terça-feira, 29 de abril de 2014

A flor de Drummond

Milan Kundera fala, em algum livro de que não me lembro, que não gostava de dar nome aos seus personagens. Eu, que compartilho desse sentimento, acrescento que só dou nome aos meus para fins de organização

Essa organização se dá pelo fato de eu não poder passar um texto inteiro chamando meu protagonista de "ele", sob pena de repetir o pronome infinitas vezes. Além disso, em um hipotético encontro que "ele" tenha com outros personagens homens, "ele" mais "ele" poderão virar tantos "eles" que ninguém mais saberá de quem estou falando.

Portanto, "ele" pode ser Gerson, Bruno, Vitor, Marcio… Só para organizar o discurso, nada mais. Batizar um personagem é um aborrecimento. Quando você o nomeia, você o mundaniza. Imagine que você cria um herói, alguém acima de sentimentos e atitudes mesquinhos terrestres, um personagem muito além de nós, meros mortais. Como chamá-lo? Juninho: pronto, matou o encanto, acabou a magia.

Talvez eu devesse fazer como os grandes escritores russos, que usam os nomes dos personagens como um acréscimo às suas características. Raskólnikov, por exemplo, é oriundo da palavra “raskolnik”, que significa "cisão" ou "cisma", o que nos leva ao "cindido" e "atormentado" protagonista de "Crime e Castigo". Karamázov provém de "kara", ("castigo") e "mázat", ("sujar", "não acertar", "pintar"). Mas, no português, isso não seria meio ridículo?

Imerso nessa limitação, acabo de desistir de um conto. Seria sobre uma pessoa – não sei se homem ou mulher – que não buscava mais jardins, mas, antes, apenas uma flor, algo como a flor de Drummond: aquela, que é feia, mas é uma flor. Isso, apenas isso, faz dele(a) alguém que não pode ser batizado(a). Como podem ver, nem mesmo seu gênero deveria vir à tona, por não ter nenhuma importância. Mas seria mesmo difícil falar dessa pessoa sem lhe dar um nome ou sem, no mínimo, decidir-lhe atribuir um "ele" ou um "ela". Portanto, esse ser existirá apenas no mundo das coisas que poderiam ter sido, mas não foram. Não são. Não serão. Uma pena, pois ficarei sem saber se a flor conseguiu furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Ficarei sem saber se a flor conseguiu ser encontrada.

……...

Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em março de 2014. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O terno

1

– Preciso comprar um terno! – era o que sempre falava Zizo quando chegava à noite em casa.

– Prioridades, prioridades! – era o que sempre respondia sua esposa. – Há, no momento, coisas muito mais importantes do que terno.

– Como o quê? – era o que sempre perguntava Zizo, embora sempre soubesse a resposta.

– Comida para nós, para as crianças, as contas para pagar, as obrigações do dia-a-dia!

– Isso é tudo fim, o terno é o meio. Sem terno, não há dinheiro. Sem dinheiro, nada disso é possível!

Esse era, portanto, o costumeiro diálogo que ocorria toda noite na humilde casa de Zizo, localizada na periferia do Rio de Janeiro. Ele vendia laranjas em semáforos, mas os negócios iam mal e a concorrência, pesada. Assim como ele, havia vários outros vendedores ambulantes em esquinas e semáforos adjacentes, de modo que ele não conseguia se destacar. Seu raciocínio era singelo: enquanto todos os ambulantes vendiam laranja de camiseta, bermuda e chinelos, se ele usasse terno, ganharia respeito e, principalmente, visibilidade. Prefeririam as laranjas dele.

– Isso é bobagem, não existe nenhuma garantia de que você venderia mais se tivesse um terno – dizia sua esposa, artista plástica e pintora, que vendia seus quadros em Santa Teresa, mas cujos negócios tampouco iam bem.

– Você diz isso porque quer me sabotar! – gritava Zizo, um absurdo completamente sem propósito, um devaneio de alguém já à beira do desespero. – Quer mais é que a gente se endivide mais e mais para você me largar, eu sei!

– Isso não tem nada a ver – respondia a mulher, até um pouco envergonhada por ter de se defender de uma acusação tão ridícula. – Eu me casei contigo, Zizo! Eu escolhi viver contigo!

– E daí? Que sacrifício há nisso? Se casou, se separa. A que você renunciou?

– Renunciei à liberdade de acordar com bafo e ninguém sentir.

Isso era mesmo algo de que ela não abrira mão até conhecer Zizo. Nunca havia amanhecido na cama com ninguém. Parecia-lhe inconcebível que, após uma noite com alguém, tivesse que acordar sem maquiagem, com mau hálito, despenteada. Seu primeiro sono  compartilhado com Zizo causou-lhe um medo tão intenso que não seria exagero chamar de pânico. Dormiu mal, acordou insegura e, mais tarde, chegou a confessar a uma amiga:

– É como o medo de sentar no vaso e uma barata subir na sua bunda. Acordar com alguém evidencia toda a vulnerabilidade do nosso corpo, o limite dos nossos cheiros, a crueza da nossa aparência. Nunca mais durmo com Zizo nem com ninguém.

Evidentemente, descumpriu o juramento, casou-se com ele e, como recompensa dos deuses, ouve toda noite:

– Tenho que comprar um terno.

Irritado com a falta de apoio da mulher, Zizo foi um dia por conta própria a um shopping center. Ingênuo, entrou logo em uma loja de ternos de grife e, muito mal atendido, não soube direito se havia entendido corretamente o preço. Foi a outra loja e continuou muito confuso. Por que tantos zeros para um pedaço de pano? Conseguiu até um desconto com uma vendedora, mas o valor continuava absurdo. Depois de muitas pesquisas, encontrou, em uma loja de ternos populares, um magnífico conjunto, já com a calça, os sapatos e a gravata, por 200 reais. Era uma pechincha! Não havia caimento, tinha uma costura pobre, mas experimentou mesmo assim. Ficou horroroso, não conseguia nem se mexer, mas achou lindo. Só faltavam mesmo os 200 reais. Podia parcelar, porém. Se dividisse em dez partes de 20 reais e vendesse tantas vezes mais laranjas como achava que era possível, em pouco tempo o investimento teria valido a pena.

– Tenho que dar entrada?

– A primeira parcela é só para o próximo mês, senhor.

Comprou!

Não contou nada à esposa. Deixou o terno escondido e, como saía para a rua mais cedo do que a mulher, ela não perceberia nada. Quando chegasse à noite em casa, com muito mais dinheiro do que o habitual, ela teria que lhe dar razão e não haveria tempo para críticas do tipo: "Não acredito que você comprou isso, sendo que o leite das crianças está no fim!".

Acordou uma hora mais cedo para conseguir colocar a gravata. Saiu na ponta do pé para não acordar a esposa e estragar a surpresa e foi às ruas. Dessa vez, não venderia as laranjas nas ruas da Penha, Olaria, Vicente de Carvalho… Era agora homem importante e tinha que fazer negócios com gente igualmente importante. Foi para o Centro. Fazia calor. Ainda eram 8 da manhã, mas dezembro no Rio nunca tem clima fresco. Suava como nunca. O terno colava-lhe ao corpo. A Rio Branco fervilhava de carros, buzinas, pessoas apressadas. Os negócios ainda não estavam como ele esperava, mas era só o começo do dia. Quando ia vender sua primeira laranja, porém, não reparou que o sinal tinha aberto para os carros, veio um motorista furioso com o trânsito e atropelou Zizo. Banho de sangue no centro do Rio.


2

– Me desculpa, senhora, me desculpa! – dizia o motorista à viúva de Zizo. O condutor, verdade seja dita, cumpriu todas as suas obrigações. Mesmo atrasado para o trabalho, prestou os primeiros socorros, chamou a ambulância, telefonou para a viúva (tinha o número da esposa no celular de Zizo) e foi por contra própria prestar os devidos esclarecimentos na delegacia. 

– A senhora me desculpe, por favor. Eu sei que nada é capaz de restituir sua perda, de compensar uma vida humana, mas… – E continuou a falar por um longo tempo, enquanto a mulher apenas tapava o rosto, incrédula da desgraça que lhe abatia. Ao contrário do que Zizo dizia, foi ele quem a deixou, não o contrário. O motorista, ainda muito nervoso, dizia que estava preso no trânsito havia mais de uma hora, que tinha se atrasado, que não viu Zizo atravessar a rua.

– Não viu, meu senhor? – falou a viúva, pela primeira vez. – Não viu um homem na sua frente?

– Minha senhora, sei que vou morrer com essa culpa, mas no Centro tem tanta gente de terno correndo de um lado para o outro que eu simplesmente não vi seu marido. Era exatamente assim que ele estava: correndo e de terno. Para mim, ele era apenas uma sombra, nada mais.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A demolição

Há trinta e cinco anos faço esse caminho. Estou agora na Rua D e já sei exatamente quais prédios em quais cores me esperam ao virar a esquina. Imagine você o que são trinta e cinco anos: quanto mudou o país, o mundo, você próprio, se é que você já era nascido. Trinta e cinco anos são uma vida e não é exagero afirmar que foi essa vida que eu gastei nesse percurso, nesse trajeto de aproximados dois quilômetros, algo em torno de trinta minutos de caminhada, que ligam meu prédio ao meu trabalho e vice-versa.

São seis e quinze da tarde e estou voltando do trabalho, pela calçada oposta àquela por onde eu vim de manhã, mas pelas mesmas ruas. Viro a Rua D e já estou na Avenida H, com seu trânsito mais movimentado e a poeira do asfalto subindo. Não sou infeliz, nunca fui infeliz. Sempre gostei do meu trabalho, dessas ruas, dessa paisagem. Dizer que essa rotina nunca me enfadou talvez seja mentira, mas posso repetir: nunca fui infeliz. Apesar disso, tampouco posso negar que me alegra a certeza de, após seguir a Avenida H e virar a Rua F, ver meu prédio, de construção antiga, com pintura já gasta, mas onde está o meu, absolutamente o meu apartamento.

Devaneio e estou já no fim da Avenida H. O dia no trabalho foi tranquilo. Não preciso descansar, pois não estou cansado, mas, ainda assim, mal posso esperar por chegar em casa e deitar-me no sofá macio e aconchegante, no centro da sala, que é o primeiro cômodo depois que entramos no apartamento. Aperto um pouco o passo. É sempre aqui o ponto em que começo a caminhar mais rapidamente: não sei se é pela maior proximidade de casa ou por a paisagem ficar mais feia e carregada. Mas ando mais depressa. Acabou a avenida e já estou na Rua F. Mais três esquinas e lá estará meu prédio. Mais duas e já poderei vê-lo. Ando mais. Pronto, passei o primeiro quarteirão e meu prédio, assim como acontece há trinta e cinco anos, já se poderá fazer visível. Mas não. Algo estranho acontece. Não o vejo. Meu prédio não está lá.

Terá sido meu dia mais cansativo do que eu pensava, de forma a me embaçar a visão? Não há neblina, portanto o problema deve estar comigo. O céu é de um azul escuro, já quase negro. Está limpo, muito limpo. Uma sensação de novidade me bate no peito: pela primeira vez, em trinta e cinco anos, algo mudou na paisagem. Meu prédio não está lá. Fico excitado por isso, porém é uma excitação ruim. A novidade também foi ruim. Meu prédio não está lá, mas continuo a andar em sua direção. Fui treinado para isso.

Penso agora: será que há alguma nova construção na rua, de modo a impedir que eu aviste meu prédio? Não, não há. Se antes, à direita do meu prédio, havia outro de pastilha vermelha, agora ele ainda está lá. Se, à esquerda, o que tinha era uma casa baixa de um amarelo velho, ela também permanece. À frente, só rua. Nada impede a visão do local onde deveria estar meu prédio. Então, me pergunto: se não o estou vendo, o que avisto no lugar? Parece piada essa pergunta: ela não se faz, simplesmente vemos algo no lugar e pronto. Mas não. Eu não vejo nada e não me dei conta de que deveria, sim, haver algo onde outrora estava o meu prédio. Não há, porém. É um vazio. Um terreno baldio. Entre o prédio de pastilha vermelha e a casa amarela velha, há um vazio, o mesmo vazio onde estava o lugar em que morei por tantos anos.

Cheguei, enfim. Estou com a chave na mão, mas não há nem porta nem fechadura. Estou atônito. Que angústia! Quero subir as escadas e entrar no meu apartamento! Mas não há nem porta nem fechadura nem escada. Quero abrir minha geladeira, beber meu refrigerante, ligar minha TV. Mas não há nem porta nem fechadura nem escada nem geladeira nem refrigerante nem TV nem nada. Demoliram meu prédio sem me avisarem? Se o Estado ou seja lá quem for tem planos para essa área, deveria ter me informado com antecedência. Devo processar, devo reclamar! Toco a campainha da casa vizinha. Um senhor, com quem nunca conversei, me atende:

– Pois não? – ele diz.
– Boa noite. Eu morava nesse prédio aqui ao lado, que não está mais aqui. Gostaria de saber se o senhor tem alguma informação sobre o que aconteceu enquanto eu estive ausente.
– Prédio que não está mais aqui?

Ele pensa que estou a zombá-lo. O coitado está tão velho que nem sequer deve se lembrar que até ontem havia um prédio aqui.

– O prédio continua lá – ele me diz, mas se referindo ao edifício de pastilha vermelha.
– Me refiro ao outro prédio, meu senhor.
– Que outro prédio? Ora, por favor, passe bem!

O velho se irritou subitamente. Acaba de bater a porta na minha cara. Estou muito angustiado, sem saber o que fazer. A alguns metros tem uma lanchonete. Vou lá, conversar com o segurança do recinto.

– Boa noite, Jorge – eu cumprimento. Pensei que ele fosse responder também pelo meu nome, mas apenas repete um gélido “boa noite”. Nunca fomos amigos, mas já conversamos algumas vezes. Esperava mais simpatia em um momento tão delicado como esse pelo qual passo agora.

– Meu senhor, nunca houve um prédio ali – ele me diz, quando exponho minha preocupação. Mas estou certo de que nem sequer me ouviu. Foi tão grosseiro, me cortou de forma tão abrupta que garanto que não entendeu minha aflição. Estou irritado e vou-me embora. Decido ir à polícia.

Chego ao posto policial que fica na rua atrás de onde eu moro (morava!). Espero. Ninguém me atende. Espero. Estou em pé. Espero. Vou me sentar. Sento-me. Espero. Passam-se cinquenta minutos. Sou atendido.

– Gostaria de prestar queixa quanto à demolição do edifício onde eu moro.
– Demolição?
– Sim, senhor. Demoliram meu prédio e não me avisaram nada.
– Onde exatamente, senhor?
– Na Rua F, bem aqui em frente.

O atendente levanta-se de sua estreita cadeirinha e chama seus colegas, aos gritos de “escute o que esse homem está dizendo!”. Sentindo-me desnecessariamente ridicularizado, injustiçado, saio do posto policial, xingo em voz baixa. Se nem para a polícia podemos nos queixar, aonde iremos?

Começo a andar pelas redondezas, ruas próximas, a fim de notar outras diferenças: quem sabe um vazio onde outrora havia uma casa, uma loja, um shopping center? Mas não, tudo continua exatamente como sempre fora. Só meu prédio desabou. E foi demolição, sem dúvida, porque, como eu já disse, as casas vizinhas continuam intactas. Se meu prédio tivesse caído por acidente, as residências dos lados também sofreriam abalos, mas não. Foi um ato premeditado. Estudaram como acabar com minha casa sem destruir as demais.

Ah, por que me enclausurei tanto nos últimos anos? Gostaria de saber como reagiram os moradores dos outros apartamentos. Se, ao menos, eu tivesse seus contatos... Se tivesse como perguntar para onde eles foram... Pena também eu morar sozinho. Se dividisse meu espaço com outra pessoa, poderia telefonar para ela, perguntar o que aconteceu, pedir uma garantia de que não enlouqueci.

Enlouquecer? Meu Deus! Só agora pensei nisso. Será? Será mesmo possível que nunca morei ali, que realmente jamais houvera um prédio naquele clarão? Volto para lá. Vou provar para mim mesmo minha sanidade. Vou voltar para lá e procurar por resquícios de objetos meus. Se demoliram meu prédio sem se dignarem a me possibilitar que retirasse meus móveis, meus documentos, meus pertences, eles devem estar pelo chão, ao menos alguns deles. Ando, ando, ando, ando. E chego. E olho. Passo o limite da calçada e já estou no vazio que eu habitava. Agora, o prédio sou eu. Olho para a frente e vejo a rua com seu tráfego, a essa hora, mais calmo (como entardeceu! Quase meia-noite já!). Essa visão que tenho é a mesma que meu humilde edifício teve por tantos anos. Mas ele se foi e eu estou aqui. Para que mesmo eu vim? Ah, sim, buscar meus pertences. Olho para o chão. Está muito escuro e apenas um poste ilumina o local. Não há uma pedra sequer. Que estranho! Não deveria ter alguns destroços da demolição? Mas não tem nada, como isso é possível? Que eficiência! Apenas durante o meu expediente, puseram a baixo minha residência e ainda limparam a sujeira. Ou seja, levaram junto os meus pertences. Não tenho nada, apenas essa roupa no corpo. Está frio. Uma da manhã. O vento da madrugada me corta a alma. Vou mais aos fundos e paro onde até ontem ficava o apartamento 101, em que estavam meu quarto e minha cama. Então, me deito. No chão. Me encolho. Minhas cobertas tampouco existem. Me encolho mais. Faz frio, muito frio. Bato os dentes. Que desespero! Duas horas da manhã, três horas. O sono não vem, o frio não deixa. Em pouco tempo, mais um dia de trabalho me espera. Dessa vez, não tenho despertador, terei que acordar no instinto. Será que me zombarão por repetir a roupa? Infelizmente, a repetirei por toda a vida. É tudo o que me resta. A não ser que devolvam minha casa. Tenho que domar os pensamentos, já basta o frio para afastar o sono. Tento esvaziar a mente e pensar apenas que ainda há um quarto aqui, com suas cortinas pesadas, suas cobertas quentes, seu colchão macio. Durmo, enfim.