senhor tem. Se o senhor se negar a me responder, precisarei pedir para sair do meu escritório – disse o doutor, muito sério.
 Ora, mas que ideia! Como te direi o que tenho?
 Com a boca, de preferência! – irritou-se o médico.
 Como se a boca fosse capaz de tão ingrata tarefa! Doutor, tenho alguma coisa aqui, entre o ombro esquerdo e o coração.
 Muito bem – respondeu o médico, satisfeito com o início, enfim, da descrição. – Fale-me mais.
 Mais o quê?
 A que o senhor se referia quando disse que sentia “alguma coisa” entre o ombro esquerdo e o coração?
 A alguma coisa.
 Uma dor?
 Como vou saber?
 Pois é o senhor que sente!
 Mas o que sinto não posso dizer!
 É segredo, então?
 É inenarrável, doutor!
 Como inenarrável?
 Como vou saber o que o senhor chama de dor?
 Eu chamo de dor o que a humanidade inteira chama de dor! – Aqui, o médico tornava a elevar o tom de voz.
 A humanidade inteira? Ora, que sabe o senhor sobre a humanidade?
 Meu senhor, se persistir nesse tom agressivo, serei realmente obrigado a pedir que o senhor se retire! – gritou o doutor, sem perceber que ele também estava sendo agressivo.
 Pode pedir! Mas, antes, o atestado, por favor.
 Mas o que diabos o senhor sente entre o ombro esquerdo e o coração?!
 Uma dor.
 Enfim, admitiu que é uma dor!
 Mas não sei se é realmente. Só falei para me ver livre dessa conversa idiota.
 Que tipo de dor? – O doutor ignorou a parte da "conversa idiota".
 Ora, quanta prepotência! Agora, o doutor acha que as palavras não apenas podem designar o que é dor como até mesmo explicá-la!
 Pois tente!
 Uma dor aguda, segundo dizem, embora eu não a ache aguda. Causa-me às vezes muita irritação, embora pessoas que se dizem felizes ajam da mesma forma que eu quando me encontro irritado. Tem dias em que nem consigo me levantar da cama, mas também não tento o suficiente. Tira-me o apetite, apesar de eu almoçar e jantar. Mais o quê?
 Por favor, tire sua camisa – pediu o doutor, já considerando passar logo o maldito atestado médico e se ver livre daquele homem insuportável.
 Tirar a camisa? O senhor é minha esposa, por acaso?
 Preciso te examinar.
 Mas que pedido curioso! É a primeira vez que pedem para eu tirar minha camisa sem ser para fins sexuais.
 Tire-a, por favor.
 O senhor... Posso confiar que o senhor é heterossexual?
 Tire sua camisa!
 Pois tiro, ok!

O rapaz tirou sua blusa e o médico examinou-o.

 Tem faltar de ar?
 Ora, se ainda estou vivo, presumo que não!
 Me refiro à dificuldade de respirar...
 Como eu vou saber o que é a facilidade para respirar?
 Sente dor na nuca?
 Doutor, entendo que em sua faculdade o senhor tenha se deparado com várias pessoas que acreditavam ser Deus. Mas elas não eram e tampouco eu sou. Sinto-me constrangido em dizer isso para alguém que tanto teve que estudar para exercer a profissão, mas não posso mais me calar. Preste atenção, doutor: eu não posso saber se tenho dor na nuca, afinal essa nuca é só minha e jamais me foi cedida outra nuca! Não tenho referencial, percebe?
 Mas... Mas podes me dizer se há algo de errado quanto ao que o senhor sentia anteriormente, ainda que em relação à mesma nuca.
 E eu sei lá o que o senhor chama de errado!
 De diferente.
 De diferente, sim, é óbvio. Antes, minha nuca era menos peluda e mais comprida. Agora, os anos chegaram. Além disso...
 De diferente e que te cause mal estar.
 Mal estar! Ótimo! Chegamos à maior abstração de todas! Se o doutor conseguir me explicar o que é o mal estar, respondo com todo gosto.
 É algum desconforto físico que te cause infelicidade.
 O que é o desconforto? O que é a infelicidade?
 Ora, vá para o inferno! – exaltou-se de vez o médico. Para a sua sorte, antes que o homenzinho pudesse responder, a secretária pediu licença e entrou no consultório, afirmando que já fazia uma hora desde que a atual consulta começara e que os outros pacientes estavam ansiosos com a demora.
 Mocinha, vejo que és uma má companhia para o doutor – interveio o paciente e o médico arregalou os olhos, incrédulo com a ousadia. – Deve ter sido da senhora que o doutor tirou essas ideias de tornar absolutas coisas abstratas. Como pode a senhora dizer que os pacientes estão ansiosos? A senhora, por acaso, é Deus, para saber o que sentem todas aquelas pessoas? És muito formosa, não nego, mas estás muito longe da divindade.
 Eles me disseram que estão ansiosos, senhor... – respondeu a secretária, vacilante.
 E o que eles sabem sobre ansiedade? Pior: o que eles pensam que a senhora pensa sobre ansiedade, para poderem se exprimir de modos tão convictos?
 Err... Com licença. – E a moça fechou a porta, para desespero do médico, que tinha se aliviado por se ter encontrado temporariamente fora da conversa.
 Bem, o senhor a ouviu – disse o doutor. – Tenho outras consultas programadas para hoje. Ou o senhor me ajuda a diagnosticar o seu caso ou peço que se retire, de uma vez por todas.
 E meu atestado?

A conversa se desenrolou por mais ainda meia hora. O médico não conseguia se livrar do homenzinho e este, além de fazer questão do atestado, insistia que as sensações são inenarráveis, que o doutor dava muito valor às palavras.

 Por isso, o ser humano é tão solitário – continuava o homenzinho, para desespero do médico. – Não consegue nunca contar a outra pessoa o que sente.

O doutor repousava a cabeça em suas mãos, absorto naquela narrativa infindável.

 Às vezes, minha filhinha se aborrecia comigo. Mas só quando era pequena e, de uma criança, podemos suportar tais imbecilidades, que, francamente, tornam-se intoleráveis partindo de um profissional como o senhor. – Os olhos do doutor flamejaram. – Tinha vezes em que a pobrezinha me acordava de madrugada, se dizendo triste, e eu dizia que ela tinha que guardar essa suposta tristeza para ela, pois eu jamais a entenderia. Ah, o senhor tinha que ver a cara que ela fazia! Parecia que ia me comer vivo!

O doutor olhava o relógio e suspirava, mas, apesar das várias ameaças, não expulsava o paciente.

 O que sentimos é só nosso, doutor. Eu mesmo disse que minha filha se aborrecia, mas o que sei eu sobre o aborrecimento alheio? Usei tal verbo por necessidade apenas. As palavras não são nada. O senhor me perguntava sobre mal estar e minha filha me falava sobre infelicidade. Mas todos desconhecemos essas palavras. Alegria, por exemplo, só tem significado para a pessoa que inventou a palavra, há não sei quantos anos. Desde então, as pessoas apenas repetem o vocábulo, sem saberem o que estão dizendo, sem conhecerem o que sentia o inventor de tal substantivo quando o criou, todos nós apenas imaginando um suposto significado para aquilo.
 Chega, por favor... – pediu o médico, com voz chorosa. – Te imploro. Eu estou tão cansado...
 Ah, mas vejo que não aprendeu nada. O que é o cansaço, doutor?
 Te dou seu atestado, chega! – E o doutor bateu na mesa.
 Oh, doutor, até que enfim! O senhor não imagina o tempo que me fez perder!

Ouvindo isso, o médico tremeu. Só podia ser uma provocação! Mas não falou nada, para não ser perguntado sobre o que era a provocação.

Escreveu rapidamente um atestado e assinou. Ignorou as queixas no ombro esquerdo do homenzinho e relatou que ele tinha, isso sim, sérios problemas psiquiátricos e que, por isso, teria que se ausentar não apenas por três dias, mas por um mês inteiro do trabalho, com a condição de procurar urgentemente um médico da área e fazer todos os tratamentos pertinentes.

 Psiquiatra? Que loucura, doutor! – exclamou o homenzinho e o médico não soube se o jogo de palavras foi proposital. O engraçado era que o paciente parecia realmente aliviado por, enfim, se encaminhar à porta de saída, como se para ele aquela conversa tivesse sido muito mais penosa do que para o doutor.
 Próximo! – gritou o médico, que nem sequer olhou para o homenzinho que saía. Durante os aproximados vinte segundos em que ficou sozinho em seu escritório, no intervalo entre um paciente e outro, enxugou o suor que lhe escorria pelas têmporas.
 Boa tarde, doutor! – cumprimentou a nova paciente, que, ao contrário do anterior, nada tinha de exótica. A consulta transcorreu normalmente, mas o médico não conseguia acreditar em uma palavra que dizia a moça. Quando ela lhe disse que vinha tendo um sono muito leve, ele não pôde evitar a pergunta: – Mas o que a senhora considera um sono profundo?

Pobre doutor. Era um bom profissional, mas caiu no árduo terreno da incredulidade. Não cria mais em nenhum paciente seu e, mesmo no âmbito pessoal, passou por várias dificuldades. Quando o seu filho, por exemplo, dizia que o dever de casa fora fácil, não acreditava e perguntava o que era a facilidade. Quando dizia, por outro lado, que fora difícil, tampouco conseguia crer e lhe fazia a mesma pergunta. O próprio doutor, na verdade, não podia mais se exprimir e, quando assim fazia, só agia por termos relativos. Digamos que sua mulher perguntasse: “Como foi no trabalho hoje, amor?”. Ele poderia responder: “Melhor do que ontem”, “pior do que semana passada”, mas nunca "fui bem" ou "fui mal".

O coitado passou a não mais saber de nada. Não sabia se estava feliz ou triste ou cansado ou faminto ou sonolento. Não sabia o que sentia e passou a ficar cada vez mais calado. Não nos enganemos: ele tinha vontade de falar! Mas não tinha nada para dizer. Tudo o que falasse (“estou assim”, “sinto-me de tal jeito”) seria apenas uma expressão para si mesmo, nada tendo a ver com um suposto receptor, que, por mais que balançasse a cabeça, jamais o entenderia.

Com o tempo, nem mesmo essa mania de relativização deu conta de sua angústia. Não adiantava dizer que estava mais feliz, mais triste, mais cansado ou mais disposto que outrora. No fundo, ninguém sabia como ele estava no dia anterior, portanto em relação a que saberiam como ele estava no atual momento? Não tinha dúvidas: as palavras não lhe serviam mais.

Dois anos depois da fatídica consulta, mais calado que nunca, abandonou a profissão. Quem diria que aquele homenzinho o influenciaria tanto? Sua esposa, se antes não o entendia, passou a compreendê-lo menos ainda e se separaram. Os filhos o tomaram por maluco e ficaram com a mãe. O doutor passou, portanto, a morar sozinho, vivendo de suas economias, e, quando sua idosa mãe lhe telefonava da distante Alemanha, onde morava, e perguntava como estava o céu no Brasil, ele nem sequer relativizava mais; não respondia: “Mais nublado que ontem" ou "menos azul que anteontem". Como a velha não sabia quão azul estava o céu no dia referido e como ele mesmo acreditava que "azul" era uma palavra que nada tinha a ver com a verdadeira cor celestial, respondia simplesmente: "Não sei".

Foi nessa época que passou a criar palavras a fim de se exprimir para si próprio, uma vez que as já existentes não mais serviam. Pensava que, sendo o inventor de novas palavras, seria ele o único ser do mundo capaz de se expressar e os outros passariam a ser os copiadores, exatamente como explicara o homenzinho havia já muitos anos. Não adiantou nada, é claro. Se as outras pessoas não entendiam suas novas palavras, a comunicação permanecia impossível.

Não sei que fim levou esse doido sem vocabulário. Deve ter morrido, pois já se passaram muitos anos desde a consulta com o homenzinho. Sua ex-esposa se casou novamente e seus filhos cresceram em outra cidade. Quando tentavam visitá-lo, não o encontravam e foi aí quando se perderam os relatos do doutor. Disseram que ele passou seus últimos anos antes de morrer muito sozinho, mas o que é a solidão? O que é a morte? Eu, sinceramente, espero que, se ainda vivo, esteja bem. Ninguém, ninguém, absolutamente ninguém sabe o quanto ele sofreu após o isolamento. Nem eu. 

domingo, 15 de junho de 2014

O dito pelo não dito

Uma das partes mais importantes de um livro são as conversas, as falas dos personagens. Todo mundo já deve ter passado pela experiência de ler aqueles livros de escrita corrida, sem diálogos, e sentir que a coisa é mais pesada, flui bem menos do que textos com conversações. Quando isso acontece, o escritor tem que ter muito mais habilidade para não aborrecer o leitor. 

Cada autor tem seu jeito de transcrever as falas de seus personagens. Por exemplo: tem os que usam aspas e os que preferem travessão. Dentre estes últimos, há autores que não delimitam onde acaba a fala do personagem e começa a do narrador e outros que deixam tudo marcadinho. Além disso, existe a possibilidade do discurso indireto. 

Olhem só quantos jeitos diferentes de falar que Fulano, ao entrar no carro, disse estar atrasado: 

1) “Estou atrasado”, disse Fulano, entrando no carro. 
2) Fulano entrou no carro e disse “estou atrasado”.  
3) Fulano falou que estava atrasado e entrou no carro. 
4) – Estou atrasado – disse Fulano, entrando no carro. 
5) – Estou atrasado disse Fulano ao entrar no carro. 

Mas bem, todo esse blá-blá-blá é para dizer que, lendo “O Testamento do Sr. Napumoceno”, do cabo-verdiano Germano Almeida, me deparei com um método inovador (eu, pelo menos, nunca tinha visto) de transcrever a fala dos personagens. Vejam esse trecho, extraído das páginas 133 e 134: 

“E nesse sentido fizera algumas tentativas disfarçadas, nada de pedidos formais, apenas uma ou outra indireta a alguns membros dos corpos sociais do tipo qualquer dia vou conhecer o vosso retiro, parece ser lugar alegre e de bom convívio, S. Vicente está fraco de diversões, só nas fraldas já se encontra qualquer coisa, mas sabe, a minha posição já não me permite essas andanças, prefiro antes lugares mais recatados, etc., mas a verdade é que todos se fizeram desentendidos, apenas sim, sim, o Grêmio é um lugar interessante, excelente para um copo, apareça qualquer dia, diga que vai como meu convidado”  

Viram que doideira? O texto fica muito mais dinâmico, mais corrido. O autor não pontua nenhum diálogo, não delimita em nada onde começa e termina cada fala e, apesar disso, usa o discurso direto. Isso foi o que mais me chamou atenção nesse que foi o último livro que li. “O Testamento do Sr. Napumoceno” é provavelmente a obra mais importante de Germano Almeida e faz parte da coleção de livros africanos de língua portuguesa que estou lendo. A história em si é bem bobinha, mas achei muito interessante essa maneira de narrar as falas dos personagens. E esse pequeno detalhe fez um livro que, de outra forma, seria totalmente dispensável e sobre o qual eu jamais comentaria, se tornar bem peculiar. 

………

Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em junho de 2013. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Não é metáfora

Tinha uma luz no fim do horizonte
que se apagava aos poucos.
Não é metáfora: era mesmo uma luz.
Ele murchava junto,
se encolhia e sumia, devagar.

Repentinamente, a luz se acendia de novo,
a luz no fim do horizonte.
Não é metáfora: era mesmo uma luz.
Ele se erguia de novo,
estufava o peito e voltava à vida.

A luz se apagava e voltava,
se apagava e voltava,
se apagava e voltava.
Ele se encolhia e se erguia,
na mesma velocidade.

Mas quero deixar claro que
não é metáfora:
era mesmo uma luz.