sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O conto de uma palavra só

Não. Esse não é um conto de uma palavra só. Não é nem mesmo um conto. Espero não ter decepcionado com meu título enganoso.

Acontece que me lembrei há pouco de um cara com quem eu tinha pouco ou quase nenhum contato, mas do qual às vezes me recordo por causa de uma coisa que um dia ele me falou. Disse ele que estava trabalhando para escrever contos cada vez menores, cada vez mais diretos e com menos rodeios, até conseguir escrever um conto de uma palavra só. Eu realmente falava pouco com ele, mas fiquei por anos com isso na cabeça até que hoje resolvi pensar sobre a viabilidade dessa meta e que palavra seria essa.

Gosto muito dos chamados microcontos e já participei de alguns concursos cujos contos deveriam ter no máximo uma pequena quantidade de caracteres. Em um deles, ganhei, com um microconto chamado “Extra!”, uma publicação numa antologia. O livro, que a organização do concurso me enviou por correio, tinha microcontos muito divertidos e que tinham aquilo que os contos – mesmo os não micro – têm que ter: objetividade. Mas notei também que uma outra parcela dos contos não me parecia lá muito artística, mas mais uma piada, algum tipo de charada, textos que talvez até escondessem algum tipo de enigma mais profundo, mas que, dada a obrigatória brevidade de seu caráter, muito mal me faziam esboçar um sorriso amarelo.

Se eu quisesse escrever uma história em uma palavra, como poderia me expressar de modo a me fazer entender? Por um lado, pode-se argumentar que nenhum conto – nem poema nem romance nem uma epopeia – precisa se revelar por completo, que o mistério faz parte do jogo. Mas escrever algo completamente indecifrável, que só seu autor entenda – ou pior: que só ele tenha a possibilidade de entender –, também me parece egoísta demais.

Exemplo: hoje mesmo quis botar em prática a utopia do conto de uma palavra só e fracassei. Não achei essa palavra. Dado meu malogro, vou contar o que era para ter sido um conto e não foi – e nem mesmo será, porque ele tinha que ser escrito em uma só palavra, ele foi projetado para ser assim e não vai ser em mil caracteres que vou escrevê-lo.

Um menino (por acaso, eu) gostava muito de tempos nublados e chuvosos quando morava no Rio. Era sua felicidade abrir a janela do quarto e ver o tempo fechado, nuvens carregadas, chuva. Quando ele se mudou para Brasília (isso seria mesmo muito autobiográfico!), seu gosto mudou completamente: passou a gostar do céu azul, do tempo aberto, do sol no verde. Ele teoriza que essa mudança se deu em decorrência da própria diferença climática entre as duas cidades. No Rio, céu azul era sinônimo de calor infernal. Ele odiava aquele clima e sua única esperança de sentir um bocadinho de frio – se é que isso era possível no Rio – era ver o tempo fechado. Em sua ignorância, não existia, em todo o globo terrestre, sol com frio. Se não fizesse calor, o tempo estava fechado, estava chovendo ou para chover. Em Brasília, ele se deparou com a maravilhosa seca – da qual as pessoas tão injustamente falam mal. Sentir aquele vento frio cortante no cair da tarde ou no início das manhãs, mesmo sob um céu azul, era uma experiência inovadora. Por isso, ele não gosta muito do clima de Brasília nessa época do ano (entre novembro e março, mais ou menos) e espera ansiosamente por maio, quando se inicia a temporada de céu azul com cobertor.

Como escrever isso em uma linha? Se eu disser “seca”, provavelmente se pensará em qualquer coisa diferente; se eu falar “Brasília”, idem; “mudança”, nada! “Frio sob sol” poderia ter sido o conto, mas já são três palavras. E não está claro que quero elogiar, não criticar, essa condição. Será possível escrever tudo isso, passar toda aquela ideia, em uma só palavra? Pode ser que sim, mas como me expressar univocabularmente sem fazer com que isso empobreça meu discurso – mas, sim, ao contrário, que o enriqueça?

Talvez seja mesmo impossível escrever o conto de uma palavra só, mas vou continuar tentando. Se um dia eu topar com meu colega do Rio, faço questão de perguntar se ele já conseguiu sua meta. Mas acredito que não: deve ser, afinal, só mesmo uma utopia.

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