domingo, 18 de maio de 2014

Frutos do Amor

A clínica Frutos do Amor era especializada em proporcionar a casais que, por alguma limitação biológica não podem ter filhos, a possibilidade de tê-los. Era muito famosa e tinha diariamente longas filas de espera na recepção, ainda que trabalhasse com marcação antecipada.

Conhecida por sua eficiência, a clínica jamais deixara de cumprir seus propósitos com nenhum cliente. Era certo que, se um casal fosse admitido pelos renomados profissionais do local, procriaria logo na primeira tentativa, independentemente de seus problemas genéticos. Em caso de falha – o que nunca aconteceu –, teriam o direito de receber não apenas o dinheiro de volta como uma gorda indenização, prevista no contrato.

A principal dificuldade encontrada pelos clientes, porém, era justamente sua autorização pelo corpo médico. A clínica possuía regras próprias de conduta e seu conjunto ético principal era o de que só trabalharia com casais que se amassem, que já não tivessem filhos, que fossem maiores de 30 anos, que comprovassem boa condição financeira – o que era desnecessário, uma vez que o mero procedimento já era caríssimo – e, o que gerava constantes protestos da comunidade GLS, que tivessem seus progênitos oriundos de relação sexual. Desses requisitos, o de mais difícil percepção era o relativo à obrigação de os clientes se amarem, dificuldade esta, segundo entendimento da administração, minimizada por uma prévia entrevista e pela exigência do ato sexual. De origem cristã, o corpo administrativo da Frutos do Amor nem sequer concebia a possibilidade de duas pessoas irem para a cama sem se amarem.

Portanto, tudo acontecia da seguinte maneira: o cliente telefonava para a clínica, marcava consulta – geralmente só havia vaga para, no mínimo, seis meses depois –, chegava cedo ao local, acompanhado por seu cônjuge, e, depois de horas de espera, era atendido pelo médico. Como a duração das consultas variava de caso para caso, era marcado apenas o dia, mas jamais o horário da entrevista. Se aprovados pelos médicos entrevistadores, o homem e a mulher seguiam para um quarto privado ao fundo, faziam amor e, após o gozo do homem, este chamava um enfermeiro, que, imediatamente, ligava incontáveis aparelhos ao corpo feminino. Eram necessárias algumas horas para a fecundação ser comprovada pelo médico responsável, que, somente então, liberava os clientes e os desejava boa sorte, já mais nada tendo a ver com os procedimentos futuros. Os cuidados relativos ao período pré-natal seriam de responsabilidade do casal, que deveria, por conta própria, procurar um médico de sua preferência, como em qualquer gravidez, fora da Frutos do Amor. 

Claudio era um desses homens dispostos a gastarem todo o dia para terem um filho. Namorava Beatriz, mas, embora ainda não tivessem conseguido descobrir a razão que a impossibilitava de engravidar, sabiam que, seja por causa dele ou dela, tentavam em vão havia anos procriar a espécie. Telefonaram em fevereiro e somente em outubro conseguiram ser atendidos por um médico da Frutos do Amor, um sujeito sisudo, com espessos bigodes e olhos bem fechados por trás de óculos de grossa armação, transparecendo, de imediato, que seria árdua a tarefa de convencê-lo a autorizar o procedimento.

– Então, os senhores são apenas namorados? – perguntou o doutor, já em tom de reprovação.

– Noivos, doutor – respondeu Claudio, tentando dar ar de seriedade ao seu relacionamento.

– Nos casaremos no próximo ano – completou Beatriz.

– Por que não se casam primeiro? – indagou o médico.

– Porque já moramos juntos – respondeu Claudio.

– Morar junto não exige qualquer responsabilidade. Somente o casamento legitima o amor sentido pelo casal.

– Mas nos amamos, doutor – tentou Beatriz. – Já namoramos há muito tempo e...

– Desculpem, mas não me convencem – interveio o médico.

– Senhor – começou Claudio, puxando alguns papéis de sua pasta. –, trouxe aqui algumas cartas trocadas por nós no início de nosso namoro. O senhor pode ver que são datadas de muito tempo.

– Ora, por favor, senhor, isso não prova nada. Além de essas cartas poderem ter sido escritas ontem ou anteontem – o que não acredito, pois confio na idoneidade moral dos senhores –, sabemos que qualquer casal adolescente troca cartas, ainda que não tenha o menor entendimento da palavra amor.

– Doutor, temos testemunhos escritos, assinados por amigos e familiares nossos, que comprovam a longa duração de nosso amor – disse Beatriz.

– Olha, não duvido que os senhores são pessoas boas e que, de fato, acreditam estar apaixonados, mas uma coisa é acreditar amar e outra é, realmente, amar.

– Mas e os testemunhos comprovando a longevidade da nossa relação?

– Esse é o problema: se para a senhora e para o senhor seu marido, esses papéis são comprovatórios, para mim, não. Ora, se são seus amigos e seus familiares, indiscutivelmente querem sua felicidade, não se recusando a assinar alguns documentos, ainda que prestando falsa informação.

– Doutor – tentou Claudio –, o senhor próprio diz que nossos conhecidos assinariam falso testemunho em nome de nossa felicidade. Consideremos que tenha razão. Se assim for, o doutor deve concordar que, como dito por ti próprio, um filho seria uma felicidade em nossas vidas.

– Ora, mas não tenho dúvida! – respondeu o médico, em tom menos severo e mais fraternal. – Hoje, sim. Hoje, seria uma felicidade. Mas e daqui a três, sete, dez, vinte anos? Filho é para a vida toda. Se, ao comprar uma casa, o senhor se alegra, mas se arrepende dez anos mais tarde, pode se mudar. Do mesmo modo, um amigo que te aborrece pode deixar de ser seu companheiro com o passar do tempo. Carros, roupas, faculdade ou trabalho, tudo é reversível nessa vida. Filhos, não. Filhos são eternos, meus senhores. Temos uma tarefa muito delicada nesse consultório, que é justamente a de julgar se essa felicidade que hoje os clientes têm ao conseguirem um filho – e todos têm, não discuto, ou não estariam aqui, mesmo diante de tantas dificuldades que existem para se conseguir uma consulta –, nossa tarefa, portanto, é a de se certificar de que essa alegria não morrerá com o passar do tempo. Muito difícil, senhores, muito difícil. Mas temos que seguir nossos corações. Não há curso nem livros que nos ensinem tal diagnóstico. Tudo é feito partindo de nossa própria subjetividade e é possível que, se fossem atendidos por outro profissional, este concedesse vosso desejo. Isso não faria desse colega mais ou menos competente do que eu, mas apenas detentor de uma percepção diferente da minha com relação aos senhores que aqui estão presentes.

– Mas, doutor – começou Claudio, com voz cansada após ouvir tamanho discurso –, sua percepção de que nossa alegria por procriar é finita se dá exclusivamente pelo fato de não sermos casados?

– Não apenas, mas é um fator determinante.

– O senhor não acha essa uma postura anacrônica para um profissional de uma clínica tão renomada? – ousou Claudio, já se vendo sem esperanças. Aqui, o doutor demorou de dez a quinze segundos para responder, tempo gasto ajeitando seus óculos e encarando o casal por cima da grossa armação:

– O senhor está nervoso e, portanto, não me dignarei a respondê-lo. O senhor tem um bom caráter e creio que seria um ótimo pai. Mas alguma coisa que me diz não me convence. Tanto o senhor quanto a senhora sua noiva não me fazem acreditar em algo e não consigo determinar o que é. Mentem, tenho certeza, porém não sei em quê. Mas não vos censuro, que isso fique claro. Muitas vezes mentimos por uma boa causa – ou, pelo menos, por uma causa que acreditamos ser boa –, mas, ainda assim, mentiras são sempre mentiras e eu preferia imensamente que os senhores fossem sinceros comigo.

Claudio e Beatriz se entreolharam, sem saber o que dizerem. A acepção desse olhar, para eles, era a incredulidade do que ouviam: estavam sendo sinceros; a que mentira se referia o doutor? Para este, porém, aquela hesitação tinha outro significado: demonstrava que ele estava correto em sua suposição e que o casal, vendo a farsa descoberta, debatia silenciosamente se deveria ou não expor a verdade.

– Farei o seguinte – disse o entrevistador –: vou dar alguns minutos para os senhores conversarem, a sós, na recepção, já que é evidente que minha descoberta lhes provocou um mal-estar. Esperarei por cinco minutos, não mais que isso, pois ainda tenho seis casais para entrevistar hoje. Transcorrido esse tempo, por favor, voltem com a verdade e reconsiderarei meu posicionamento. Que fique claro, porém, que essa é uma exceção impensada pelo presidente da clínica. Se ele cogitar essa possibilidade, serei demitido peremptoriamente. Peço, portanto, discrição dos senhores e explico que abro essa exceção apenas pelo motivo de, como dito, algo no meu interior acreditar que, apesar de mentirem, o senhor Claudio e a senhora Beatriz, que aqui estão de frente a mim, possuem corações nobres e verdadeiramente bondosos.

Sem pestanejar, Claudio respondeu:

– O doutor tem mesmo razão. Mentimos. Mas, como o senhor próprio disse, com a melhor das intenções. Acontece que sou casado, assim como Beatriz, mas entre nós não há relacionamento algum. Minha verdadeira esposa se encontra na recepção, aguardando ansiosamente pela resposta, mas achei melhor trazer Beatriz, pois, como ela é mais desenvolta e fala melhor, supus que fosse ser mais agradável ao senhor. Percebo agora o erro que cometi. Deveria ter trazido minha verdadeira esposa, pois, apesar de tímida, é a minha mulher. – Pôs especial entonação à palavra “minha”.

Beatriz estremeceu. Achou, de imediato, um absurdo aquela fala mentirosa de Claudio. Pareceu-lhe que o doutor, caso acreditasse, se enfureceria com a história. Porém, quando viu um sorriso brotar nos lábios do velho, percebeu estar errada.

– Quanta estupidez fazemos por uma boa causa! – exclamou o médico, emocionado. – Eu mesmo já fiz tantas em minha juventude! Traga sua esposa, meu garoto. Sua verdadeira companheira. Traga ela e traga consigo a probabilidade de um primogênito. A senhora também foi um exemplo de boa alma. – E virou-se para Beatriz. – Passar-se pela noiva de outro só para lhe conceder a dádiva da paternidade! Mas deixemos de lado todas essas mentiras. Os senhores me emocionam. E me orgulham também, pois, decorrido todo esse tempo de profissão, vejo que ainda tenho os instintos apurados para detectar uma mentira. – E Beatriz riu por dentro. – Traga sua esposa, senhor Claudio. Sem burocracias. Não quero certidões nem documentos. Apenas sua boa companheira e certamente excelente mãe em frente a mim. Sem mais delongas. Traga-a, por favor. Traga-a e mostre-me todo o amor, o verdadeiro amor, existente entre vocês.

Quem diria que o que convenceria o doutor não seria a verdade, mas sim a mentira? Sorridentes, Beatriz e Claudio saíram da saleta, em direção à recepção. Lá chegando, Claudio perguntou, na fila de espera:

– Quem aqui gostaria de me amar verdadeiramente?

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