quinta-feira, 27 de março de 2014

Memórias pontuais

Quando a Sra. Lima me pediu para escrever minhas memórias sobre a casa, recusei o máximo que pude. Mas, como já podem depreender, acabei por aceitar. Na verdade, acabei por aceitar várias coisas que tentei negar, mas nunca tive forças suficientes. O próprio hábito de chamá-los de Sr. e Sra. Lima me parecia horrível, coisa de estrangeiro; quem no Brasil chama o outro pelo sobrenome? Terrível hábito do meu antecessor, que queriam me empurrar goela abaixo. E empurraram.

Foi numa tarde muito quente, em que eu tentava me aproximar ainda mais do frio azulejo da cozinha, quando ela me fez o pedido. “Essa casa já foi tão cheia de gente, tão viva, e agora só estamos nós dois aqui. Eu não tenho mais saúde para escrever nada, só me resta você.” Tentei resistir:

– Senhora, sou um ser inanimado, não me convém escrever nada, muito menos algo tão importante.
– Bobagem – ela respondeu. – Vários seres com muito menos inteligência do que você já contaram histórias. Até liquidificador já foi narrador de filme!
– De filme, senhora. Mas livro...
– De livro também. Osgas já escreveram livros e olha que nem sei que bicho é esse.
– Era um enredo mais fácil.
– Como mais fácil? Mais fácil é o seu, até porque nem é um livro, são só algumas memórias.
– Por que não pede isso a um filho, um parente, alguém que pelo menos tenha mãos para escrever?
– Acha que nunca pedi? Mas não adianta, todos já têm suas vidas, são ocupados, não são como eu e você: eu sentada no sofá e você pregado na parede o tempo todo. Aliás, vou te tirar daqui da cozinha e te levar para a sala.

Era um inferno, eu não tinha paz. Raramente passava uma semana no mesmo cômodo. Às vezes, eu era levado até mesmo em viagens ou em algum local mais distante e se você pensa: “Ah, que boa vida viajar assim de graça”, esqueça. Eu ficava no hotel o tempo todo. O Sr. Lima era completamente contrário a me levar, dizia que eu ocupava espaço inútil na mala, mas a Sra. Lima respondia que nada disso, que eu era fundamental, mas não sabia argumentar por quê. O Sr. Lima retrucava, falava que se ela queria tanto assim ver a hora, que comprasse um relógio de pulso, não um de pendurar, que nem sequer era possível sair comigo pela rua, que aquilo era ridículo e tudo mais, mas a mulher gritava, dizia que minha utilidade não era só marcar a hora, que eu era muito mais do que isso e que se ele não podia enxergar toda a minha complexidade, que se calasse e não enchesse mais a paciência. Para que ela parasse de berrar, ele se resignava e dormia. Na verdade, fingia dormir, porque, de onde eu estava, via que ele sempre abria os olhos.
É, parece que já comecei a escrever as memórias. Que fraqueza de espírito! Realmente, não sei que complexidade é essa que a Sra. Lima vê em mim. Sou tão complexo que não sei por onde começar... Quem deveria escrever isso era o Nandinho, garoto esperto, o mais inteligente dentre todos os filhos. Mas desde moleque a Sra. Lima lhe pedia para escrever um diário – já que ele tirava ótimas notas em redações – e ele negava.

– Para que vou escrever um diário, mãe?
– Para se expressar, meu filho, colocar seus sentimentos num papel, ter uma válvula de escape qualquer.
– Se eu escrever um diário, jamais serei sincero, vou escrever de acordo com os olhos dos outros.
– Preocupado com o que os outros vão pensar ao ler? – perguntou Sra. Lima, que não entendia muito bem as metáforas, por mais óbvias que fossem. Nandinho anuiu e ela completou: – É só deixar o diário muito bem guardado e não contar a ninguém.
– Um dia lerão, nem que seja quando eu morrer. E, ainda que não leiam, vou ficar com a preocupação. Nunca vou me abrir por completo em um diário.

E ele tinha razão. Duvido, por exemplo, que, se ele escrevesse um diário, relataria que levou Camila para o quarto várias vezes enquanto namorava a Bruna. Eu reprovava essa atitude, mas Bruna era mesmo uma menina insuportável, dessas que riem para tudo que lhes falam e têm a mania de repetir as primeiras ou as últimas palavras que lhes foram ditas, como quem concorda com a afirmação, mesmo sem ter ideia do assunto.

– O PT é mesmo um traidor – havia dito uma vez um amigo do Sr. Lima, em um almoço de domingo.
– Um traidor – repetiu Bruna.
– Completamente vendido aos interesses do grande capital.
– Completamente vendido.
– Mas, ainda assim, como negar que os melhores anos do Brasil foram os últimos?
– Foram os últimos.

Mas, às vezes, a estratégia falhava:

– Você é muito jovem e talvez não se lembre, mas eu cresci ouvindo dizer que a dívida do Brasil era impossível de ser quitada, que pagávamos apenas os juros etc. E, agora, mesmo com esses traidores no poder, somos a sexta economia do mundo e parece que a gente não sabe o que fazer com isso.
– O que fazer com isso.

É, agora ficou estranho e ela foi desmascarada. Vai ver a fala foi grande demais para ela acompanhar. Só sei que as bochechas do Nandinho queimaram de vergonha. Mas, também, não sei o que esses garotos viam nas meninas com quem saíam. Juca, o caçula (que, nessa época, deveria ter uns 17 anos) namorava uma menina muito parecida com essa Bruna, mas ainda pior. Queria agradar a todo custo, não se posicionava nunca. Diziam-lhe que deveria haver leis mais rígidas contra o desmatamento e, na mesma conversa, outro grupo falava que não se desenvolve um país sem derrubar árvore. Ela conseguiu a proeza de concordar com os dois. Quando namoravam alguma menina com opinião, caíam no extremo oposto. Depois de Bruna, Nandinho namorou Estela, que, ao ouvir alguma opinião favorável ao liberalismo estatal, defendeu aos gritos o papel do Estado na economia, insultou os liberais da mesa e criou um clima de constrangimento geral. 
Como se vê, minhas lembranças são inteiramente inúteis. Foi um erro a Sra. Lima me pedir para escrever isso. A verdade é que a gente nunca sabe o que vai ficar na nossa memória. Às vezes, são os menores acontecimentos. Por exemplo: no dia do casamento do Sr. e da Sra. Lima, eu estava lá, na igreja, na bolsa da madrinha. Tenho vivo na memória que foi um grande estresse conseguirem me encaixar naquela bolsa e que eu estava apertado, incomodado, mas isso é tudo de que lembro. O resto das memórias são sombras imprecisas. Em compensação, lembro-me perfeitamente de um dia em que Nina (outra irmã) pediu água ao Sr. Lima, que estava mais perto da geladeira. O pai perguntou se ela preferia com ou sem gás. Qual a importância desse diálogo? Nenhuma. E eu me lembro perfeitamente. Também me esqueci de quase tudo dos dias em que a Sra. Lima deu à luz – o que era para ser marcante. Teve um filho que deu muito trabalho, foi um parto complicado, mas não me lembro qual. Teve um outro que me assustou: a Sra. Lima estava em casa, vendo TV, quando gritou que tinha que ir para o hospital. Mas gritou tão alto que eu quase caí do prego. Só que também me esqueci quem foi. Deveriam ser momentos importantes, mas não me lembro, fazer o quê? Por outro lado, tenho muito viva na memória a cena de Juca, bem jovem, reclamando que a sanduicheira tinha pifado e que, agora que o presunto e o queijo já estavam entre os pães, ele teria que comer o sanduíche frio mesmo, porque não queria desperdiçar. Totalmente insignificante, mas foi o que ficou para mim.

Por falar em sanduíche, numa coisa a Sra. Lima tem razão: essa casa era agitada mesmo. O que isso tem a ver com sanduíche? É que eu notei que a solidão se abatia sobre esse lar num dia em que vi um sanduíche comido pela metade no corrimão da escada da cozinha. Não tem nada que retrate melhor o abandono de um lugar do que um sanduíche comido pela metade.
O tempo pesa muito sobre mim, de modo que essas lembranças me parecem coisa de cem anos. São memórias antigas, é verdade, mas, para mim, parecem mais velhas ainda. Dizem que, se você ficar contando os minutos de um determinado período, este demora muito mais a passar. Imagina meu caso, que conto horas, minutos, segundos... Lembro-me de algumas sensações, mas que não vêm com fatos acoplados. Lembro-me da vontade que tive de chorar quando ventava. Quando? Por quê? Não sei. Às vezes, o vento faz isso comigo – só não choro porque não tenho olhos. Mas só o vento frio. Quando ele é quente, não me emociono, mas me assusto, tenho medo. Chuva, idem. Tem pessoas que se acalmam com o barulho da chuva. Já eu fico agitado...
Agora, que estou falando de sensações, estou me lembrando de um cheiro... Um odor bem forte, agridoce. De onde ele vinha? Quando o senti? Foi num dia em que eu estava triste... Mas triste por quê? Não presto mesmo para esse negócio de memória.
A pilha está fraca, não sei se irei muito longe nessa escrita. Perdi já um pedido de noivado, feito a Nina, porque eu estava dormindo, sem pilha. Lamento até hoje.
Aliás, por falar em Nina, esse namorado dela tinha um péssimo hábito: de um probleminha de nada fazia uma tempestade. Eles namoraram por uns dez anos e se casaram, portanto só fiquei sabendo disso bem tardiamente. Mas achei curiosa a forma como a psicóloga dele resolveu esse problema. Nina dizia que Vitor (era esse o nome do fulano) era muito ansioso – e era mesmo. Isso influenciava essa mania de piorar a situação de qualquer problema supérfluo. Então, a psicóloga sugeriu a Nina que inventasse problemas piores do que os que tiravam o sono de Vitor. Por exemplo: ele estava muito ansioso para saber a nota de uma prova que havia feito. Não dormia por essa razão, só falava disso. Nina, então, chamou-o e disse, com um tom pesaroso: “Querido, sua avó ligou. Não se assuste, mas sua mãe sofreu um acidente. A panela com água fervendo virou em cima dela e ela está no hospital”. Doía à Nina ver o sofrimento de Vitor, mas era recomendação da psicóloga que o deixasse se desesperar por, pelo menos, cinco minutos. Deixou que se vestisse e corresse para o carro – iria para o hospital imediatamente. Já no banco do carona, ela lhe contou a mentira. A prova já não era mais problema. Teve outro caso, mais engraçado: ele estava ansioso porque não tinha dinheiro para pagar a um amigo, que lhe havia emprestado uma quantia qualquer, mas que não lhe cobrava nem nada. Era uma situação completamente aceitável, mas ele não se conformava, passava horas sem dormir e, quando dormia, tinha pesadelos, falava sozinho. Nina um dia disse que entendia perfeitamente a ansiedade do namorado e que ela também estava sofrendo algo similar. Sabendo que Vitor já estava metido em dívidas, ela, que precisava de dinheiro, decidiu recorrer a um agiota. Agora, estava ameaçada de morte. Desvendada a farsa, a dívida com o amigo passou a ser bobagem (e nem sei se ele pagou!).
Já vi muitos desses perigosos joguinhos nessa família. A própria Sra. Lima já se utilizou dessas artimanhas. Ela não me pediu para escrever minhas memórias? Pois que não pense que sairá incólume. Havia uma época em que o casamento estava em crise. Ao Sr. Lima desagradava tudo o que envolvia a esposa. Parecia estar cansado dela e, embora ela também parecesse fatigada, todas as brigas quem começava era ele. A pobre da mulher dava um ai e ele já lhe tacava pedras. Então, a Sra. Lima resolveu pregar uma peça que até eu, na fria exatidão de meus ponteiros, achei cruel. Ela pediu para Nina ligar para o pai e lhe dizer que a mãe havia se acidentado no trânsito e que falecera. O Sr. Lima ficou atônito! Gritou, socou a parede, chorou, gritou de novo, gritou mais ainda, gritou até acordar toda a vizinhança. “Minha mulher, minha mulher!” Nem perguntou onde estava o corpo, como havia sido o acidente, não quis saber de nada, parecia que um escuro absoluto havia tomado conta do homem. Chegou a passar mal, a vomitar. Eu fiquei com tanto medo que pensei que quem fosse realmente morrer era ele. Mal sabia o Sr. Lima que sua mulherzinha estava escondida no quarto ao lado. Quando ela saiu de sua tocaia, pensei que ele fosse agredi-la (eu teria apoiado, que brincadeira de mau gosto!). Mas, não. Ele se assustou, é verdade, pensou estar vendo fantasma, porém, assim que soube que tudo era uma cilada, abraçou a Sra. Lima de modo tão forte que pensei que não fosse soltar nunca mais. O casamento estava recuperado.
A Sra. Lima não gostou dessa última revelação. Falou que não era para eu escrever mais nada. Não sei se a alma do Sr. Lima também reprovou essa minha última confissão. Mas que seja, melhor para mim. Não queria escrever mais nada mesmo, não tenho jeito para isso. Vou parar, então. 
Sou tão sem habilidade nesse negócio de escrever que nem sei fazer um desfecho, um grande encerramento. Esse tic-tac contínuo me mata...

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