sexta-feira, 18 de abril de 2014

O terno

1

– Preciso comprar um terno! – era o que sempre falava Zizo quando chegava à noite em casa.

– Prioridades, prioridades! – era o que sempre respondia sua esposa. – Há, no momento, coisas muito mais importantes do que terno.

– Como o quê? – era o que sempre perguntava Zizo, embora sempre soubesse a resposta.

– Comida para nós, para as crianças, as contas para pagar, as obrigações do dia-a-dia!

– Isso é tudo fim, o terno é o meio. Sem terno, não há dinheiro. Sem dinheiro, nada disso é possível!

Esse era, portanto, o costumeiro diálogo que ocorria toda noite na humilde casa de Zizo, localizada na periferia do Rio de Janeiro. Ele vendia laranjas em semáforos, mas os negócios iam mal e a concorrência, pesada. Assim como ele, havia vários outros vendedores ambulantes em esquinas e semáforos adjacentes, de modo que ele não conseguia se destacar. Seu raciocínio era singelo: enquanto todos os ambulantes vendiam laranja de camiseta, bermuda e chinelos, se ele usasse terno, ganharia respeito e, principalmente, visibilidade. Prefeririam as laranjas dele.

– Isso é bobagem, não existe nenhuma garantia de que você venderia mais se tivesse um terno – dizia sua esposa, artista plástica e pintora, que vendia seus quadros em Santa Teresa, mas cujos negócios tampouco iam bem.

– Você diz isso porque quer me sabotar! – gritava Zizo, um absurdo completamente sem propósito, um devaneio de alguém já à beira do desespero. – Quer mais é que a gente se endivide mais e mais para você me largar, eu sei!

– Isso não tem nada a ver – respondia a mulher, até um pouco envergonhada por ter de se defender de uma acusação tão ridícula. – Eu me casei contigo, Zizo! Eu escolhi viver contigo!

– E daí? Que sacrifício há nisso? Se casou, se separa. A que você renunciou?

– Renunciei à liberdade de acordar com bafo e ninguém sentir.

Isso era mesmo algo de que ela não abrira mão até conhecer Zizo. Nunca havia amanhecido na cama com ninguém. Parecia-lhe inconcebível que, após uma noite com alguém, tivesse que acordar sem maquiagem, com mau hálito, despenteada. Seu primeiro sono  compartilhado com Zizo causou-lhe um medo tão intenso que não seria exagero chamar de pânico. Dormiu mal, acordou insegura e, mais tarde, chegou a confessar a uma amiga:

– É como o medo de sentar no vaso e uma barata subir na sua bunda. Acordar com alguém evidencia toda a vulnerabilidade do nosso corpo, o limite dos nossos cheiros, a crueza da nossa aparência. Nunca mais durmo com Zizo nem com ninguém.

Evidentemente, descumpriu o juramento, casou-se com ele e, como recompensa dos deuses, ouve toda noite:

– Tenho que comprar um terno.

Irritado com a falta de apoio da mulher, Zizo foi um dia por conta própria a um shopping center. Ingênuo, entrou logo em uma loja de ternos de grife e, muito mal atendido, não soube direito se havia entendido corretamente o preço. Foi a outra loja e continuou muito confuso. Por que tantos zeros para um pedaço de pano? Conseguiu até um desconto com uma vendedora, mas o valor continuava absurdo. Depois de muitas pesquisas, encontrou, em uma loja de ternos populares, um magnífico conjunto, já com a calça, os sapatos e a gravata, por 200 reais. Era uma pechincha! Não havia caimento, tinha uma costura pobre, mas experimentou mesmo assim. Ficou horroroso, não conseguia nem se mexer, mas achou lindo. Só faltavam mesmo os 200 reais. Podia parcelar, porém. Se dividisse em dez partes de 20 reais e vendesse tantas vezes mais laranjas como achava que era possível, em pouco tempo o investimento teria valido a pena.

– Tenho que dar entrada?

– A primeira parcela é só para o próximo mês, senhor.

Comprou!

Não contou nada à esposa. Deixou o terno escondido e, como saía para a rua mais cedo do que a mulher, ela não perceberia nada. Quando chegasse à noite em casa, com muito mais dinheiro do que o habitual, ela teria que lhe dar razão e não haveria tempo para críticas do tipo: "Não acredito que você comprou isso, sendo que o leite das crianças está no fim!".

Acordou uma hora mais cedo para conseguir colocar a gravata. Saiu na ponta do pé para não acordar a esposa e estragar a surpresa e foi às ruas. Dessa vez, não venderia as laranjas nas ruas da Penha, Olaria, Vicente de Carvalho… Era agora homem importante e tinha que fazer negócios com gente igualmente importante. Foi para o Centro. Fazia calor. Ainda eram 8 da manhã, mas dezembro no Rio nunca tem clima fresco. Suava como nunca. O terno colava-lhe ao corpo. A Rio Branco fervilhava de carros, buzinas, pessoas apressadas. Os negócios ainda não estavam como ele esperava, mas era só o começo do dia. Quando ia vender sua primeira laranja, porém, não reparou que o sinal tinha aberto para os carros, veio um motorista furioso com o trânsito e atropelou Zizo. Banho de sangue no centro do Rio.


2

– Me desculpa, senhora, me desculpa! – dizia o motorista à viúva de Zizo. O condutor, verdade seja dita, cumpriu todas as suas obrigações. Mesmo atrasado para o trabalho, prestou os primeiros socorros, chamou a ambulância, telefonou para a viúva (tinha o número da esposa no celular de Zizo) e foi por contra própria prestar os devidos esclarecimentos na delegacia. 

– A senhora me desculpe, por favor. Eu sei que nada é capaz de restituir sua perda, de compensar uma vida humana, mas… – E continuou a falar por um longo tempo, enquanto a mulher apenas tapava o rosto, incrédula da desgraça que lhe abatia. Ao contrário do que Zizo dizia, foi ele quem a deixou, não o contrário. O motorista, ainda muito nervoso, dizia que estava preso no trânsito havia mais de uma hora, que tinha se atrasado, que não viu Zizo atravessar a rua.

– Não viu, meu senhor? – falou a viúva, pela primeira vez. – Não viu um homem na sua frente?

– Minha senhora, sei que vou morrer com essa culpa, mas no Centro tem tanta gente de terno correndo de um lado para o outro que eu simplesmente não vi seu marido. Era exatamente assim que ele estava: correndo e de terno. Para mim, ele era apenas uma sombra, nada mais.

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