segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Amores prementes

1

Depois que a conheci, nada mais foi como antes. Ela era atriz, cantora, escritora, jogadora de vôlei, paulista, de tudo um pouco, com exceção de paulista, que era muito. Foi graças à primeira característica – atriz – que a vi pela primeira vez. Estava com um amigo em comum em um pequeno teatro de Brasília e ela era a personagem principal. Eu já estava admirado que meu colega conhecesse uma mulher tão bonita e até mesmo um pouco enciumado por todo o meu grupo de amigos se resumir a gordos peludos jogadores de RPG – incluindo ele próprio. Eu também era um gordo peludo jogador de RPG. E virgem. Eu poderia até dizer que eu tinha mau hálito, fedia, tinha olheiras, espinhas, mas acho que seria exagerar minha autoavaliação que já é sempre tão ruim. Eu não era ator nem jogador de vôlei nem cantor… Era só um mero estudante de Letras que pensava que a faculdade poderia ser útil no meu único ofício, que era mestrar RPG.

Ao fim da peça, fomos ao camarim, pois meu amigo queria cumprimentá-la. Ela estava de sutiã, barriga para fora e com uma microssaia. Ela era o que qualquer homem chamaria de gostosa, mas gostosa mesmo! Eu, como um gordo peludo virgem, venerei aquela mulher, mas mais como uma deusa, uma entidade, nunca como uma mulher acessível na vida real. Minha concepção só se modificou quando meu amigo, que era tão feio quanto eu, cumprimentou-a e me apresentou. Corei só com os beijinhos na bochecha e ela deve ter percebido, porque, simpaticamente, perguntou por que eu estava tão tímido, falou para eu pegar uns salgadinhos que estavam por lá, esperar ela se vestir e irmos a um bar na Asa Sul, pois ela queria comemorar o fim da temporada da peça, que tinha sido de sucesso.

Eu tinha muitas outras mulheres iguais a ela presas à parede do meu quarto. Eram, como eu disse, entidades. Nunca esperava que fossem se desgrudar das fotos e ganhar vida.

Enquanto a esperávamos, perguntei a meu amigo onde eles se conheceram, pois aquilo me parecia tão improvável quanto elefantes surfarem no Atlântico. Ele me disse que eram da mesma turma de artes cênicas em São Paulo, onde ele morou por cinco anos, antes de voltar para Brasília. Ela, quando veio excursionar pela capital federal, convidou todos que sabia que moravam aqui para assistir à sua peça. Agora, tudo me pareceu mais lógico: eles não deveriam ser grandes amigos; simplesmente ela conhecia pouca gente no DF e queria divulgar seu trabalho.

Já no bar, eu bebi cerveja pela primeira vez na minha vida. Normalmente, eu pediria coca-cola. Aliás, normalmente, eu nem iria ao bar. Mas me pareceram inapropriadas ambas as hipóteses e eu estava lá, deixando a cerveja esquentar no copo, porque estranhava o gosto da bebida. Ela me dizia que estava morando no Rio, mas que já morou em Porto Alegre, Curitiba, Manaus, João Pessoa e, com exceção de Curitiba, falou mal de todas as cidades. Bem no início, eu disse que ela era muito paulista, certo? Ela era tão paulista que, depois de São Paulo, só tinha respeito por Curitiba, afinal todos sabemos que Curitiba é a São Paulo que deu certo.

– O Rio é horrível, mas em alguns meses me mudo de lá também. A única coisa boa daquela cidade é poder jogar vôlei na praia! Brasília também me parece muito ruim, não sei como vocês aguentam essa seca. Meu nariz sangra desde que cheguei!

– Ainda estamos em maio – disse meu amigo. – Lá para agosto, a seca fica muito pior.

A cara de nojo misturado com espanto que ela fez me encantou. Ela estava falando mal da minha cidade, mas nada me irritava. Eu não acreditava que estava bebendo com aquela mulher. Só voltei à realidade quando meu celular tocou: era minha mãe querendo saber onde eu estava, dizendo que minha sopa estava esfriando… Pedi licença e fui para a rua falar. Desculpei-me por não ter avisado antes, mas dormiria na casa de meu amigo. Na verdade, não sabia onde iria passar a noite, mas, se eu dissesse que ainda voltaria, minha mãe não pregaria o olho até eu chegar. Portanto, era melhor dizer que eu dormiria fora logo de uma vez.

Quando eu voltava para a mesa, tinha uns três caras de camiseta, musculosos, oferecendo bebida para a Angélica (já havia falado o nome dela?). Ao me aproximar, ela se levantou e disse em minha direção:

– Até que enfim, amor! Onde você estava?

Eu fiquei estupefato e olhei para trás para saber com quem ela falava. Ela caminhou no meu rumo e me beijou na boca.


2

Eu ainda estava tonto com o beijo quando ela sussurrou alto o suficiente para os três escutarem:

– Esses bostas estão querendo me embebedar. Dá um jeito neles, vai!

– E-eu?

Para a minha sorte, os três não quiseram confusão. Acho que eles estavam muito abismados com o beijo que aquela entidade havia dado em alguém como eu e simplesmente foram embora. Meu amigo não estava na mesa, tinha ido ao banheiro. Para a minha sorte. Talvez, se estivesse presente, ficasse para ele o papel de namorado e eu perdesse o beijo. Quando ele voltou, viu Angélica abraçada a mim, beijando a parte de trás da minha orelha, com a cabeça enfiada na minha nuca. Meu amigo fez um sinal com as mãos como quem pergunta: "Que merda é essa?" E eu dei um risinho como quem diz: "Não sei, cara."

Quando ele se sentou, ela voltou a se comportar, mas não largou minha mão. Eu não entendia por que ela continuava a cena, uma vez que os três musculosos já se haviam retirado.

– Acho que, para mim, já deu – disse Angélica. – Essas bebidas mais todos esses dias de peça me deixaram com sono. Me acompanha até o hotel?

– E-eu? – era tudo o que eu sabia perguntar.

– É claro.

– Acompanho, sim.

Ela foi para a rua pedir um táxi e eu a segui, explicando-lhe que Brasília é uma cidade atípica, onde não se veem táxis pela rua, como no Rio ou São Paulo. Eu liguei para uma companhia, que ficou de me mandar um carro em até quinze minutos. Ela disse que não se importava com a demora, que queria ficar a sós comigo, sem a presença do nosso amigo em comum, que, tonto com a situação, já havia ele próprio ido embora, com a desculpa de que naquela hora passaria seu último ônibus para Taguatinga.

Eu não tinha assunto em comum com aquela mulher. Eu falava de assuntos terrestres, mundanos. Não sabia o que responder para suas questões celestiais. O táxi acabou chegando antes da previsão e nos encaminhamos para o Setor Hoteleiro Norte. Ela falava pouco, parecia ter também percebido que não tinha o que falar comigo. Descemos do táxi, que ela pagou (infelizmente, eu só tinha uns cinco reais na carteira), e, quando eu estava virando as costas, já pensando que caminho tomar com essa miséria que eu tinha no bolso (e, agora, ainda por cima, longe de casa, de madrugada, numa cidade que não prima pelo transporte público), ela me disse:

– Aonde você vai? Sobe comigo!

3

No dia seguinte, ela voltou para o Rio, onde passou mais uma semana, logo seguindo para São Paulo. Eu fui com ela. Era a minha primeira vez fora do quadrilátero do DF. Eu não queria nunca mais sair de perto dela. Eu não queria nunca mais sair de debaixo da saia de Angélica. Minha mãe enlouqueceu, acusava a minha loucura de "largar a minha vida em Brasília" para seguir uma mulher que eu mal conhecia. Mas eu não tinha vida nenhuma em Brasília. O que eu tinha era uma faculdade de Letras, a que dei prosseguimento em São Paulo, embora muito mal, já que Angélica viajava muito e eu jamais deixava de acompanhá-la. São Paulo era incrível. Eu, ignorante, achava Brasília uma cidade grande, sem perceber que eu não era nada além de um provinciano. São Paulo, assim como Brasília, também me parecia uma cidade planejada, mas planejada para dar errado. Tudo o que pode ter de ruim numa cidade tinha em São Paulo, mas, mesmo assim, era incrível e eu rapidamente me apaixonei por aquele céu cinzento, aqueles prédios asfixiantes, o barulho, a poluição, o concreto, a feiura. Mas a verdade é que eu não sabia dizer se estava apaixonado pela cidade ou por Angélica. Pela cidade, eu penso hoje, mas não tenho certeza. Por que pela cidade? Possivelmente porque eu nunca amei Angélica. Eu apenas a venerava, como se venera um santo. Eu não acredito quando os cristãos dizem que amam Deus. Ninguém ama Deus. Nós o veneramos, idolatramos, exaltamos, mas não o amamos. Não está nem mesmo ao nosso alcance amar Deus. Não estava ao meu alcance amar Angélica.

Os olhares de estranhamento das pessoas quando nos viam de mãos dadas a passear pela Paulista ou pelo Ibirapuera eram maravilhosos. Eu sempre quis perguntar o que ela tinha visto em mim, como aquilo tudo começara, mas nunca tive coragem. Contentava-me em exaltar a sorte que aqueles três musculosos me propiciaram em Brasília. Se não fossem eles, isso tudo teria acontecido?

Durante três meses, foi uma vida perfeita. Eu ia à faculdade pela manhã, voltava, esquentava a comida que Angélica me havia preparado na véspera, almoçava, dormia à tarde, esperava sua volta, que, normalmente, acontecia à noite, fazíamos sexo, jantávamos, fazíamos sexo de novo e dormíamos. Aos fins de semana, passeávamos e eu ostentava Angélica para a sociedade. Isso, em linhas gerais. A rotina dela era muito variada, dependendo muito de em que ela estava trabalhando. Ao fim desses três meses, mudamo-nos de novo para o Rio, onde ela estrelaria uma peça e já se programava para outra em seguida. Seria uma longa temporada no Rio e tive que trancar minha faculdade. Estava inteiramente desocupado. Demoraram, mas, enfim, começaram as cobranças por parte dela:

– As peças não vão lá muito bem, o dinheiro que está entrando não é o que eu esperava... Talvez, você possa conseguir um emprego, não?

Eu poderia, mas eu queria? Honestamente, não. Para mim, o problema não era exatamente trabalhar, mas diminuir meu tempo de convívio com Angélica. No Rio, para piorar, eu me sentia muito mais ameaçado do que em São Paulo ou Brasília. Os corpos à mostra, o culto ao físico, tudo isso me evidenciava que Angélica era algo passageiro na minha vida, que eu não tinha condições – sob nenhum aspecto – de manter uma mulher daquele porte comigo para sempre, como eu, ingenuamente, imaginara.

– Vou procurar um emprego – eu prometi. Eu nunca dizia “não” para ela. E procurei mesmo. Mas o que encontrar sem experiência, com uma faculdade trancada em outra cidade (ainda por cima, um curso de Letras, para o qual o mercado está pouco se lixando)? Nem sequer eu tinha uma aparência que pudesse facilitar minha empreitada.

– Encontrou algo? – perguntava-me ela todas as noites. Quando eu negava, ela não me recriminava nem nada, mas eu percebia seu descontentamento implícito e aquilo começou a me incomodar terrivelmente. Diminuí minhas exigências e passei a deixar currículo em lojas de eletrodomésticos, empresas de telemarketing, shoppings, todo tipo de lugar que antes eu nem sequer cogitava.

– Encontrou algo?

– Ainda não.

Vez ou outra me chamavam para uma entrevista de emprego, da qual eu nunca saía com a vaga. Cheguei a ir ao CAT (Central de Apoio ao Trabalhador), em São Cristóvão, mas tudo o que eles faziam era me obrigar a acordar cedo, pegar uma fila infernal em volta da Quinta da Boa Vista, para, no fim, conseguir um papel que indicava onde tinha vaga no Rio de Janeiro, coisa que se conseguia muito mais facilmente lendo jornais ou acessando a Internet.

– Encontrou algo?

– Encontrei.

Eu seria o Papai Noel de uma loja no Saara, centro de comércio popular do Rio de Janeiro.


4

Assim que passou o período de Natal, acabou meu trabalho temporário de Papai Noel, mas não minha sessão de humilhações empregatícias. Agora, eu tinha “experiência” na área e pude, portanto, ser mascote de uma loja de biscoito, onde ganhei o carinhoso codinome “palhaço gordinho”. Minha função era atrair as crianças na rua a entrarem na loja. Para isso, eu dispunha de um microfone e falas como: “Venha ajudar o palhaço gordinho a encontrar o biscoito favorito dele! Venha! Entra na loja para ajudar o palhaço gordinho!”
Dispensável dizer que o palhaço gordinho foi um fiasco, que as vendas não aumentaram e que fui demitido.
Toda essa série de coisas já estava me irritando e eu acabava por descontar essas frustrações em Angélica. Brigávamos por mesquinharias, o que antes não ocorria, pois eu era incapaz de levantar a voz para uma mulher daquelas. Acontecia, porém, que eu já estava habituado à sua beleza estonteante e só quando deixava de naturalizar seus encantos é que voltava a respeitá-la. Era quando eu lhe pedia perdão por meu mau humor e jurava que nada daquilo se tornaria a repetir.

Eu fazia alguns bicos como entregador de folhetos, pesquisador censitário, mas nunca me livrei da profissão de palhaço da vez. Ora ou outra, lá estava eu, fantasiado de qualquer coisa ridícula, nas ruas do Rio. Angélica, por sua vez, cantava na Lapa toda  noite, pois estava no intervalo entre o fim de uma temporada teatral e o início de outra. Eu sempre ia à Lapa marcar território e mostrar que ela não estava disponível, mas minha insegurança crescia a cada dia. Para mim, perdê-la era uma simples questão de tempo. Foi quando um dia ela me disse que, na próxima peça, faria papel de esposa de um empresário rico, gordo e feio e manteria relações extraconjugais com um subalterno boa pinta.

– Você está me dizendo que vai beijar um outro cara? – perguntei.

– Sim. E preciso da sua compreensão.

É claro que eu compreendi. Beijo técnico, coisa de trabalho, ela diria. De quinta a domingo, quatro dias por semana, mais os ensaios, sei lá quantas vezes em cada exibição, ela beijaria um outro homem. Era tudo o que eu queria para combater minha crescente insegurança!

– Você sabe que eu te amo – ela me disse, incomodada com meu silêncio. Não era normal ela falar que me amava. E, na verdade, não, eu não sabia de nada. As exibições começariam dentro de um mês, tempo em que ela continuaria ganhando alguns trocados como cantora da Lapa. Eu não sabia o que seria pior: conviver com a ansiedade desse um mês ou vê-la todos os dias se agarrando com um bonitão.

Eu prosseguia com meus empregos deploráveis. A verdade é que estava cansado e me sentia humilhado, cada vez pior, cada dia mais incomodado com toda aquela situação. Não transávamos mais todo dia, não nos amávamos mais da mesma forma, eu era o eterno palhaço gordinho.

Então, começaram os ensaios para o tal espetáculo e um dia Angélica me disse:

– Se lembra que minha personagem fugiria com um amante?

– Lembro – respondi, com o coração na mão.

– Conheci ele hoje, no ensaio.

Eu já estava preparado para ouvi-la dizer que não queria mais nada comigo, que fugiria com o ator, como fariam seus personagens.

– Precisam de alguém para o papel de marido – ela prosseguiu. – Tem que ser alguém gordo e feio. Pensei em você.


5

Bati as portas, saí de casa esperneando. Ela veio atrás.

– Gordo e feio? Precisam de alguém gordo e feio? E você pensou em mim? Sério mesmo?

– Qual o problema? Você precisa de um emprego!

– Cujos pré-requisitos sejam gordura e feiura?!

– Você foi o palhaço gordinho!

Calei-me e ela prosseguiu:

– É o melhor trabalho que você pode conseguir! É melhor do que ser mascote de uma loja de biscoitos, não? Melhor do que ser entregador de folhetos ou qualquer coisa que você tenha feito! E não pagam mal! E você ainda vai trabalhar comigo!

Obrigado, Deus, por me proporcionar um emprego onde eu possa trabalhar junto de minha mulher. Pena que ela se agarrará com outro todo dia e eu estarei lá para ver tudo. É realmente tudo o que sempre quis! Merda!

– Mas eu não sou ator!

– Não importa. Eles aceitarão. Nosso dinheiro está acabando! Você tem que pegar esse papel!

Eu não podia ser mais infeliz. Mais uma vez, não lhe pude dizer “não”.


6

Todo dia brigávamos. Não transávamos mais quase nunca. Tinha vezes em que eu a odiava. Odiava sua beleza, sua natural superioridade, pela qual ela não fez nenhum esforço; ela simplesmente nasceu e, por acaso, nasceu bonita. Nascer, eu também nasci, deveríamos estar quites, mas eu nasci horroroso. Para mim, o que resta é o papel de marido rico, gordo e feio, sendo que, na vida real, ainda por cima sou pobre.

Fui aos ensaios, mas logo vi que não suportaria aquilo por muito tempo. As cenas entre os dois eram muito fortes, muito sexuais. Cheguei a sair no meio do ensaio. Ela foi me buscar no camarim, furiosa, acusando-me de fazê-la passar vergonha, que todo o trabalho tinha sido interrompido por minha causa, xingando-me de tudo o que se pode imaginar. “Volte!”, ela ordenou. É claro que eu não disse “não”.

Parecia-me incrível eles aceitarem alguém que não fosse ator, mas agora já fazia sentido. Meu papel não era nada na peça. A história era deles dois. Eu, como marido traído, ficava apenas a espreitar por trás da fechadura minha esposa com o bonitão na cama. Eles não imaginavam que o marido já soubesse da traição, mas ele sabia. O coitado, por ser gordo, horroroso e perdidamente apaixonado pela mulher, ficava apenas a espiá-los, sem coragem de terminar o casamento, pois sabia que, apesar de seu dinheiro, jamais encontraria alguém como ela.

Alguém melhor do que eu para esse papel?

Os dias de ensaio terminaram e já chegara o dia da estreia. Ouvíamos a plateia tomando seus assentos e, por fim, a cortina se levantou. Tudo correu conforme esperado e meus níveis de auto-humilhação continuavam bem elevados. Ao fim da peça, todos cumprimentaram efusivamente Angélica e seu amante pelos bons trabalhos, enquanto eu me isolava continuamente e, cada vez mais, percebia que não pertencia àquilo. Vez ou outra vinha alguém me perguntar, surpreso: “Você é o namorado da Angélica, na vida real? Não acredito!”. Eu, que sabia que eles se referiam à incompatibilidade de minha feiura com sua beleza, permanecia taciturno e de mau humor, o que logo lhes fazia completar: “Deve ser duro para você ver essas cenas, né?”

Chegávamos  em casa e eu descontava toda a minha frustração em Angélica. Ela recusava minhas investidas sexuais e eu perguntava-lhe se ela já tinha gasto seu estoque de excitação com o bonitão da peça. Ela se ofendia, me mandava à merda e assim vivíamos nossa harmonia.

O fim era mesmo só uma questão de dias. E ele parecia ter chegado quando, ao fim do primeiro fim de semana em cartaz, eu disse à Angélica que romperia o contrato e que não participaria mais daquela palhaçada, que no dia seguinte voltaria para Brasília, que estava tudo acabado entre nós, que eu não podia mais viver aquela situação. Eu estava transtornado e falava muitas palavras em poucos segundos, tudo muito rapidamente.

– O que você vai fazer em Brasília?!

– Continuar minha faculdade e prosseguir minha vida.

– Sua faculdade está trancada em São Paulo!

– Então, vou para São Paulo!

– Você não conhece ninguém em São Paulo!

– Não importa para onde eu vou!

Eu não tinha mesmo para onde ir. Eu só queria que ela implorasse para eu ficar, que se jogasse nos meus pés, que dissesse que sem mim não viveria. Era só ela pedir e eu ficaria, afinal nunca lhe disse “não”.

– Isso é insano! Você tem que completar os dias da peça!

– E te ver todo dia se molhando com um outro em cima de você?

– Vai à merda, então!

Ela começou a chorar, enquanto eu fazia minhas malas.

– Eu quero que você fique, eu quero que você fique... – ela choramingava.

O plano estava dando certo. Ela começava a implorar minha permanência. Mas eu precisava de mais e não parei de fazer as malas. Ela se jogou aos meus pés, exatamente como eu queria. Ela se humilhou. Eu precisava daquilo. Tinha sido sempre eu a me rebaixar durante tanto tempo. Eu me degradei, me arrasei! Era a vez de Angélica ferir um pouco seu orgulho também. E assim acontecia. Ela não parou de chorar um momento sequer. Ela implorava para que eu ficasse. Ela dizia me amar. Ela, que já estava agachada sob meus pés, começou a desabotoar minha calça. Eu a afastei, peguei minha mala e abri a porta de casa. Sim, tudo tinha saído conforme planejado para eu ficar. Ela tinha implorado o suficiente para eu não ir embora e eu realmente não tinha para onde ir. Estava tudo de acordo com meus planos. O pedido implorante e humilhante de Angélica era tudo de que eu precisava para ficar, mas não sei por que não fiquei. Contrariei meu próprio planejamento e rompi a divisória entre o corredor do prédio e nosso apartamento. Ela disse, uma última vez, “fique!”, e eu respondi, pela primeira vez: “Não!”.

Um comentário:

  1. O encontro amoroso parece medir a força entre as partes numa espécie de "balança do poder". Romper todos os tipos de equilíbrio, e principalmente, os desiguais, onde um só prato da balança comanda o jogo, pode ser difícil, mas surpreendente, inclusive (e talvez mais ainda) para aquele que provoca o corte. Muito bom!

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