domingo, 9 de março de 2014

Literatura infantil

Que material de leitura oferecer aos nossos filhos? Eu, que não sou pai, já me faço essa pergunta, imagine quem já tem filho e se vê desanimado com as opções nas prateleiras infantis das livrarias. Não é mesmo fácil. Encontrar bons livros para crianças é uma tarefa das mais árduas.

A maioria das obras para esse público tem inúmeros preconceitos, visões reducionistas de mundo e horríveis moralidades (sempre deve haver a dita moral da história). Além disso, um outro erro comum desses escritores é achar que toda criança é idiota e que, portanto, deve-se usar um vocabulário muito reduzido. É verdade que não se deve fazer uso de nenhum linguajar super resbuscado, sob pena de aborrecer a criança e incentivá-la a largar o livro de lado, mas tratá-la como incapaz de entender um texto médio é, também, um erro. Admito, porém, ser complicada a tarefa de encontrar esse meio-termo. Percebo também o desconhecimento da faixa etária a qual se quer atingir. A partir de uns doze, treze anos, os leitores são classificados como infantojuvenis, mas, antes disso, são todos vistos como iguais. É como se um garoto de cinco anos se interessasse pela mesma leitura de um outro de dez ou onze. Além disso, não estou inteiramente convencido de que o exagero de ilustrações agrada a todas as crianças.

O famoso escritor Oscar Wilde se fez a mesma pergunta que nos perturba: o que dar para seus filhos lerem? Ele chegou à triste conclusão de que, em sua época, simplesmente não existia literatura infantil de qualidade. Solução: escreveu ele próprio os livros que seus filhos deveriam ler. Trata-se de pequenos contos que tinham como objetivo ensinar os filhos como viver, contos estes compilados em um livro chamado “Histórias de fadas”. O conto mais famoso do livro deve ser o sombrio “O rouxinol e a rosa”, que carrega toda a melancolia das histórias adultas de Wilde, só que para criança. Eu, pelo menos, preferiria que meu filho lesse isso, por mais sombrio que seja, em vez de livros bobocas infantis.

Outra famosa autora a já ter escrito para criança foi Clarice Lispector, com seu “O Mistério do Coelho Pensante”, conto bem legal, bem infantil (certamente bem menos controverso que o do Wilde). Além desses, tem outros renomados escritores que, embora poucos saibam, já se aventuraram pela literatura infantil. Para citar alguns: Mario Vargas Llosa (“Fonchito e a Lua”), Pablo Neruda (“Livro das Perguntas”), José Saramago (“O Silêncio da Água”), Mário de Andrade( “Será o Benedito?”), Jorge Amado (“O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”), Anton Tchékhov (“Cachtánca”), Julio Cortázar (“Discurso do Urso”) e, por fim, há quem considere infantil “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, embora eu não ache que crianças pescarão as referências ao comunismo (ou estarei eu caindo no velho erro de subestimá-las?)

Enfim, sei que mais de 90% das opções disponíveis para seus filhos são horripilantes, mas não se desespere: o mundo deles pode ir além dos gibis e tem coisa boa no universo infantoliterário; é só dar uma pesquisada (se não em livrarias, quiçá no Google). Se continuar insatisfeito, faça como o Wilde e escreva você mesmo para seus meninos! Por que não?

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em janeiro de 2014. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

4 comentários:

  1. Por concordar com tudo o que você escreveu passo horas garimpando livros na Monteiro Lobato (biblioteca especializada em literatura infantil). ADORO buscar histórias que instiguem os pequenos. Agora histórias para crianças de 10/11 anos é um problemão, há bem menos histórias legais para essa faixa etária do que para as demais. Uma que considero memorável para a faixa de 10/11 ano foi "Arthur, Gwen e Lance, um triângulo amoro real." Sério. Nunca imaginei ver a história do Rei Artur tão atualizada na linguagem para pré-adolescentes do mundo moderno como vi neste livrinho. Ademais, curti as dicas. :)

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    1. Vou procurar essa história do Rei Artur.
      Nem sabia dessa biblioteca, mas só o fato de existir um lugar especializado em literatura infantil já é louvável, ainda que a maior parte do acervo seja ruim. =P

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  2. Adorei, Marcelo! Sabe que esses dias eu fui dar uma pesquisada em contos infantis e fiquei chocada com o mau gosto, com a chatice e, principalmente, com as ideias tão ultrapassadas de sociedade. Comentei com o Cassiano que o melhor seria realmente que a gente inventasse as histórias! Muito mais divertido, interativo e real. Mande mais dicas! ehehe

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    1. Pô, se eu tivesse um filho, eu certamente escreveria para ele, hehehe. A maioria dos livros é horrorosa! Mas, para os momentos de pouca inspiração para escrever, esses autores aí já valem a pena. =D

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