quarta-feira, 5 de março de 2014

Não o mate!

A peça chegava ao ápice. O marido descobrira a traição da esposa e segurava fortemente o amante, impossibilitando-o de se mexer, com a faca em seu pescoço. Matá-lo era a única solução para lavar sua honra.

A plateia estava agitada. Mesmo o tradicionalmente fleumático público do teatro ouvia as batidas de seus corações. Não queriam que o mocinho morresse. Ele trabalhava para o marido traído e a ele fora sempre fiel nas questões relacionadas às finanças da casa, um companheiro exemplar que tivera apenas a infelicidade de se apaixonar pela esposa do patrão. O marido, por sua vez, embora houvesse sido traído, não é de todo inocente. Há tempos não dava atenção à esposa, preocupava-se apenas com sua posição na sociedade, com compra e venda de terras, com maquinações e joguetes políticos. Se estava tão irritado com a traição da mulher, não era por amá-la, mas por ver seu nome enlameado na fechada alta sociedade local.

Enquanto uma ousada espectadora chegava ao insano limite de gritar de seu assento: “Não o mate!”, um garoto de não mais de treze anos pedia esmola na parte de fora do teatro.  Foi esse menino, negro, magro, de cabelos raspados, sem camisa, com uma bermuda suja de tinta e descalço, quem ocasionou um inusitado incidente. Fazia muito frio, a chuva caía fortemente, ele estava a bater os dentes, quando decidiu entrar no galpão interno do teatro. Passou pela bilheteria, pelos banheiros, pela lanchonete e abrigou-se embaixo da escada, onde estava mais quente. Ainda tremia de frio, porém. Enrolou-se em si mesmo o máximo que pôde, até ser questionado pelo segurança sobre o que estava fazendo ali. Pergunta retórica, ele não respondeu. O segurança insistiu, o menino se manteve em silêncio. O brutamonte, então, abaixou-se para agarrar o garoto à força, mas este, magro e mais ágil, passou por entre as pernas do grandalhão e correu rumo à porta de entrada da sala de espetáculo, que não estava trancada. Havia apenas uma funcionária no local, que, distraída, também assistia à peça e, embora já a tivesse visto dezenas de outras vezes, sentia a mesma palpitação de outrora e, mesmo já sabendo o final, não podia evitar um baixo sussurro: “Não o mate!”

O garoto passou pela mulher sem se fazer notar, mas o segurança vinha atrás, enfurecido. O menino deparou-se subitamente com a escuridão do local, seus olhos precisaram de um tempo para se acostumar com as luzes que só vinham do palco. O segurança adentrava a sala já com o revólver na mão. A distraída funcionária percebia somente agora o que estava acontecendo. O garoto já havia pulado mais de dez fileiras de assentos e se encontrava no outro extremo do ambiente. A maioria do público, envolto à emoção do palco, ainda não percebia o incidente, mas os atores, em sua posição privilegiada, já tinham notado. O segurança mirou a arma na direção do garoto e a funcionária precisou contê-lo, dizendo: “Não o mate!”

O segurança subitamente percebeu o desastre que seria dar um tiro naquele lugar. Pôs a arma de novo na cintura e correu na direção do garoto, a fim de tirá-lo na marra daquele lugar, com a força de seus braços. O garoto, porém, era muito mais ágil e se mantinha sempre numa considerável distância de seu algoz. A perseguição durou uns cinco minutos, sem que ninguém na plateia houvesse notado, quando, pegando um atalho por entre duas fileiras de assento mais espaçadas, o segurança encurralou o menino contra a parede.

Embora os atores percebessem o que ocorria, a peça continuava se desenrolando normalmente. Depois de um longo discurso a favor da honra e da dignidade, chegara a hora de o marido, enfim, cortar a garganta do traidor. Mais vários "não o mate!" foram ditos. O segurança, por sua vez, dizia ao menino: "Te matarei".

O garoto, assustado, pulou para cima do palco e os atores não puderam mais fingir que nada ocorria. O marido esbugalhou os olhos e o mocinho traidor, em movimento oposto ao do garoto, pulou para fora do palco. O segurança puxou novamente sua arma, pois via o menino correndo em direção dos camarins. Acontece que o marido agarrou o garoto no meio do caminho e gritou para o homem com o dedo no gatilho: "Não o mate!"

O marido cortou a garganta do menino e a plateia delirou em entusiasmo, aliviada pela sobrevivência do mocinho.

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