segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A idade certa para os livros certos

Não sei se já tive a oportunidade de dizer, mas “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, é um dos meus livros preferidos de todos os tempos, provavelmente em pé de igualdade com “O Apanhador no Campo de Centeio” e apenas um pouco atrás de “A Insustentável Leveza do Ser”, este, sim, líder absoluto das minhas preferências. Mas não é dessa listinha que quero falar. Quero me remeter é ao posfácio do “Lobo”. Nele, Hermann Hesse declara, 34 anos após escrever o livro, que esse foi seu romance mais incompreendido dentre todos os que escreveu. Diz ainda que, curiosamente, aqueles que menos compreenderam a obra foram justamente os que mais gostaram e que, inversamente, portanto, os leitores que melhor captaram a problemática da história não se sensibilizaram tanto.

Uma hipótese para essa incompreensão, levantada pelo próprio Hesse, é a de que “O Lobo” foi lido por muitos jovens leitores, embora tenha sido escrito quando o autor tinha 50 anos, tratando do que ele chama de “problemas peculiares a essa idade”. Eu, que pus o livro entre meus três preferidos e que o li quando jovem, me pergunto o quanto (in)compreendi da obra. E, mais, me questiono ainda: existem livros certos para idades certas?

Responder positivamente a tal questão é, como consequência, admitir que nem todos os assuntos podem ser tratados com todas as faixas etárias. Nesse caso, não poderíamos conversar sobre política com as crianças ou sobre desenhos com adultos, pela mera questão da idade. Responder que não significaria dizer que, de fato, com algumas pessoas não se pode falar sobre quaisquer temas, mas não por causa do binômio juventude/velhice, mas porque cada indivíduo tem campos de interesse diversos, que, independentemente da idade, variam por uma série de razões.

Para buscarmos essa resposta, nos embrenhamos em outra pergunta: a gente pensa porque sente ou sente porque pensa? Minha mãe, por exemplo, embora cinquentona, certamente não compreenderia patavinas do que o Hesse quis dizer, talvez porque pense menos nas questões levantadas no “Lobo” do que um jovenzinho de vinte e, justamente por não pensá-las, não as sinta. Porém, esse garoto de vinte anos, por mais que pense nas questões enfrentadas por um personagem de cinquenta, não as sente; conjectura sofrimentos pelos quais um quinquagenário, na realidade, pode ou não passar.

Sinceramente, não tenho a resposta. Tenho hoje 26 anos e, se me comparo com quando eu tinha 15, 18 ou 20, vejo mudanças, é claro. Li obras, quando eu tinha 17, que achei ruins, mas, relendo, passei a gostar (e vice-versa), o que fortalece o argumento da idade, mas, por outro lado, li sobre coisas que nunca senti e, mesmo assim, o autor conseguiu me transmitir uma empatia tão grande que me fez gostar do livro (“Os Sofrimentos do Jovem Werther”, do qual falarei em outras oportunidades e que li muito novo, é um exemplo disso).

Na busca por essas respostas, podemos nos surpreender e acabar descobrindo que os jovens podem ser mais conservadores que os velhos, que as crianças podem ser mais sábias que os idosos, que a aproximação, dia após dia, da morte, pode nos tornar mais ou menos sensíveis a determinadas questões. Eu só sei de uma coisa: no dia 15 de julho de 2036, quando eu completar 50 anos, faço questão de reler “O Lobo da Estepe”.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em setembro de 2012. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

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