segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Beleza no jardim

O falante chegou ao jardim da cidade em passos lentos, mãos nos bolsos, e sentou-se num banquinho. Ao seu lado, havia um rapaz mirando o horizonte.

– Belo dia! – disse, enquanto o outro permanecia com o olhar rumo ao horizonte. – Belo dia! – repetiu. – Houve uma época em que eu me importava demais com coisas absolutamente irrelevantes. Trabalho, dinheiro, contas para pagar, tarefas para entregar ao patrão etc. Não percebia que a verdadeira beleza é essa.

O outro permanecia calado, mas o falante continuou:

– Esse céu... Poucas vezes o vi tão bonito. Do centro da cidade, não podemos vê-lo, os prédios não deixam. Mas olha esse azul. Que céu! E esse gramado, tão verde... Quando o azul dos céus e o verde das plantas se unem, surge a felicidade. Faz você muito bem em estar aqui, encarando esse horizonte. Aquele morro ao fundo, atrás do qual em breve o sol se repousará, é um dos pontos mais belos da nossa cidade e, no entanto, não o vemos do centro. Esse é um dia privilegiado e tantos amigos meus o desperdiçam trancados em escritórios, atrás de computadores e arquivos.

O outro não respondia, mas estava tão calmo e com um sorriso tão sereno que parecia ao interlocutor que lhe ouvia com prazer e que com ele concordava.

– Não os culpo totalmente – prosseguiu. – É preciso garantir o pão de nossas mesas, é claro. Mas por que não vir a esse jardim apreciar a paisagem, de vez em quando? Digo e repito: esse visual é a felicidade. Esse cenário é tão encantador que a felicidade não pode ter outra cara que não essa. E digo mais: tudo o que não for esse céu, essas árvores, aquele morro, tudo o que não for essa natureza que nos envolve não é felicidade. Quem não pode ver isso não é feliz, definitivamente.

Já incomodado com o silêncio do outro, o falante instigou:

– Tenho ou não razão? Você não concorda comigo?

– Não sei, meu amigo – disse, por fim, o simpático ouvinte. – Eu sou cego.

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