sábado, 11 de janeiro de 2014

A dor de Fiódor

Hoje, vou falar de um cara que você provavelmente não gostaria de convidar para um churrasco na sua casa, mas que, enquanto escritor do século XIX, é um dos meus autores favoritos: Fiódor Mikhailovich Dostoiévski – ou, simplesmente, Dostoiévski.

O nome, que já bota uma enorme banca, não nos deixa enganar sua nacionalidade russa. Teve seis irmãos, seus pais morreram cedo (dizem que os servos assassinaram seu pai, cansados dos maus tratos recebidos), era epilético e foi preso na Sibéria, sob acusação de conspirar contra o governo de Nicolau I. Como se não bastasse ser exilado em um lugar tão "agradável" quanto a Sibéria, chegou a ser amarrado em um poste para ser fuzilado, mas, na última hora, teve sua pena convertida para prisão com trabalhos forçados. Outros momentos como esses estão em sua obra "Recordações da Casa dos Mortos" (um dos títulos mais impactantes que conheço).

A escrita de um sujeito desses não pode ser de flores e alegrias. Constantemente, se veem em suas obras temas relacionados a morte, humilhação, assassinatos, autodestruição e, no caso de "Os Irmãos Karamazov", o parricídio. Haveria relação entre o assassinato de um pai por um filho e a personalidade do pai do próprio Dostoiévski? Freud fala um pouco sobre isso no artigo "Dostoiévski e o Parricídio" e diz que considera "Os Irmãos Karamazov" o melhor romance já escrito na história. E não posso discordar. Deve ser a obra mais completa de Dostoiévski.

Em "Crime e Castigo", de novo um assassinato é o mote da história. Em suma, o protagonista mata uma velha, após roubar suas joias. Depois do crime, ele nunca mais consegue viver normalmente. A obra tem dois pontos que, para mim, são de sensível interesse. O primeiro é a sensação de que, dadas as características do personagem, tal delito poderia ter sido cometido por qualquer um de nós. O segundo é a psique do protagonista: em um dia, ele está bem; em outro, mal... em uma hora, culpado; em outra, mais tranquilo... Ele oscila a todo momento, de novo como nós, pessoas de carne e osso.

Por último, comecei a ler "O Idiota", obra que de novo traz um quê de autobiográfico, graças, dentre outras coisas, ao príncipe epilético que protagoniza a história. O curioso é que essa é a obra mais diferente dele. Tem uma atmosfera menos pesada, uma escrita menos truncada... Ao menos, até agora (ainda estou na metade). Ao contrário, na verdade, tem até um pouco de cômico e bem humorado. Vai ver esse humor repentino se deve à inusitada influência que Dostoiévski então sofria de "Dom Quixote de la Mancha". Se você analisar bem, o príncipe epilético e Dom Quixote têm muitas semelhanças e, assim como no romance de Cervantes, os capítulos de "O Idiota" se iniciam com uma continuação direta do capítulo anterior, como se não houvesse divisão nenhuma.

Então, esse é o simpático russo que muitos dizem ter criado o existencialismo, outros avaliam ter sido a maior influência de artistas como Machado de Assis, em sua fase realista, e que um terceiro grupo pensa que foi um cara simplesmente azedo mesmo. Seja como for, vale a pena ler. Não vou mentir: dá trabalho ler Dostoiévski. Não só pela narrativa, mas principalmente pela existência de tantos personagens, cada um com primeiro nome, nome do meio e sobrenome russos, mais um apelido que nada tem a ver com nenhum dos três nomes. É como se, em nossos romances, houvesse um Leonardo Xavier Bezerra e seu apelido fosse Zeca. Só que tudo em russo. É, cansa mesmo. Se você não lê muito, não comece por Dostoiévski ou vai acontecer contigo o mesmo que com Ronaldo Fofômeno, que disse que "leu Crime e Castigo, mas pouco compreendeu". Porém, não use isso como desculpa para não lê-lo. Anote como tarefa para o futuro.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em dezembro de 2013. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

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