quinta-feira, 20 de março de 2014

General Cardoso

O General Cardoso era a única esperança que o Exército Verde tinha de derrotar os Azuis. O Exército Azul era dez vezes mais numeroso, mais bem treinado e mais bem equipado. Eram os Azuis os invasores e já tinham tomado 70% do território inimigo, faltando apenas um passo para alcançar Nir, o coração da Terra Verde, onde o General Cardoso ainda resguardava os últimos homens de seu exército. Para piorar a situação dos defensores, toda a sua ilha já havia sido cercada por navios azuis e a derrota seria, em qualquer outra situação, apenas questão de tempo, mas não era dada como certa por ninguém, nem mesmo pelos Azuis, que respeitavam imensamente o lendário comandante inimigo.

General Cardoso era conhecido em todo o mundo como o melhor estrategista vivo do planeta. Em diversas outras ocasiões, o Exército Verde conseguira sair de situações adversas e vencer suas guerras, graças à genialidade daquele homem. Tinha sempre uma solução inventiva, uma isca para capturar o inimigo, uma antevisão dos fatos. Era, acima de tudo, um profundo conhecedor da alma humana, o que lhe propiciava a munição adequada para diagnosticar previamente a fraqueza dos exércitos rivais. Agora, porém, a situação era mais alarmante. Não fosse o general, todos já se teriam rendido. Mas o General Cardoso era enfático ao afirmar que "exércitos não são massas amorfas, mas, antes de qualquer coisa, conjuntos de pessoas". Além de estrategista, Cardoso era excelente incentivador. Enquanto o Exército Azul avançava, ele falava em voz alta para seus soldados em Nir: "É contra homens que lutamos! Não é contra um país, um reinado, um exército, mas contra homens! E homens são fracos! Homens são tolos! A nós, que também somos homens, cabe ser menos fracos e menos tolos que eles! Se conseguirmos, venceremos!". E todos aplaudiram antes de se deitarem para dormir. Poderia ser a última noite de suas vidas.

– Amanhã de manhã os Azuis já terão chegado – disse o Soldado 57.

– Sim, mas vamos vencer – respondeu o Soldado 48, em tom otimista.

– Não sei… Até agora o General Cardoso ainda não nos mostrou nenhum plano.

– Amanhã ele nos dirá. Certamente já tem algo em mente ou, na pior das hipóteses, vai passar a noite pensando. De toda forma, amanhã ele nos dará um comando.

– Sim, você está certo. O General nunca nos decepcionou. Não é a primeira vez que estamos numa situação difícil.

– Exatamente. E, no entanto, sempre vencemos.

– Graças ao General.

– Graças ao General.

– Vamos dormir.

Mas, antes de o sol nascer, já era possível ouvir o som de cavalos chegando ao longe. Pelo barulho, ainda não estavam perto, mas eram muitos. Talvez o Exército Azul fosse mais numeroso do que os Verdes pensavam! O General Cardoso acordou todos os que ainda não tinham despertado com o barulho. "Peguem suas armas! Preparem suas armas!"

Os soldados se olhavam desconfiados, pois o general dava um comando como qualquer outro faria, sem ainda ter mostrado nenhuma estratégia para vencer os inimigos que se aproximavam cada vez mais. O general, porém, era a única esperança de os Verdes vencerem. Corria, inclusive, um boato de que os Azuis já poderiam ter tomado Nir havia uma semana, mas só não o fizeram por receio do que o General Cardoso poderia estar planejando. O Exército Azul, mesmo já sendo muito superior numericamente, havia pedido reforços para adentrar a terra onde o General Cardoso estava com seus homens, tamanho era o respeito pelo inimigo. Agora, os Azuis eram mais numerosos ainda. Eram muitos, já eram mais de quinze vezes superiores em número ao Exército Verde.

– Está aqui o que faremos – disse o General Cardoso e todos respiraram aliviados.

– Está aí! – exclamou o Soldado 48 para o seu colega 57. – Ele tem um plano, amigo! Ele tem um plano! Eu sabia!

– O que faremos é o seguinte – iniciou o General Cardoso, diante das faces risonhas de seus soldados, aliviados ao saber que, pelo mero fato de o general ter um plano, já haviam vencido. – O Comandante Azul é viciado em bombom de licor de cereja.

Todos se olharam, estupefatos. Os sons dos cavalos se aproximavam cada vez mais e o que o General Cardoso estava a dizer?

– Essa é a fraqueza de nosso oponente – continuou ele. – Como vocês sabem, lutamos contra pessoas, não contra exércitos amorfos. E pessoas são tolas, elas cedem aos seus vícios, especialmente quando acham que não há perigo envolvido. Tenho certeza de que uma caixa de bombons de licor de cereja faria o Comandante Azul deslocar todo um exército para outro ponto.

De olhos esbugalhados, as pessoas encaravam o General Cardoso, incrédulas. Antes mesmo que qualquer pedido de esclarecimento pudesse ser feito, o general pegou uma placa ao seu lado e designou o Soldado 72 para dar um passo à frente.

– Finque essa placa na Montanha V e retorne o mais rapidamente possível! Os Azuis ainda estão longe. Você terá tempo suficiente.

Na placa que o General Cardoso tinha passado a noite pintando, lia-se: "Fábrica de bombons de licor de cereja a 30 km à direita".

– Com isso – explicou o general –, o Comandante Azul certamente deslocará todo o seu exército para o Baixo Nir, a fim de saquear a suposta fábrica e, como todos aqui sabem, da nossa atual posição é possível enxergar todo o Baixo. Daqui do alto, acabaremos com eles.

O Soldado 72, depois de certa hesitação, pegou a placa, montou seu cavalo e partiu rumo à Montanha V, enquanto todos permaneciam reticentes quanto àquele plano.

– Que plano é esse? Que plano é esse? – resmungou o Soldado 57, quando o general se afastou.

– Acalme-se – respondeu o Soldado 48. – Em todas as guerras anteriores, o general teve uma ideia inusitada. Em todos os casos, houve resistência por parte dos soldados. E, em todas as ocasiões, vencemos. Tenha em mente que estamos muito aquém da genialidade do general. Não temos a mínima condição de questioná-lo. Se prezamos pela nossa vida, sejamos obedientes e nada mais. Obedeçamos, meu amigo! Obedeçamos!

O discurso convenceu o Soldado 57 e todos os outros que estavam por perto. Pouco a pouco, um clima de otimismo contagiou todo o exército, que já começava a preparar suas armas e a apontá-las para o Baixo Nir, onde, em breve, estaria o Exército Azul. O bem-estar aumentou quando o Soldado 72 voltou da Montanha V para se juntar a eles, após fincar a placa com a indicação da falsa fábrica de bombons de licor de cereja.

Passado algum tempo, o Exército Verde já estava todo preparado para detonar o Baixo Nir. De acordo com os cálculos do General Cardoso, os Azuis já haviam alcançado a Montanha V e não tardariam a chegar à localização da suposta fábrica. Não havia mais a menor dúvida de que não tinham por que questionar o genial General Cardoso, o maior estrategista vivo do planeta, o comandante que levou os Verdes a tantas vitórias históricas.

Acontece que ninguém do Exército Azul apareceu no Baixo Nir. Depois de alguns minutos, os Azuis já estavam aniquilando o Exército Verde e tomando Nir por completo. O General Cardoso foi assassinado e sua cabeça fincada a poucos metros da placa da fábrica de bombons, no pico da Montanha V, ao lado bandeira do vitorioso Exército Azul.

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