quarta-feira, 28 de maio de 2014

Rever-se

O que mais incomodava Mirian quanto à morte era a inexistência, deixar o mundo sem ela. Pensava nisso enquanto arrumava as malas para a viagem em definitivo que faria, dentro de três dias. Se mudaria para outro país, não tão distante, mas longe suficientemente para forçá-la a um rompimento para o qual ela sempre imaginou estar preparada – mais: que ela sempre desejou –, mas percebia com certa amargura que seria doloroso.

Pensava, pois, na morte. Encarava sua mudança como um simbolismo fúnebre. Não ruim, apenas funesto o bastante para sensibilizá-la. Vez ou outra, tentava mudar o foco de seu pensamento, mas a morte lhe voltava e trazia juntamente a ideia de que, após a partida, todas as pessoas com quem convivia em seu país de origem se lembrariam dela como quem se lembra dos mortos.

Como um tipo de recompensa, renasceria em outro local – um nascimento para contrapor uma morte. Assim é a vida, afinal: pessoas nascem e morrem em todo lugar. A diferença, tecnicamente, seria que, no caso de Mirian, o nascimento e a morte seriam protagonizados pela mesma pessoa. Tecnicamente, apenas. Para desatentos. A Mirian de seu país não seria a mesma Mirian do estrangeiro. Aliás, se pensar bem, constatará que nascemos e morremos todo tempo, ainda que não saiamos do lugar.

Mas tudo isso fala de inexistências sutis. O que incomoda Mirian é a inexistência grosseira, o olhar e não ver, materialmente, brutalmente. Conclui que, para a maioria das pessoas e lugares, ela nem sequer nasceu. Se sofresse de alguma grave enfermidade e viesse a falecer, as cidades do outro lado do mundo não tomariam o menor conhecimento. E só não há morte se não tiver havido nascimento.

Para o país que a receberá, Mirian é um feto, uma vida em potencial. Para o país que deixa, é um doente em estágio final, para o qual o médico deu três dias de vida, tempo suficiente para efetuar um aborto e dar a alma do feto ao corpo do moribundo. Mas por que essa hesitação? Era o que ela queria, o passo final de uma vida toda planejada para essa viagem. O que Mirian deixava para trás era o cheiro nauseante das fezes que jamais a permitiram ser plenamente feliz. O feto, por outro lado, tinha uma alma iluminada e o potencial para permitir que Mirian se encontre, dentro de si, êxito jamais conquistado pelo moribundo.

O doente, porém, como todos que veem a morte cavalgando, era mesquinho e invejoso. Não queria partir e não admitia que o feto se tornasse uma bela e saudável criança, tomando-lhe o lugar que lhe supunha ser de direito. Negava-se a se olhar no espelho e ver a pele de seu rosto escurecida e putrificada, mas encarava Mirian como quem exige piedade. E, do fundo da mala de roupas, quase pronta para a viagem, o rosto do doente se contorcia, taciturno e chantagista, apelando para a piedade de Mirian, sem deixar de ameaçá-la caso ela não se solidarizasse.

Já tarde, Mirian adormeceu, sem se livrar dos pesadelos. O moribundo e o feto se mesclavam em seus sonhos e, em alguns momentos, a mistura era tão intensa a ponto de um rosto leproso chorar como um bebê.

Acordou exausta da noite mal dormida, mas disposta a dar o fim necessário ao moribundo. Deveria enterrá-lo de uma vez por todas, em nome do renascimento. Sabia que, ainda por dois dias, ele a atormentaria, que só se livraria desse monstro quando se encontrasse no avião, mas a decisão de dar vitória ao feto era definitiva. Só precisaria suportar mais um pouco as tentações do doente.

Naquele dia, ainda de manhã, terminou suas malas e resolveu dar uma última volta no bairro, na cidade, no país onde viveu por toda a sua vida. Tudo o que lhe era antes inteiramente desagradável não mais a irritava, por ilusão do moribundo. O porteiro de seu prédio, sujeito arrogante com modos grosseiros, pareceu-lhe solícito e gentil; o comércio do quarteirão, tomado por figuras desonestas e mercadorias acima do preço, mostrou-se convidativo; a rua, de mau asfaltamento, e a calçada, tomada por buracos, pareciam extremamente propícias para um passeio no sábado à tarde; as casas com tinta velha se coloriam; os vizinhos barulhentos lhe soavam como música e as crianças bagunceiras da praça do bairro se enchiam de vida e esplendor.

Mirian não se deixou enganar. Sabia que tudo era truque do doente. Lamentava a fragilidade do feto, que não possuía armas para lutar contra as trapaças do moribundo. Apesar desse entendimento, não podia deixar de sofrer, pois via sua vida ficando para trás, uma vida que sempre detestou e que, agora, parecia-lhe maravilhosa. Racionalizava perfeitamente que tudo se tratava de uma ilusão, mas a sensação de nostalgia lhe queimava a pele e teve de se sentar em um velho banco de rua, que agora lhe parecia reluzente. O pipoqueiro mal educado do bairro estava tão amável que resolveu, ineditamente, puxar assunto com Mirian. Era ela, que sempre fora simpática e faladeira, quem agora estava calada e pouco disposta a se expressar.

 De viagem?
 De viagem.
 Me disseram.
 Vou amanhã.
 Já sente saudade, suponho.
 Sinto.
 Uma pré-saudade.
 Pode-se dizer que sim.
 Triste?
 Um pouco. É uma sensação ruim.
 A pré-saudade não é uma sensação ou um sentimento; é um estado de espírito.

Mirian não respondeu. O pipoqueiro não parecia o sujeito rude que sempre fora. Percebendo o espanto positivo de Mirian, ele prosseguiu:

 A pré-saudade muda o nosso olhar perante o que sempre banalizamos, o que pouco ou nada reparamos e a que só damos valor quando perdemos  ou quando estamos na iminência de perder.

Não importava a pouca criatividade do que ele dizia. Tocava Mirian.

 Se serve como consolo, a maioria das coisas que sentimos falta durante o estágio da pré-saudade nos passa despercebida depois da viagem.
 Você me faz sentir melhor – ela disse, enfim.
 Mas é verdade, é verdade. Você olha esse céu e pensa que sentirá eternamente falta desse azul, mas, quando estiver na cidade mais nebulosa do mundo, sequer se lembrará do céu que deixou para trás.
 O que não necessariamente é bom...
 Como não? A dor inexiste.
 A dor inexiste por meio do esquecimento. E esse esquecimento é ruim.
 Então, fique.
 Como?
 Fique.
 Eu...
 Fique, por favor.

Mirian titubeou. Com a boca semiaberta, procurava as palavras certas para responder. Olhando para o chão, considerou permanecer. Assustou-se, porém, e se atirou para trás ao olhar para o pipoqueiro e enxergar o velho doente de seus pesadelos, com a pele putrificada e um líquido negro escorrendo pela face. Virou-se e correu em direção à sua casa. Ouviu, ainda, o pipoqueiro gritar para ela ficar, agora com uma voz rouca e pouco audível, embora ecoante.

Entrou ofegante no apartamento e se trancou, com três giros da chave. Tudo o que via, todas as impressões que tinha eram reflexos do moribundo. Precisava viajar o mais rapidamente possível e ainda tinha uma noite inteira pela frente, antes de embarcar no voo que estava previsto para a manhã seguinte.

Enquanto tentava pegar no sono, teve uma estranha recordação. Lembrou-se de que, havia muito tempo, quando era bem mais jovem, um senhor lhe havia perguntado as horas, no centro da cidade. Ela respondera displicentemente, como se faz nessas ocasiões. Ele agradecera e perguntara se ela não achava curiosa aquela situação: os dois se falavam por causa de um assunto totalmente banal e, com isso, um já fazia parte da história de vida do outro. Com uma resposta evasiva, Mirian se desvencilhou daquele senhor, mas jamais pôde esquecer suas expressões físicas. Tinha cabelos brancos ralos, bochechas caídas e um rosto muito simpático, quase a caricatura de um bom avô. Não era um rosto particularmente marcante, mas ficou para sempre em sua memória. Não concordava – ou não sabia se concordava – com a afirmação sobre um fazer parte da vida do outro, dada a insignificância do breve diálogo que tiveram, mas, talvez, o senhor tivesse razão, uma vez que ela nunca o esquecera. Perguntava-se se ele ainda pensava nela, se estava feliz, se era casado, tinha filhos, com quem morava e, mesmo, se ainda estava vivo. Caso ele, de fato, estivesse certo, Mirian faria parte do mundo daquele agradável senhor e vice-versa, ainda que um não soubesse sequer se o outro morrera. No meio dessas divagações, Mirian adormeceu.

Acordou cedo, tomou café, escovou os dentes, tomou banho e, em meia hora, já estava no táxi com suas malas, rumando ao aeroporto. O taxista ainda tentou convencê-la a permanecer, mas ela podia sentir o hálito sepulcral do doente e não se enganou com facilidade. Algum tempo depois, já estava dentro do avião, esperando a decolagem.

Mais uma vez pensou no senhor que lhe perguntara as horas. Sentiu uma afeição indizível por ele e, por um tempo, cogitou a possibilidade de os dois velhos, o simpático e o doente, terem se unido. Mas, não. A simpatia que sentia por aquele senhor era anterior à existência do moribundo, embora só agora ela assim sistematizasse. Concluiu, não sem algumas lágrimas, que esse senhor havia sido a única pessoa, ao longo de sua vida, que ela, de fato, amara. Lamentou terem se falado tão pouco, mas rematou que, talvez, por isso mesmo, havia adquirido por ele um amor tão pueril.

O avião, por fim, decolou. Quanto mais Mirian subia, mais suas lágrimas desciam. O alívio final só veio quando, já plena no céu, a aeronave sobrevoava a cidade que não mais pertencia a Mirian e que, agora, já nem mais se mostrava visível. Foi aí que ela pôde ver, no meio das nuvens, o rosto do moribundo, em tamanho agigantado, nunca tão terrível como dessa vez, se contorcer e se despedaçar completamente, enquanto emitia um grito horrendo, repleto da dor do fracasso.

domingo, 18 de maio de 2014

Frutos do Amor

A clínica Frutos do Amor era especializada em proporcionar a casais que, por alguma limitação biológica não podem ter filhos, a possibilidade de tê-los. Era muito famosa e tinha diariamente longas filas de espera na recepção, ainda que trabalhasse com marcação antecipada.

Conhecida por sua eficiência, a clínica jamais deixara de cumprir seus propósitos com nenhum cliente. Era certo que, se um casal fosse admitido pelos renomados profissionais do local, procriaria logo na primeira tentativa, independentemente de seus problemas genéticos. Em caso de falha – o que nunca aconteceu –, teriam o direito de receber não apenas o dinheiro de volta como uma gorda indenização, prevista no contrato.

A principal dificuldade encontrada pelos clientes, porém, era justamente sua autorização pelo corpo médico. A clínica possuía regras próprias de conduta e seu conjunto ético principal era o de que só trabalharia com casais que se amassem, que já não tivessem filhos, que fossem maiores de 30 anos, que comprovassem boa condição financeira – o que era desnecessário, uma vez que o mero procedimento já era caríssimo – e, o que gerava constantes protestos da comunidade GLS, que tivessem seus progênitos oriundos de relação sexual. Desses requisitos, o de mais difícil percepção era o relativo à obrigação de os clientes se amarem, dificuldade esta, segundo entendimento da administração, minimizada por uma prévia entrevista e pela exigência do ato sexual. De origem cristã, o corpo administrativo da Frutos do Amor nem sequer concebia a possibilidade de duas pessoas irem para a cama sem se amarem.

Portanto, tudo acontecia da seguinte maneira: o cliente telefonava para a clínica, marcava consulta – geralmente só havia vaga para, no mínimo, seis meses depois –, chegava cedo ao local, acompanhado por seu cônjuge, e, depois de horas de espera, era atendido pelo médico. Como a duração das consultas variava de caso para caso, era marcado apenas o dia, mas jamais o horário da entrevista. Se aprovados pelos médicos entrevistadores, o homem e a mulher seguiam para um quarto privado ao fundo, faziam amor e, após o gozo do homem, este chamava um enfermeiro, que, imediatamente, ligava incontáveis aparelhos ao corpo feminino. Eram necessárias algumas horas para a fecundação ser comprovada pelo médico responsável, que, somente então, liberava os clientes e os desejava boa sorte, já mais nada tendo a ver com os procedimentos futuros. Os cuidados relativos ao período pré-natal seriam de responsabilidade do casal, que deveria, por conta própria, procurar um médico de sua preferência, como em qualquer gravidez, fora da Frutos do Amor. 

Claudio era um desses homens dispostos a gastarem todo o dia para terem um filho. Namorava Beatriz, mas, embora ainda não tivessem conseguido descobrir a razão que a impossibilitava de engravidar, sabiam que, seja por causa dele ou dela, tentavam em vão havia anos procriar a espécie. Telefonaram em fevereiro e somente em outubro conseguiram ser atendidos por um médico da Frutos do Amor, um sujeito sisudo, com espessos bigodes e olhos bem fechados por trás de óculos de grossa armação, transparecendo, de imediato, que seria árdua a tarefa de convencê-lo a autorizar o procedimento.

– Então, os senhores são apenas namorados? – perguntou o doutor, já em tom de reprovação.

– Noivos, doutor – respondeu Claudio, tentando dar ar de seriedade ao seu relacionamento.

– Nos casaremos no próximo ano – completou Beatriz.

– Por que não se casam primeiro? – indagou o médico.

– Porque já moramos juntos – respondeu Claudio.

– Morar junto não exige qualquer responsabilidade. Somente o casamento legitima o amor sentido pelo casal.

– Mas nos amamos, doutor – tentou Beatriz. – Já namoramos há muito tempo e...

– Desculpem, mas não me convencem – interveio o médico.

– Senhor – começou Claudio, puxando alguns papéis de sua pasta. –, trouxe aqui algumas cartas trocadas por nós no início de nosso namoro. O senhor pode ver que são datadas de muito tempo.

– Ora, por favor, senhor, isso não prova nada. Além de essas cartas poderem ter sido escritas ontem ou anteontem – o que não acredito, pois confio na idoneidade moral dos senhores –, sabemos que qualquer casal adolescente troca cartas, ainda que não tenha o menor entendimento da palavra amor.

– Doutor, temos testemunhos escritos, assinados por amigos e familiares nossos, que comprovam a longa duração de nosso amor – disse Beatriz.

– Olha, não duvido que os senhores são pessoas boas e que, de fato, acreditam estar apaixonados, mas uma coisa é acreditar amar e outra é, realmente, amar.

– Mas e os testemunhos comprovando a longevidade da nossa relação?

– Esse é o problema: se para a senhora e para o senhor seu marido, esses papéis são comprovatórios, para mim, não. Ora, se são seus amigos e seus familiares, indiscutivelmente querem sua felicidade, não se recusando a assinar alguns documentos, ainda que prestando falsa informação.

– Doutor – tentou Claudio –, o senhor próprio diz que nossos conhecidos assinariam falso testemunho em nome de nossa felicidade. Consideremos que tenha razão. Se assim for, o doutor deve concordar que, como dito por ti próprio, um filho seria uma felicidade em nossas vidas.

– Ora, mas não tenho dúvida! – respondeu o médico, em tom menos severo e mais fraternal. – Hoje, sim. Hoje, seria uma felicidade. Mas e daqui a três, sete, dez, vinte anos? Filho é para a vida toda. Se, ao comprar uma casa, o senhor se alegra, mas se arrepende dez anos mais tarde, pode se mudar. Do mesmo modo, um amigo que te aborrece pode deixar de ser seu companheiro com o passar do tempo. Carros, roupas, faculdade ou trabalho, tudo é reversível nessa vida. Filhos, não. Filhos são eternos, meus senhores. Temos uma tarefa muito delicada nesse consultório, que é justamente a de julgar se essa felicidade que hoje os clientes têm ao conseguirem um filho – e todos têm, não discuto, ou não estariam aqui, mesmo diante de tantas dificuldades que existem para se conseguir uma consulta –, nossa tarefa, portanto, é a de se certificar de que essa alegria não morrerá com o passar do tempo. Muito difícil, senhores, muito difícil. Mas temos que seguir nossos corações. Não há curso nem livros que nos ensinem tal diagnóstico. Tudo é feito partindo de nossa própria subjetividade e é possível que, se fossem atendidos por outro profissional, este concedesse vosso desejo. Isso não faria desse colega mais ou menos competente do que eu, mas apenas detentor de uma percepção diferente da minha com relação aos senhores que aqui estão presentes.

– Mas, doutor – começou Claudio, com voz cansada após ouvir tamanho discurso –, sua percepção de que nossa alegria por procriar é finita se dá exclusivamente pelo fato de não sermos casados?

– Não apenas, mas é um fator determinante.

– O senhor não acha essa uma postura anacrônica para um profissional de uma clínica tão renomada? – ousou Claudio, já se vendo sem esperanças. Aqui, o doutor demorou de dez a quinze segundos para responder, tempo gasto ajeitando seus óculos e encarando o casal por cima da grossa armação:

– O senhor está nervoso e, portanto, não me dignarei a respondê-lo. O senhor tem um bom caráter e creio que seria um ótimo pai. Mas alguma coisa que me diz não me convence. Tanto o senhor quanto a senhora sua noiva não me fazem acreditar em algo e não consigo determinar o que é. Mentem, tenho certeza, porém não sei em quê. Mas não vos censuro, que isso fique claro. Muitas vezes mentimos por uma boa causa – ou, pelo menos, por uma causa que acreditamos ser boa –, mas, ainda assim, mentiras são sempre mentiras e eu preferia imensamente que os senhores fossem sinceros comigo.

Claudio e Beatriz se entreolharam, sem saber o que dizerem. A acepção desse olhar, para eles, era a incredulidade do que ouviam: estavam sendo sinceros; a que mentira se referia o doutor? Para este, porém, aquela hesitação tinha outro significado: demonstrava que ele estava correto em sua suposição e que o casal, vendo a farsa descoberta, debatia silenciosamente se deveria ou não expor a verdade.

– Farei o seguinte – disse o entrevistador –: vou dar alguns minutos para os senhores conversarem, a sós, na recepção, já que é evidente que minha descoberta lhes provocou um mal-estar. Esperarei por cinco minutos, não mais que isso, pois ainda tenho seis casais para entrevistar hoje. Transcorrido esse tempo, por favor, voltem com a verdade e reconsiderarei meu posicionamento. Que fique claro, porém, que essa é uma exceção impensada pelo presidente da clínica. Se ele cogitar essa possibilidade, serei demitido peremptoriamente. Peço, portanto, discrição dos senhores e explico que abro essa exceção apenas pelo motivo de, como dito, algo no meu interior acreditar que, apesar de mentirem, o senhor Claudio e a senhora Beatriz, que aqui estão de frente a mim, possuem corações nobres e verdadeiramente bondosos.

Sem pestanejar, Claudio respondeu:

– O doutor tem mesmo razão. Mentimos. Mas, como o senhor próprio disse, com a melhor das intenções. Acontece que sou casado, assim como Beatriz, mas entre nós não há relacionamento algum. Minha verdadeira esposa se encontra na recepção, aguardando ansiosamente pela resposta, mas achei melhor trazer Beatriz, pois, como ela é mais desenvolta e fala melhor, supus que fosse ser mais agradável ao senhor. Percebo agora o erro que cometi. Deveria ter trazido minha verdadeira esposa, pois, apesar de tímida, é a minha mulher. – Pôs especial entonação à palavra “minha”.

Beatriz estremeceu. Achou, de imediato, um absurdo aquela fala mentirosa de Claudio. Pareceu-lhe que o doutor, caso acreditasse, se enfureceria com a história. Porém, quando viu um sorriso brotar nos lábios do velho, percebeu estar errada.

– Quanta estupidez fazemos por uma boa causa! – exclamou o médico, emocionado. – Eu mesmo já fiz tantas em minha juventude! Traga sua esposa, meu garoto. Sua verdadeira companheira. Traga ela e traga consigo a probabilidade de um primogênito. A senhora também foi um exemplo de boa alma. – E virou-se para Beatriz. – Passar-se pela noiva de outro só para lhe conceder a dádiva da paternidade! Mas deixemos de lado todas essas mentiras. Os senhores me emocionam. E me orgulham também, pois, decorrido todo esse tempo de profissão, vejo que ainda tenho os instintos apurados para detectar uma mentira. – E Beatriz riu por dentro. – Traga sua esposa, senhor Claudio. Sem burocracias. Não quero certidões nem documentos. Apenas sua boa companheira e certamente excelente mãe em frente a mim. Sem mais delongas. Traga-a, por favor. Traga-a e mostre-me todo o amor, o verdadeiro amor, existente entre vocês.

Quem diria que o que convenceria o doutor não seria a verdade, mas sim a mentira? Sorridentes, Beatriz e Claudio saíram da saleta, em direção à recepção. Lá chegando, Claudio perguntou, na fila de espera:

– Quem aqui gostaria de me amar verdadeiramente?

terça-feira, 6 de maio de 2014

O acaso

O homem queria se suicidar. 

Não convêm os motivos, pois não têm a menor importância para a curta história a seguir e, ainda que a tivessem, não os diria, em respeito a meu personagem, que, certamente, não gostaria de ver expostas suas fraquezas a qualquer curioso que, porventura, vier a ler essas linhas. 

O que importa era sua dúvida. Queria, mas não totalmente. Na verdade, creio que ninguém queira, com plena convicção, morrer. 

Resolveu deixar o acaso decidir. 

Decidiu que, se naquela noite chovesse, se mataria. Como a chuva independia da sua vontade, seria uma escolha inteiramente fortuita. 

As horas, é claro, passaram-se vagarosamente. Quando a noite oficialmente se fez presente, estava quente em seu quarto, janelas abertas, céu limpo. Não parecia que choveria, mas deveria esperar, com ansiedade. 

No dia seguinte (passou a noite em claro), estava vivo, afinal não havia chovido. Foi tomar café com sua mãe e seu irmão mais novo; aquela comentou sobre o temporal que lhe havia surpreendido na volta para casa, na noite anterior. O homem, alarmado, disse que não tinha chovido; a mãe falou que tinha, sim; o homem enfureceu-se, bateu na mesa e, de forma descontrolada, disse que não, que havia vigiado pela janela a noite toda, que não chovera! 

A mãe não entendeu o porquê da cólera do filho e, em tom de desculpas, contou que, na festa aonde tinha ido, em um bairro longe de sua casa, havia, sim, chovido. O homem, então, viu-se no cruel dilema: não definira a exata localização de onde deveria chover para consumar seu fim. 

Levantou-se da mesa, sem dizer nenhuma palavra, disposto a dar nova chance ao acaso, uma vez que sua mãe atrapalhara seus planos. Foi à mesma janela da noite anterior, avistou a rua e pensou que, se passasse um carro vermelho dentro de cinco minutos, se mataria. Pronto: problema delimitado. 

A mãe se aproximou, pôs as mãos nas suas costas e perguntou por que o rapaz estava tão nervoso ultimamente. Ele não respondeu. A mãe afundou-se no silêncio compartilhado, permanecendo junto ao filho. 

Após quatro minutos, nenhum carro vermelho havia se feito presente. A mãe, para quebrar o silêncio, comentou: 

 Seu pai e eu vamos comprar um carro. 

O homem não respondeu. A mãe prosseguiu: 

 Algum parecido com aquele vermelho cruzando a esquina. 

O rapaz já havia avistado o tal carro, mas, para ele, era laranja. Não iria, porém, dar mais uma chance ao destino. A mãe era a encarregada de sua morte. Jogou-se, caiu com a cabeça no chão e faleceu.