sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Travessões

1

– Tenho que fazer alguma coisa para mudar isso, simplesmente sinto que devo. 
– Deve o quê? A quem? 
– Ah, menina, a quem, é fácil: à vida, às pessoas. O quê, não sei. Mas devo. 
– Gerson, vamos começar a mudar nós mesmos que o resto se muda sozinho. 
– Vamos comprar sorvete? 
– Sim… Toma cinquenta centavos… Completa para mim? 
– Moço, dois picolés, por favor! 
– Ontem, um senhor me pediu dinheiro na rua… Parecia ter fome… 
– Você deu? 
– Não tinha. 
– Está chorando? 
– Eu? Não. 
– Está, sim. 
– Não estou, Gerson. 
– Ok. 
– Que foi? 
– Temos que mudar isso. 
– O quê? 
– Por que ele tinha fome? 
– O mendigo? Bem, sei lá. Eu tenho 17 anos, você tem 16; o que sabemos da vida? 
– Só sei que tem poucos com muito e muitos com nada… 
– Vamos mudar nossas próprias vidas antes de mudarmos o mundo. 
– Como? Quer outro sorvete? 
– Não. Quero um beijo. 
– Um beijo? 
– Sim. A minha vida, eu vou mudar agora.


2

– E ela disse que a vida dela, ela ia mudar naquele momento… 
– Gerson… Ótimo para vocês... Mas qual a função social disso? 
– Não sei. Ela disse que deveríamos, antes de mudar o mundo, mudar nossas vidas. 
– De acordo. Mas uma trepada ajuda a mudar o mundo? 
– Não trepamos, cara… 
– O que quer que vocês tenham feito… ajuda a mudar o mundo? 
– Acho que não. 
– Vamos fazer algo útil, Gerson! Nem que seja num plano micro, mas vamos tentar mudar alguma coisa! 
– Como? 
– Vamos concorrer ao grêmio estudantil! 
– A ideia é boa, mas não conheço mais ninguém que participaria de uma chapa com a gente. 
– Sua namorada já é uma. 
– Você acha? 
– Claro! Vocês estão namorando! 
– Vou falar com ela.


3

– Ela não aceitou. 
– Azar o dela. 
– Terminei com ela. 
– Por isso? 
– Contribuiu. 
– Por que mais? 
– Os pais dela me mostram quem ela pode ser no futuro. Melhor terminar agora, enquanto ainda mal começou. 
– Que têm os pais dela? 
– A maneira como eles tratam pessoas de menor prestígio social, sabe? Eles são endinheirados, já te falei, embora não deem um centavo para a filha. 
– Mas ela parecia comprometida com as mudanças, apesar de rejeitar nossa chapa. 
– Acho que ela não quer mudar o mundo, como nós. Talvez ela sinta muito mais revolta por os pais, tendo tanto dinheiro, não darem nada para ela, quererem que ela trabalhe, sendo que ela nem tem 18 anos. Comunista patricinha... 
– Mas e os pais dela? Você não explicou. 
– Eles não sabem falar com ninguém. Não sabem ser educados, minimamente gentis. Que me destratem, vá lá. O problema é me destratarem pelos motivos que me destratam: por eu ser pobre, mulato, morador de favela, órfão... 
– Eles sabem dos furtos? 
– Não. Nem ela sabe. Acho que não entenderia. 
– Não tem o que entender. A gente furtava de ricos para dar para pobres. Quando é o Robin Wood, é legal; quando são favelados, é crime? 
– Seria o pensamento dela. 
– Mas os pais... Você nunca termina a história. 
– Não tem muito o que terminar. É aquilo. Tratam mal o porteiro, o flanelinha, a empregada... Nem sei se são conscientes disso, mas destratam negros, nordestinos... Não quero envolvimento nenhum com essa família. Mesmo a filha, que é o elemento menos nocivo deles, é um obstáculo para qualquer plano de igualdade social.

  
4

– Gerson, não termine comigo só por isso. Simplesmente não quero me filiar contigo ao partido socialista... É completamente infantil você terminar o namoro por isso. Por que você, com 23 anos, insiste em ser uma criança? Que mundo você quer mudar, agindo assim, de modo tão mesquinho? 
– Já terminei com outras namoradas por muito menos. Você é a quinta com quem termino por razões políticas ou sociais. A primeira se recusou a participar da minha chapa no grêmio estudantil, a segunda votava na direita, a terceira... 
– Não quero ouvir! Esse tom calmo, quase debochado...! Não quero ouvir seu passado! Já sei o suficiente de você. Sei de suas ONGs, seus projetos sociais, suas candidaturas a vereador, seu engajamento no partido socialista... E respeito todas as suas opções (gostaria que fosse recíproco). Sei de muito da sua vida, mas, das suas mulheres... Não me fale delas! 
– Que seja. Não vim aqui para isso. Só vim para te convidar para o partido e, se você não aceita, pode me acusar de infantilidade, mas não consigo mais me sentir atraído por você. Acabou. 


5

– Esse não é você, Gerson. Simplesmente não tem nada a ver contigo. 
– Por quê? Cara, não tem nada de mais em demitir uma diarista. 
– Ela faltou um dia, apenas. 
– Dois! 
– O filho dela estava doente! 
– Nada sério... 
– Desde que você conseguiu esse emprego e passou a ganhar melhor, está irreconhecível. 
– Olha, você trabalha comigo, você sabe que não ganho tanto. Se contratei uma diarista, foi porque gasto meu dia inteiro nessa empresa e não tenho tempo para nada relacionado a casa! 
– Você é um caso como outro qualquer... Luta por bandeiras que te são convenientes, mas só enquanto dura a conveniência... Aquele papo de sindicalismo, engajamento, lutas sociais, classe operária... Conversa! Você é um merda... 
– Vou ser presidente dessa empresa e vou te fazer engolir essas palavras! Vou te mostrar que continuo sendo o que sempre fui. 
– Se você é o que você sempre foi, isso significa que você sempre foi um merda. 


6

– Bom dia! Obrigado, obrigado! Àqueles que não me conhecem, sou Gerson. Um minuto de silêncio, por favor. Por favor, gente... Obrigado. Chamo-me Gerson e, a partir de hoje, sou o novo presidente desse lugar.  Nunca almejei esse posto por vaidade e tenho a consciência de que, se hoje estou aqui, é porque cada um de vocês sempre acreditou no meu trabalho. O que vou em breve anunciar é uma mostra de agradecimento. Mas é também a prova de que sou quem sempre fui: o menino da favela, o sindicalista engajado, o candidato socialista, aquele que sempre valorizou a força trabalhadora desse país. O meu anúncio, portanto, é o seguinte: a partir de hoje, todo o lucro líquido que gerarmos será dividido igualmente – sim, eu disse igualmente! – entre todos vocês. Não haverá gerentes, diretores, coordenadores... Todos nos gerenciaremos, nos direcionaremos, nos coordenaremos, mútua e reciprocamente. Haverá apenas um presidente – eu –, porque nosso regimento assim obriga, mas não ganharei mais do que ninguém aqui. Nosso trabalho será um só e, portanto, nada mais justo que a fiel divisão de cada centavo que entrar em nossos cofres! Obrigado.


7

– Satisfeito? Sou ou não sou o mesmo de antes? 
– Você é, cara, você é! Desculpe meu mau julgamento! 
– Está feliz por ganhar a mesma porcentagem de lucro que os ex-diretores, ex-coordenadores, ex-tudo, que agora são o mesmo que você? 
– É claro que estou feliz, Gerson! 
– Feliz por ganhar o mesmo que eu, que sou o presidente? 
– Gerson... Eu sabia que você não ia me desapontar. 
– Mentira. Você pensou que eu fosse te desapontar, sim. E, aqui, só trabalha quem acredita no seu parceiro. Somos um time. E você está fora dele. Você está demitido. 


8

– Toma, meu senhor. Pegue esses cem reais e gaste no supermercado. 
– Misericórdia de Cristo! Cem reais! Cem reais para um mendigo! Sangue de Jesus! Quem é o senhor? Qual o nome do senhor? O senhor é um anjo? 
– Meu nome é Gerson e não sou um anjo. Sou um homem que nem você, me entende? Você é tão bom quanto eu, só não teve a mesma sorte. Vá se alimentar, vá. Vá se alimentar porque um país como o nosso não pode comportar miséria, não pode comportar fome, de jeito nenhum! 
– Sangue de Jesus tem poder! Glória, meu senhor, glória! 


9

– Já vai! Já vai! Precisa bater na porta com toda essa violência? 
– Bom dia. Se lembra de mim? 
– Gerson? 
– Sou eu. Pensei que você não fosse se lembrar. A vida dá voltas, mas a imagem fica, não é? 
– Do que você está falando, Gerson? Nosso relacionamento acabou há anos. 
– Correto, eu sei. E você deve estar lembrada de que eu me rastejei aos seus pés... A única mulher que me botou no chão, me humilhou daquele jeito... 
– Gerson, por favor, por que essa recaída agora? 
– Recaída? Só se for da sua parte. Porque, da minha, eu só subi na vida. Hoje, sou presidente daquela empresa de altas portas de vidro através das quais você se maquiava, aquela maquiagem de pobre, de bosta! Mas não, não quero te ofender. Só quis me certificar de que você ainda mora nesse barraco... Logo você, que queria se casar com um milionário, não eram essas as suas palavras? Percebo o êxito do seu plano. Passe bem. 


10

– Bom dia, vizinha. Desculpe ter batido na porta assim, tão bruto. Estou vindo agora de uma visita a uma ex-namorada e bem... Furioso como eu estava, acho que me esqueci de como se bate na porta de forma educada. Não era minha intenção assustá-la, ao contrário. Quero é dizer que não pude deixar de ouvir uma conversa da senhora com o senhor seu marido, ontem, no elevador. Escutei que seu filho mais novo está com uma doença cujo nome não compreendi, mas que tem urgência de uma custosa operação. Enquanto não vivemos num país que propicie condições a todos os seus cidadãos para viverem com dignidade, espero que esse cheque cubra seus gastos. De nada. Não, não, faço questão. De nada. Até mais, de nada. 


11

– Estamos ao vivo com o Sr. Gerson, que nos contará o sucesso de seu espaço para crianças carentes... O ambiente educativo do lugar obteve êxito, portanto? 
– Sua habilitação, por favor. 
– Que infração estou cometendo, seu policial? 
– Além de conduzir enquanto assiste a vídeos no telefone celular? 
– E debocha de mim, é? Pois saiba que estou assistindo à minha própria entrevista para a TV, senhor. O senhor faria o mesmo se tivesse o mínimo de importância, se não fosse um gorila com um cassetete na mão, se não pertencesse a uma corporação corrupta e opressora, que esmaga seu próprio povo e abafa seus anseios, se não ganhasse tão mal e não fosse um miserável, um pé rapado, um morto de fome! 


12

– Dá orgulho ver esse lugar! 
– Dá mesmo, senhor Gerson. 
– Próximo mês vou me aposentar, devo ficar mais recolhido em casa. A disposição não é mais a mesma de outrora, mas o orgulho fica. Que lugar encantador esse que eu criei com meu próprio suor! Ver que diversas crianças, que poderiam entrar no tráfico, sem se escolarizar nem nada, podem vir para cá, ter do que comer, praticar esportes, estudar, ter acesso a uma boa equipe de médicos, boas camas para dormirem... Que lugar! 
– Por que o Estado não faz isso, não é, senhor? 
– Porque, lá, o conflito de interesses é muito mais cruel, meu jovem... 
– É verdade, senhor. 
– Esse lugar e o espaço de ressocialização de antigos detentos são meus maiores orgulhos. 
– Este último não conheço, senhor. 
– Não? Pois deveria! Vou te levar lá, afinal tanto de cá quanto de lá, estou saindo. Não tenho mais o mesmo vigor para tocar esses projetos adiante.  
– Mas do que se trata esse projeto? 
– Assim, terei que ir lá para assinar uns últimos papéis e te levo comigo, para você conhecer. 
– Fico lisonjeado. Mas do que se trata esse projeto? 
– Ah, meu filho, se você soubesse os terrores que acontecem num presídio... Uma de minhas ONGs consistia nesse estudo. Não há Direitos Humanos, garoto, não há! Eles destroem cada resquício de dignidade do preso... E ainda falam em ressocialização! Minha tentativa, nesse outro espaço que quero que você conheça, é de fazer com que o preso, quando posto em liberdade, tenha uma vida digna de novo. 
– E o que o recém-libertado faz nesse espaço? 
– O mesmo que essas crianças fazem aqui: praticam esportes, estudam, comem boas comidas, têm acesso a uma boa saúde... Em suma, tento fazer com que eles recebam de mim o que, durante anos enclausurados, não conseguiram receber do Estado. 
– Entendi, senhor. Dois projetos maravilhosos, tanto lá quanto cá. 
– Tem vários outros... Ah, esqueci: lá, ainda faço contato com diversas empresas para tentar empregar o antigo detento. Você sabe o tamanho do preconceito contra essas pessoas... Só uma porcentagem muito pequena consegue emprego, meu jovem. Triste... 
– O senhor é incrível, seu Gerson. 
– Sem falsa modéstia, sou mesmo. Mas estou passando o bastão. Continuem esse bom trabalho, por favor. Continuem. 


13

– É, meu vira-lata, você é que sempre foi amigo fiel. Nunca me abandonou. Uma pena você não ter me conhecido quando eu era ainda jovem.  Hoje, estou velho, esses 80 anos me pesam demais. E minimizo o sofrimento porque vivi bem: tive bom dinheiro para envelhecer com saúde e não definhar na solidão desse apartamento. Imagine a situação de quem chega aos 80 anos amparado pela saúde pública... Me mudei para cá pouco antes de te conhecer... Morava antes num casarão, mas aquilo era incompatível com um país tão desigual. Por que eu viveria numa mansão, enquanto tantos moram em cubículos minúsculos? Esse apartamento é o meio-termo entre o luxo e a falta de dignidade. Mas você tinha que ter me conhecido jovem, era disso que eu falava. Eu também já morei num dos cubículos que citei. Pior que cubículos. Já fui muito pobre. Mas nunca, nunca, mesmo depois de melhorar de vida, nunca deixei de ser quem eu era. Eu poderia ter sido muito mais rico, mas quis dividir meus ganhos. E não me arrependo. O poder nunca me subiu à cabeça e olha que fui muito poderoso. Nunca destratei ninguém. Dizem que, se você quer conhecer alguém, deve lhe dar poderes. Pois a mim me deram e me conheceram. Nunca deixei de ser quem sempre fui. 

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