terça-feira, 6 de maio de 2014

O acaso

O homem queria se suicidar. 

Não convêm os motivos, pois não têm a menor importância para a curta história a seguir e, ainda que a tivessem, não os diria, em respeito a meu personagem, que, certamente, não gostaria de ver expostas suas fraquezas a qualquer curioso que, porventura, vier a ler essas linhas. 

O que importa era sua dúvida. Queria, mas não totalmente. Na verdade, creio que ninguém queira, com plena convicção, morrer. 

Resolveu deixar o acaso decidir. 

Decidiu que, se naquela noite chovesse, se mataria. Como a chuva independia da sua vontade, seria uma escolha inteiramente fortuita. 

As horas, é claro, passaram-se vagarosamente. Quando a noite oficialmente se fez presente, estava quente em seu quarto, janelas abertas, céu limpo. Não parecia que choveria, mas deveria esperar, com ansiedade. 

No dia seguinte (passou a noite em claro), estava vivo, afinal não havia chovido. Foi tomar café com sua mãe e seu irmão mais novo; aquela comentou sobre o temporal que lhe havia surpreendido na volta para casa, na noite anterior. O homem, alarmado, disse que não tinha chovido; a mãe falou que tinha, sim; o homem enfureceu-se, bateu na mesa e, de forma descontrolada, disse que não, que havia vigiado pela janela a noite toda, que não chovera! 

A mãe não entendeu o porquê da cólera do filho e, em tom de desculpas, contou que, na festa aonde tinha ido, em um bairro longe de sua casa, havia, sim, chovido. O homem, então, viu-se no cruel dilema: não definira a exata localização de onde deveria chover para consumar seu fim. 

Levantou-se da mesa, sem dizer nenhuma palavra, disposto a dar nova chance ao acaso, uma vez que sua mãe atrapalhara seus planos. Foi à mesma janela da noite anterior, avistou a rua e pensou que, se passasse um carro vermelho dentro de cinco minutos, se mataria. Pronto: problema delimitado. 

A mãe se aproximou, pôs as mãos nas suas costas e perguntou por que o rapaz estava tão nervoso ultimamente. Ele não respondeu. A mãe afundou-se no silêncio compartilhado, permanecendo junto ao filho. 

Após quatro minutos, nenhum carro vermelho havia se feito presente. A mãe, para quebrar o silêncio, comentou: 

 Seu pai e eu vamos comprar um carro. 

O homem não respondeu. A mãe prosseguiu: 

 Algum parecido com aquele vermelho cruzando a esquina. 

O rapaz já havia avistado o tal carro, mas, para ele, era laranja. Não iria, porém, dar mais uma chance ao destino. A mãe era a encarregada de sua morte. Jogou-se, caiu com a cabeça no chão e faleceu.

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