quinta-feira, 27 de março de 2014

Memórias pontuais

Quando a Sra. Lima me pediu para escrever minhas memórias sobre a casa, recusei o máximo que pude. Mas, como já podem depreender, acabei por aceitar. Na verdade, acabei por aceitar várias coisas que tentei negar, mas nunca tive forças suficientes. O próprio hábito de chamá-los de Sr. e Sra. Lima me parecia horrível, coisa de estrangeiro; quem no Brasil chama o outro pelo sobrenome? Terrível hábito do meu antecessor, que queriam me empurrar goela abaixo. E empurraram.

Foi numa tarde muito quente, em que eu tentava me aproximar ainda mais do frio azulejo da cozinha, quando ela me fez o pedido. “Essa casa já foi tão cheia de gente, tão viva, e agora só estamos nós dois aqui. Eu não tenho mais saúde para escrever nada, só me resta você.” Tentei resistir:

– Senhora, sou um ser inanimado, não me convém escrever nada, muito menos algo tão importante.
– Bobagem – ela respondeu. – Vários seres com muito menos inteligência do que você já contaram histórias. Até liquidificador já foi narrador de filme!
– De filme, senhora. Mas livro...
– De livro também. Osgas já escreveram livros e olha que nem sei que bicho é esse.
– Era um enredo mais fácil.
– Como mais fácil? Mais fácil é o seu, até porque nem é um livro, são só algumas memórias.
– Por que não pede isso a um filho, um parente, alguém que pelo menos tenha mãos para escrever?
– Acha que nunca pedi? Mas não adianta, todos já têm suas vidas, são ocupados, não são como eu e você: eu sentada no sofá e você pregado na parede o tempo todo. Aliás, vou te tirar daqui da cozinha e te levar para a sala.

Era um inferno, eu não tinha paz. Raramente passava uma semana no mesmo cômodo. Às vezes, eu era levado até mesmo em viagens ou em algum local mais distante e se você pensa: “Ah, que boa vida viajar assim de graça”, esqueça. Eu ficava no hotel o tempo todo. O Sr. Lima era completamente contrário a me levar, dizia que eu ocupava espaço inútil na mala, mas a Sra. Lima respondia que nada disso, que eu era fundamental, mas não sabia argumentar por quê. O Sr. Lima retrucava, falava que se ela queria tanto assim ver a hora, que comprasse um relógio de pulso, não um de pendurar, que nem sequer era possível sair comigo pela rua, que aquilo era ridículo e tudo mais, mas a mulher gritava, dizia que minha utilidade não era só marcar a hora, que eu era muito mais do que isso e que se ele não podia enxergar toda a minha complexidade, que se calasse e não enchesse mais a paciência. Para que ela parasse de berrar, ele se resignava e dormia. Na verdade, fingia dormir, porque, de onde eu estava, via que ele sempre abria os olhos.
É, parece que já comecei a escrever as memórias. Que fraqueza de espírito! Realmente, não sei que complexidade é essa que a Sra. Lima vê em mim. Sou tão complexo que não sei por onde começar... Quem deveria escrever isso era o Nandinho, garoto esperto, o mais inteligente dentre todos os filhos. Mas desde moleque a Sra. Lima lhe pedia para escrever um diário – já que ele tirava ótimas notas em redações – e ele negava.

– Para que vou escrever um diário, mãe?
– Para se expressar, meu filho, colocar seus sentimentos num papel, ter uma válvula de escape qualquer.
– Se eu escrever um diário, jamais serei sincero, vou escrever de acordo com os olhos dos outros.
– Preocupado com o que os outros vão pensar ao ler? – perguntou Sra. Lima, que não entendia muito bem as metáforas, por mais óbvias que fossem. Nandinho anuiu e ela completou: – É só deixar o diário muito bem guardado e não contar a ninguém.
– Um dia lerão, nem que seja quando eu morrer. E, ainda que não leiam, vou ficar com a preocupação. Nunca vou me abrir por completo em um diário.

E ele tinha razão. Duvido, por exemplo, que, se ele escrevesse um diário, relataria que levou Camila para o quarto várias vezes enquanto namorava a Bruna. Eu reprovava essa atitude, mas Bruna era mesmo uma menina insuportável, dessas que riem para tudo que lhes falam e têm a mania de repetir as primeiras ou as últimas palavras que lhes foram ditas, como quem concorda com a afirmação, mesmo sem ter ideia do assunto.

– O PT é mesmo um traidor – havia dito uma vez um amigo do Sr. Lima, em um almoço de domingo.
– Um traidor – repetiu Bruna.
– Completamente vendido aos interesses do grande capital.
– Completamente vendido.
– Mas, ainda assim, como negar que os melhores anos do Brasil foram os últimos?
– Foram os últimos.

Mas, às vezes, a estratégia falhava:

– Você é muito jovem e talvez não se lembre, mas eu cresci ouvindo dizer que a dívida do Brasil era impossível de ser quitada, que pagávamos apenas os juros etc. E, agora, mesmo com esses traidores no poder, somos a sexta economia do mundo e parece que a gente não sabe o que fazer com isso.
– O que fazer com isso.

É, agora ficou estranho e ela foi desmascarada. Vai ver a fala foi grande demais para ela acompanhar. Só sei que as bochechas do Nandinho queimaram de vergonha. Mas, também, não sei o que esses garotos viam nas meninas com quem saíam. Juca, o caçula (que, nessa época, deveria ter uns 17 anos) namorava uma menina muito parecida com essa Bruna, mas ainda pior. Queria agradar a todo custo, não se posicionava nunca. Diziam-lhe que deveria haver leis mais rígidas contra o desmatamento e, na mesma conversa, outro grupo falava que não se desenvolve um país sem derrubar árvore. Ela conseguiu a proeza de concordar com os dois. Quando namoravam alguma menina com opinião, caíam no extremo oposto. Depois de Bruna, Nandinho namorou Estela, que, ao ouvir alguma opinião favorável ao liberalismo estatal, defendeu aos gritos o papel do Estado na economia, insultou os liberais da mesa e criou um clima de constrangimento geral. 
Como se vê, minhas lembranças são inteiramente inúteis. Foi um erro a Sra. Lima me pedir para escrever isso. A verdade é que a gente nunca sabe o que vai ficar na nossa memória. Às vezes, são os menores acontecimentos. Por exemplo: no dia do casamento do Sr. e da Sra. Lima, eu estava lá, na igreja, na bolsa da madrinha. Tenho vivo na memória que foi um grande estresse conseguirem me encaixar naquela bolsa e que eu estava apertado, incomodado, mas isso é tudo de que lembro. O resto das memórias são sombras imprecisas. Em compensação, lembro-me perfeitamente de um dia em que Nina (outra irmã) pediu água ao Sr. Lima, que estava mais perto da geladeira. O pai perguntou se ela preferia com ou sem gás. Qual a importância desse diálogo? Nenhuma. E eu me lembro perfeitamente. Também me esqueci de quase tudo dos dias em que a Sra. Lima deu à luz – o que era para ser marcante. Teve um filho que deu muito trabalho, foi um parto complicado, mas não me lembro qual. Teve um outro que me assustou: a Sra. Lima estava em casa, vendo TV, quando gritou que tinha que ir para o hospital. Mas gritou tão alto que eu quase caí do prego. Só que também me esqueci quem foi. Deveriam ser momentos importantes, mas não me lembro, fazer o quê? Por outro lado, tenho muito viva na memória a cena de Juca, bem jovem, reclamando que a sanduicheira tinha pifado e que, agora que o presunto e o queijo já estavam entre os pães, ele teria que comer o sanduíche frio mesmo, porque não queria desperdiçar. Totalmente insignificante, mas foi o que ficou para mim.

Por falar em sanduíche, numa coisa a Sra. Lima tem razão: essa casa era agitada mesmo. O que isso tem a ver com sanduíche? É que eu notei que a solidão se abatia sobre esse lar num dia em que vi um sanduíche comido pela metade no corrimão da escada da cozinha. Não tem nada que retrate melhor o abandono de um lugar do que um sanduíche comido pela metade.
O tempo pesa muito sobre mim, de modo que essas lembranças me parecem coisa de cem anos. São memórias antigas, é verdade, mas, para mim, parecem mais velhas ainda. Dizem que, se você ficar contando os minutos de um determinado período, este demora muito mais a passar. Imagina meu caso, que conto horas, minutos, segundos... Lembro-me de algumas sensações, mas que não vêm com fatos acoplados. Lembro-me da vontade que tive de chorar quando ventava. Quando? Por quê? Não sei. Às vezes, o vento faz isso comigo – só não choro porque não tenho olhos. Mas só o vento frio. Quando ele é quente, não me emociono, mas me assusto, tenho medo. Chuva, idem. Tem pessoas que se acalmam com o barulho da chuva. Já eu fico agitado...
Agora, que estou falando de sensações, estou me lembrando de um cheiro... Um odor bem forte, agridoce. De onde ele vinha? Quando o senti? Foi num dia em que eu estava triste... Mas triste por quê? Não presto mesmo para esse negócio de memória.
A pilha está fraca, não sei se irei muito longe nessa escrita. Perdi já um pedido de noivado, feito a Nina, porque eu estava dormindo, sem pilha. Lamento até hoje.
Aliás, por falar em Nina, esse namorado dela tinha um péssimo hábito: de um probleminha de nada fazia uma tempestade. Eles namoraram por uns dez anos e se casaram, portanto só fiquei sabendo disso bem tardiamente. Mas achei curiosa a forma como a psicóloga dele resolveu esse problema. Nina dizia que Vitor (era esse o nome do fulano) era muito ansioso – e era mesmo. Isso influenciava essa mania de piorar a situação de qualquer problema supérfluo. Então, a psicóloga sugeriu a Nina que inventasse problemas piores do que os que tiravam o sono de Vitor. Por exemplo: ele estava muito ansioso para saber a nota de uma prova que havia feito. Não dormia por essa razão, só falava disso. Nina, então, chamou-o e disse, com um tom pesaroso: “Querido, sua avó ligou. Não se assuste, mas sua mãe sofreu um acidente. A panela com água fervendo virou em cima dela e ela está no hospital”. Doía à Nina ver o sofrimento de Vitor, mas era recomendação da psicóloga que o deixasse se desesperar por, pelo menos, cinco minutos. Deixou que se vestisse e corresse para o carro – iria para o hospital imediatamente. Já no banco do carona, ela lhe contou a mentira. A prova já não era mais problema. Teve outro caso, mais engraçado: ele estava ansioso porque não tinha dinheiro para pagar a um amigo, que lhe havia emprestado uma quantia qualquer, mas que não lhe cobrava nem nada. Era uma situação completamente aceitável, mas ele não se conformava, passava horas sem dormir e, quando dormia, tinha pesadelos, falava sozinho. Nina um dia disse que entendia perfeitamente a ansiedade do namorado e que ela também estava sofrendo algo similar. Sabendo que Vitor já estava metido em dívidas, ela, que precisava de dinheiro, decidiu recorrer a um agiota. Agora, estava ameaçada de morte. Desvendada a farsa, a dívida com o amigo passou a ser bobagem (e nem sei se ele pagou!).
Já vi muitos desses perigosos joguinhos nessa família. A própria Sra. Lima já se utilizou dessas artimanhas. Ela não me pediu para escrever minhas memórias? Pois que não pense que sairá incólume. Havia uma época em que o casamento estava em crise. Ao Sr. Lima desagradava tudo o que envolvia a esposa. Parecia estar cansado dela e, embora ela também parecesse fatigada, todas as brigas quem começava era ele. A pobre da mulher dava um ai e ele já lhe tacava pedras. Então, a Sra. Lima resolveu pregar uma peça que até eu, na fria exatidão de meus ponteiros, achei cruel. Ela pediu para Nina ligar para o pai e lhe dizer que a mãe havia se acidentado no trânsito e que falecera. O Sr. Lima ficou atônito! Gritou, socou a parede, chorou, gritou de novo, gritou mais ainda, gritou até acordar toda a vizinhança. “Minha mulher, minha mulher!” Nem perguntou onde estava o corpo, como havia sido o acidente, não quis saber de nada, parecia que um escuro absoluto havia tomado conta do homem. Chegou a passar mal, a vomitar. Eu fiquei com tanto medo que pensei que quem fosse realmente morrer era ele. Mal sabia o Sr. Lima que sua mulherzinha estava escondida no quarto ao lado. Quando ela saiu de sua tocaia, pensei que ele fosse agredi-la (eu teria apoiado, que brincadeira de mau gosto!). Mas, não. Ele se assustou, é verdade, pensou estar vendo fantasma, porém, assim que soube que tudo era uma cilada, abraçou a Sra. Lima de modo tão forte que pensei que não fosse soltar nunca mais. O casamento estava recuperado.
A Sra. Lima não gostou dessa última revelação. Falou que não era para eu escrever mais nada. Não sei se a alma do Sr. Lima também reprovou essa minha última confissão. Mas que seja, melhor para mim. Não queria escrever mais nada mesmo, não tenho jeito para isso. Vou parar, então. 
Sou tão sem habilidade nesse negócio de escrever que nem sei fazer um desfecho, um grande encerramento. Esse tic-tac contínuo me mata...

quinta-feira, 20 de março de 2014

General Cardoso

O General Cardoso era a única esperança que o Exército Verde tinha de derrotar os Azuis. O Exército Azul era dez vezes mais numeroso, mais bem treinado e mais bem equipado. Eram os Azuis os invasores e já tinham tomado 70% do território inimigo, faltando apenas um passo para alcançar Nir, o coração da Terra Verde, onde o General Cardoso ainda resguardava os últimos homens de seu exército. Para piorar a situação dos defensores, toda a sua ilha já havia sido cercada por navios azuis e a derrota seria, em qualquer outra situação, apenas questão de tempo, mas não era dada como certa por ninguém, nem mesmo pelos Azuis, que respeitavam imensamente o lendário comandante inimigo.

General Cardoso era conhecido em todo o mundo como o melhor estrategista vivo do planeta. Em diversas outras ocasiões, o Exército Verde conseguira sair de situações adversas e vencer suas guerras, graças à genialidade daquele homem. Tinha sempre uma solução inventiva, uma isca para capturar o inimigo, uma antevisão dos fatos. Era, acima de tudo, um profundo conhecedor da alma humana, o que lhe propiciava a munição adequada para diagnosticar previamente a fraqueza dos exércitos rivais. Agora, porém, a situação era mais alarmante. Não fosse o general, todos já se teriam rendido. Mas o General Cardoso era enfático ao afirmar que "exércitos não são massas amorfas, mas, antes de qualquer coisa, conjuntos de pessoas". Além de estrategista, Cardoso era excelente incentivador. Enquanto o Exército Azul avançava, ele falava em voz alta para seus soldados em Nir: "É contra homens que lutamos! Não é contra um país, um reinado, um exército, mas contra homens! E homens são fracos! Homens são tolos! A nós, que também somos homens, cabe ser menos fracos e menos tolos que eles! Se conseguirmos, venceremos!". E todos aplaudiram antes de se deitarem para dormir. Poderia ser a última noite de suas vidas.

– Amanhã de manhã os Azuis já terão chegado – disse o Soldado 57.

– Sim, mas vamos vencer – respondeu o Soldado 48, em tom otimista.

– Não sei… Até agora o General Cardoso ainda não nos mostrou nenhum plano.

– Amanhã ele nos dirá. Certamente já tem algo em mente ou, na pior das hipóteses, vai passar a noite pensando. De toda forma, amanhã ele nos dará um comando.

– Sim, você está certo. O General nunca nos decepcionou. Não é a primeira vez que estamos numa situação difícil.

– Exatamente. E, no entanto, sempre vencemos.

– Graças ao General.

– Graças ao General.

– Vamos dormir.

Mas, antes de o sol nascer, já era possível ouvir o som de cavalos chegando ao longe. Pelo barulho, ainda não estavam perto, mas eram muitos. Talvez o Exército Azul fosse mais numeroso do que os Verdes pensavam! O General Cardoso acordou todos os que ainda não tinham despertado com o barulho. "Peguem suas armas! Preparem suas armas!"

Os soldados se olhavam desconfiados, pois o general dava um comando como qualquer outro faria, sem ainda ter mostrado nenhuma estratégia para vencer os inimigos que se aproximavam cada vez mais. O general, porém, era a única esperança de os Verdes vencerem. Corria, inclusive, um boato de que os Azuis já poderiam ter tomado Nir havia uma semana, mas só não o fizeram por receio do que o General Cardoso poderia estar planejando. O Exército Azul, mesmo já sendo muito superior numericamente, havia pedido reforços para adentrar a terra onde o General Cardoso estava com seus homens, tamanho era o respeito pelo inimigo. Agora, os Azuis eram mais numerosos ainda. Eram muitos, já eram mais de quinze vezes superiores em número ao Exército Verde.

– Está aqui o que faremos – disse o General Cardoso e todos respiraram aliviados.

– Está aí! – exclamou o Soldado 48 para o seu colega 57. – Ele tem um plano, amigo! Ele tem um plano! Eu sabia!

– O que faremos é o seguinte – iniciou o General Cardoso, diante das faces risonhas de seus soldados, aliviados ao saber que, pelo mero fato de o general ter um plano, já haviam vencido. – O Comandante Azul é viciado em bombom de licor de cereja.

Todos se olharam, estupefatos. Os sons dos cavalos se aproximavam cada vez mais e o que o General Cardoso estava a dizer?

– Essa é a fraqueza de nosso oponente – continuou ele. – Como vocês sabem, lutamos contra pessoas, não contra exércitos amorfos. E pessoas são tolas, elas cedem aos seus vícios, especialmente quando acham que não há perigo envolvido. Tenho certeza de que uma caixa de bombons de licor de cereja faria o Comandante Azul deslocar todo um exército para outro ponto.

De olhos esbugalhados, as pessoas encaravam o General Cardoso, incrédulas. Antes mesmo que qualquer pedido de esclarecimento pudesse ser feito, o general pegou uma placa ao seu lado e designou o Soldado 72 para dar um passo à frente.

– Finque essa placa na Montanha V e retorne o mais rapidamente possível! Os Azuis ainda estão longe. Você terá tempo suficiente.

Na placa que o General Cardoso tinha passado a noite pintando, lia-se: "Fábrica de bombons de licor de cereja a 30 km à direita".

– Com isso – explicou o general –, o Comandante Azul certamente deslocará todo o seu exército para o Baixo Nir, a fim de saquear a suposta fábrica e, como todos aqui sabem, da nossa atual posição é possível enxergar todo o Baixo. Daqui do alto, acabaremos com eles.

O Soldado 72, depois de certa hesitação, pegou a placa, montou seu cavalo e partiu rumo à Montanha V, enquanto todos permaneciam reticentes quanto àquele plano.

– Que plano é esse? Que plano é esse? – resmungou o Soldado 57, quando o general se afastou.

– Acalme-se – respondeu o Soldado 48. – Em todas as guerras anteriores, o general teve uma ideia inusitada. Em todos os casos, houve resistência por parte dos soldados. E, em todas as ocasiões, vencemos. Tenha em mente que estamos muito aquém da genialidade do general. Não temos a mínima condição de questioná-lo. Se prezamos pela nossa vida, sejamos obedientes e nada mais. Obedeçamos, meu amigo! Obedeçamos!

O discurso convenceu o Soldado 57 e todos os outros que estavam por perto. Pouco a pouco, um clima de otimismo contagiou todo o exército, que já começava a preparar suas armas e a apontá-las para o Baixo Nir, onde, em breve, estaria o Exército Azul. O bem-estar aumentou quando o Soldado 72 voltou da Montanha V para se juntar a eles, após fincar a placa com a indicação da falsa fábrica de bombons de licor de cereja.

Passado algum tempo, o Exército Verde já estava todo preparado para detonar o Baixo Nir. De acordo com os cálculos do General Cardoso, os Azuis já haviam alcançado a Montanha V e não tardariam a chegar à localização da suposta fábrica. Não havia mais a menor dúvida de que não tinham por que questionar o genial General Cardoso, o maior estrategista vivo do planeta, o comandante que levou os Verdes a tantas vitórias históricas.

Acontece que ninguém do Exército Azul apareceu no Baixo Nir. Depois de alguns minutos, os Azuis já estavam aniquilando o Exército Verde e tomando Nir por completo. O General Cardoso foi assassinado e sua cabeça fincada a poucos metros da placa da fábrica de bombons, no pico da Montanha V, ao lado bandeira do vitorioso Exército Azul.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Relato da insignificância

I

Há 13,77 bilhões de anos surgia o universo; há 4,6 bilhões de anos surgia o sistema solar; há 4,54 bilhões de anos surgia a Terra; há 3,5 bilhões de anos surgia a primeira forma de vida na Terra; há 200 mil anos surgia o Homo Sapiens; há 20 e tantos anos surgia eu.


II

Estima-se que existam mais de cem bilhões de galáxias. Cada uma dessas galáxias tem entre 100 milhões e 1 bilhão de estrelas. Uma dessas estrelas é o nosso Sol, ao redor do qual circulam oito planetas. Um desses planetas é a Terra, que possui seis continentes políticos e aproximadamente 200 países. Um desses continentes possui 35 países. Um desses países tem 27 unidades federativas e uma destas unidades é subdividida em 92 municípios. Um desses municípios tem 161 bairros, agrupados em 33 regiões administrativas. Um desses bairros tem 33.580 domicílios. Um deles, o meu.


III

O planeta tem 9 milhões de espécies de seres vivos, sendo 7,7 milhões de animais. Um desses animais é o ser humano. Há 7 bilhões de seres humanos no mundo;  902 milhões no meu continente; 387 milhões em meu subcontinente; 193 milhões em meu país; 80 milhões em minha região; 16 milhões em meu estado; 6 milhões em minha cidade; 86 mil em meu bairro. Um deles sou eu.


IV

– Eu te amo.
– A mim?


V

– Quer se casar comigo?
– Eu?


VI
– Preciso conversar contigo.
– Comigo?


VII

– Você está contratado!
– Eu?


VIII

– Por que vivemos?

E todos gargalharam.

domingo, 9 de março de 2014

Literatura infantil

Que material de leitura oferecer aos nossos filhos? Eu, que não sou pai, já me faço essa pergunta, imagine quem já tem filho e se vê desanimado com as opções nas prateleiras infantis das livrarias. Não é mesmo fácil. Encontrar bons livros para crianças é uma tarefa das mais árduas.

A maioria das obras para esse público tem inúmeros preconceitos, visões reducionistas de mundo e horríveis moralidades (sempre deve haver a dita moral da história). Além disso, um outro erro comum desses escritores é achar que toda criança é idiota e que, portanto, deve-se usar um vocabulário muito reduzido. É verdade que não se deve fazer uso de nenhum linguajar super resbuscado, sob pena de aborrecer a criança e incentivá-la a largar o livro de lado, mas tratá-la como incapaz de entender um texto médio é, também, um erro. Admito, porém, ser complicada a tarefa de encontrar esse meio-termo. Percebo também o desconhecimento da faixa etária a qual se quer atingir. A partir de uns doze, treze anos, os leitores são classificados como infantojuvenis, mas, antes disso, são todos vistos como iguais. É como se um garoto de cinco anos se interessasse pela mesma leitura de um outro de dez ou onze. Além disso, não estou inteiramente convencido de que o exagero de ilustrações agrada a todas as crianças.

O famoso escritor Oscar Wilde se fez a mesma pergunta que nos perturba: o que dar para seus filhos lerem? Ele chegou à triste conclusão de que, em sua época, simplesmente não existia literatura infantil de qualidade. Solução: escreveu ele próprio os livros que seus filhos deveriam ler. Trata-se de pequenos contos que tinham como objetivo ensinar os filhos como viver, contos estes compilados em um livro chamado “Histórias de fadas”. O conto mais famoso do livro deve ser o sombrio “O rouxinol e a rosa”, que carrega toda a melancolia das histórias adultas de Wilde, só que para criança. Eu, pelo menos, preferiria que meu filho lesse isso, por mais sombrio que seja, em vez de livros bobocas infantis.

Outra famosa autora a já ter escrito para criança foi Clarice Lispector, com seu “O Mistério do Coelho Pensante”, conto bem legal, bem infantil (certamente bem menos controverso que o do Wilde). Além desses, tem outros renomados escritores que, embora poucos saibam, já se aventuraram pela literatura infantil. Para citar alguns: Mario Vargas Llosa (“Fonchito e a Lua”), Pablo Neruda (“Livro das Perguntas”), José Saramago (“O Silêncio da Água”), Mário de Andrade( “Será o Benedito?”), Jorge Amado (“O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”), Anton Tchékhov (“Cachtánca”), Julio Cortázar (“Discurso do Urso”) e, por fim, há quem considere infantil “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, embora eu não ache que crianças pescarão as referências ao comunismo (ou estarei eu caindo no velho erro de subestimá-las?)

Enfim, sei que mais de 90% das opções disponíveis para seus filhos são horripilantes, mas não se desespere: o mundo deles pode ir além dos gibis e tem coisa boa no universo infantoliterário; é só dar uma pesquisada (se não em livrarias, quiçá no Google). Se continuar insatisfeito, faça como o Wilde e escreva você mesmo para seus meninos! Por que não?

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em janeiro de 2014. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Não o mate!

A peça chegava ao ápice. O marido descobrira a traição da esposa e segurava fortemente o amante, impossibilitando-o de se mexer, com a faca em seu pescoço. Matá-lo era a única solução para lavar sua honra.

A plateia estava agitada. Mesmo o tradicionalmente fleumático público do teatro ouvia as batidas de seus corações. Não queriam que o mocinho morresse. Ele trabalhava para o marido traído e a ele fora sempre fiel nas questões relacionadas às finanças da casa, um companheiro exemplar que tivera apenas a infelicidade de se apaixonar pela esposa do patrão. O marido, por sua vez, embora houvesse sido traído, não é de todo inocente. Há tempos não dava atenção à esposa, preocupava-se apenas com sua posição na sociedade, com compra e venda de terras, com maquinações e joguetes políticos. Se estava tão irritado com a traição da mulher, não era por amá-la, mas por ver seu nome enlameado na fechada alta sociedade local.

Enquanto uma ousada espectadora chegava ao insano limite de gritar de seu assento: “Não o mate!”, um garoto de não mais de treze anos pedia esmola na parte de fora do teatro.  Foi esse menino, negro, magro, de cabelos raspados, sem camisa, com uma bermuda suja de tinta e descalço, quem ocasionou um inusitado incidente. Fazia muito frio, a chuva caía fortemente, ele estava a bater os dentes, quando decidiu entrar no galpão interno do teatro. Passou pela bilheteria, pelos banheiros, pela lanchonete e abrigou-se embaixo da escada, onde estava mais quente. Ainda tremia de frio, porém. Enrolou-se em si mesmo o máximo que pôde, até ser questionado pelo segurança sobre o que estava fazendo ali. Pergunta retórica, ele não respondeu. O segurança insistiu, o menino se manteve em silêncio. O brutamonte, então, abaixou-se para agarrar o garoto à força, mas este, magro e mais ágil, passou por entre as pernas do grandalhão e correu rumo à porta de entrada da sala de espetáculo, que não estava trancada. Havia apenas uma funcionária no local, que, distraída, também assistia à peça e, embora já a tivesse visto dezenas de outras vezes, sentia a mesma palpitação de outrora e, mesmo já sabendo o final, não podia evitar um baixo sussurro: “Não o mate!”

O garoto passou pela mulher sem se fazer notar, mas o segurança vinha atrás, enfurecido. O menino deparou-se subitamente com a escuridão do local, seus olhos precisaram de um tempo para se acostumar com as luzes que só vinham do palco. O segurança adentrava a sala já com o revólver na mão. A distraída funcionária percebia somente agora o que estava acontecendo. O garoto já havia pulado mais de dez fileiras de assentos e se encontrava no outro extremo do ambiente. A maioria do público, envolto à emoção do palco, ainda não percebia o incidente, mas os atores, em sua posição privilegiada, já tinham notado. O segurança mirou a arma na direção do garoto e a funcionária precisou contê-lo, dizendo: “Não o mate!”

O segurança subitamente percebeu o desastre que seria dar um tiro naquele lugar. Pôs a arma de novo na cintura e correu na direção do garoto, a fim de tirá-lo na marra daquele lugar, com a força de seus braços. O garoto, porém, era muito mais ágil e se mantinha sempre numa considerável distância de seu algoz. A perseguição durou uns cinco minutos, sem que ninguém na plateia houvesse notado, quando, pegando um atalho por entre duas fileiras de assento mais espaçadas, o segurança encurralou o menino contra a parede.

Embora os atores percebessem o que ocorria, a peça continuava se desenrolando normalmente. Depois de um longo discurso a favor da honra e da dignidade, chegara a hora de o marido, enfim, cortar a garganta do traidor. Mais vários "não o mate!" foram ditos. O segurança, por sua vez, dizia ao menino: "Te matarei".

O garoto, assustado, pulou para cima do palco e os atores não puderam mais fingir que nada ocorria. O marido esbugalhou os olhos e o mocinho traidor, em movimento oposto ao do garoto, pulou para fora do palco. O segurança puxou novamente sua arma, pois via o menino correndo em direção dos camarins. Acontece que o marido agarrou o garoto no meio do caminho e gritou para o homem com o dedo no gatilho: "Não o mate!"

O marido cortou a garganta do menino e a plateia delirou em entusiasmo, aliviada pela sobrevivência do mocinho.