terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Fumaça

Gabriele tinha em mãos um mistério macabro, daqueles que, embora tivesse visto muitas vezes em filmes de terror, nunca pensara que pudesse, de fato, acontecer – e ainda por cima com ela! Ocorreu que, ao digitalizar uma foto em família, um rosto masculino desconhecido, que aparentemente não se fazia presente no momento da fotografia , agora aparecia.

A ocasião havia sido uma confraternização familiar de não muitas pessoas. Estavam presentes, além da própria Gabriele, sua mãe, seu pai, seu irmão, seu avô paterno, sua avó materna, um de seus tios, sua prima... e o intruso. Todos abraçados fraternalmente. Apenas parcialmente sorridente, o rosto misterioso tinha uma expressão bem tímida e parecia saber que aquele não era o seu lugar, que ninguém o havia convidado para aquela reunião, que era penetra e indesejado.

A principal hipótese de Gabriele era a de que se tratava de um espírito. Mas qual? Teria ela chegado a conhecer a alma errante? Algum parente que morrera quando ela ainda era criança e, portanto, não mais se lembrava? Ou quem sabe um familiar distante, de décadas, séculos atrás? Nesse caso, por que resolvera voltar agora? Já não teria passado tempo suficiente para o pobre sujeito encontrar seu lugar no outro mundo?

A verdade é que ela estava muito assustada. Na foto, onde se viam todos abraçados – cada um com a mão por trás do ombro da pessoa ao lado –, ela percebia com horror que o desconhecido estava em uma das pontas do grupo, de modo que, ao seu lado esquerdo, não havia ninguém e, ao seu direito, estava justamente Gabriele. O rapaz estava abraçado com ela! O espírito tocava em Gabriela, mas ela nada sentira na hora. É claro que não poderia sentir nada, afinal se tratava de uma alma imaterial. Mas nem um calafrio? E por que o infeliz escolhera logo ela? Tentou se acalmar e pensar que foi porque era ela quem estava na ponta, de forma que ele não conseguiria se infiltrar por entre os demais. Mas, já que se tratava de alguém sem carne, incapaz de ocupar um lugar no espaço, esse não deveria ser um obstáculo.

Surgiu, assim, a inquietante conclusão: o espírito era mais afeiçoado a Gabriele do que aos outros. Ela não gostava disso. Quem era aquele homem? Talvez, não se tratasse de um ente querido, mas de alguém que não pertencia àquela família: poderia, por exemplo, ter tido com Gabriele um caso de amor em outra vida. Mesmo ela, que não era adepta ao espiritismo, cogitou a possibilidade de, em uma encarnação passada, os dois terem tido algum vínculo que perdurou ao longo do tempo. Se não foram amores, poderiam ter sido grandes amigos, filhos, cúmplices de algum segredo. Nesse caso, deveria buscar um centro espírita. Antes, porém, gostaria de esgotar as possibilidades referentes a essa vida e telefonou para seu avô, que se orgulhava de ter conhecido três gerações diferentes da família.

Descreveu o rosto do penetra para o velho. Este parecia ouvi-la com atenção e por várias vezes pedia mais detalhes, alguns até meio estapafúrdios, levando Gabriele a crer que havia apenas perdido tempo com aquela tentativa.

 Me diz, minha filha. Ele tem alguma sobrancelha levantada?
 Não... Quer dizer... Um pouco...
 Ah, sim, sim! Primo Jeferson levantava um pouco a sobrancelha... É a direita ou a esquerda?
 A esquerda...
 Então, não. Primo Jeferson só levantava a direita. Já tio Edinho levantava muito a sobrancelha esquerda...
 Avô...
 Diz, minha filha. A orelha é de abano?
 Não.
 Nenhuma delas? Tio Edinho tinha a metade de cima da orelha esquerda de abano...

Gabriele agradeceu e disse que ia desligar.

 Traga em outra hora essa foto para seu velho avô – ele disse. – A descrição que você me deu é muito fraca!

Gabriele não levaria a foto ao seu avô; estava claro que ele não sabia de nada. Decidiu aumentar o zoom e tentar ela mesma, pela última vez, reconhecer aquele homem. Esforçou-se, mas nada conseguiu. Recorreria a um centro espírita imediatamente.

Imprimiu a fotografia, trocou de roupa rapidamente e buscou as chaves de casa, para ir ao centro mais próximo de onde morava. Quando, enfim, as encontrou, percebeu que alguém se aproximava do lado de fora da porta. Parou, assustada. Seu coração disparava. Deu três passos para trás, temerosa de ir ao olho mágico. A fechadura fez um ruído e a maçaneta se moveu. Esmagou com as mãos a foto que segurava. A porta se abriu.

O homem da foto entrava em casa.

Gabriele arregalou os olhos quando só então pôde perceber o rosto de um homem vivo, com quem morava havia muito tempo.

 Oi, querida. Mais um dia cansativo no trabalho!

Era o marido de Gabriele.

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