sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Travessões

1

– Tenho que fazer alguma coisa para mudar isso, simplesmente sinto que devo. 
– Deve o quê? A quem? 
– Ah, menina, a quem, é fácil: à vida, às pessoas. O quê, não sei. Mas devo. 
– Gerson, vamos começar a mudar nós mesmos que o resto se muda sozinho. 
– Vamos comprar sorvete? 
– Sim… Toma cinquenta centavos… Completa para mim? 
– Moço, dois picolés, por favor! 
– Ontem, um senhor me pediu dinheiro na rua… Parecia ter fome… 
– Você deu? 
– Não tinha. 
– Está chorando? 
– Eu? Não. 
– Está, sim. 
– Não estou, Gerson. 
– Ok. 
– Que foi? 
– Temos que mudar isso. 
– O quê? 
– Por que ele tinha fome? 
– O mendigo? Bem, sei lá. Eu tenho 17 anos, você tem 16; o que sabemos da vida? 
– Só sei que tem poucos com muito e muitos com nada… 
– Vamos mudar nossas próprias vidas antes de mudarmos o mundo. 
– Como? Quer outro sorvete? 
– Não. Quero um beijo. 
– Um beijo? 
– Sim. A minha vida, eu vou mudar agora.


2

– E ela disse que a vida dela, ela ia mudar naquele momento… 
– Gerson… Ótimo para vocês... Mas qual a função social disso? 
– Não sei. Ela disse que deveríamos, antes de mudar o mundo, mudar nossas vidas. 
– De acordo. Mas uma trepada ajuda a mudar o mundo? 
– Não trepamos, cara… 
– O que quer que vocês tenham feito… ajuda a mudar o mundo? 
– Acho que não. 
– Vamos fazer algo útil, Gerson! Nem que seja num plano micro, mas vamos tentar mudar alguma coisa! 
– Como? 
– Vamos concorrer ao grêmio estudantil! 
– A ideia é boa, mas não conheço mais ninguém que participaria de uma chapa com a gente. 
– Sua namorada já é uma. 
– Você acha? 
– Claro! Vocês estão namorando! 
– Vou falar com ela.


3

– Ela não aceitou. 
– Azar o dela. 
– Terminei com ela. 
– Por isso? 
– Contribuiu. 
– Por que mais? 
– Os pais dela me mostram quem ela pode ser no futuro. Melhor terminar agora, enquanto ainda mal começou. 
– Que têm os pais dela? 
– A maneira como eles tratam pessoas de menor prestígio social, sabe? Eles são endinheirados, já te falei, embora não deem um centavo para a filha. 
– Mas ela parecia comprometida com as mudanças, apesar de rejeitar nossa chapa. 
– Acho que ela não quer mudar o mundo, como nós. Talvez ela sinta muito mais revolta por os pais, tendo tanto dinheiro, não darem nada para ela, quererem que ela trabalhe, sendo que ela nem tem 18 anos. Comunista patricinha... 
– Mas e os pais dela? Você não explicou. 
– Eles não sabem falar com ninguém. Não sabem ser educados, minimamente gentis. Que me destratem, vá lá. O problema é me destratarem pelos motivos que me destratam: por eu ser pobre, mulato, morador de favela, órfão... 
– Eles sabem dos furtos? 
– Não. Nem ela sabe. Acho que não entenderia. 
– Não tem o que entender. A gente furtava de ricos para dar para pobres. Quando é o Robin Wood, é legal; quando são favelados, é crime? 
– Seria o pensamento dela. 
– Mas os pais... Você nunca termina a história. 
– Não tem muito o que terminar. É aquilo. Tratam mal o porteiro, o flanelinha, a empregada... Nem sei se são conscientes disso, mas destratam negros, nordestinos... Não quero envolvimento nenhum com essa família. Mesmo a filha, que é o elemento menos nocivo deles, é um obstáculo para qualquer plano de igualdade social.

  
4

– Gerson, não termine comigo só por isso. Simplesmente não quero me filiar contigo ao partido socialista... É completamente infantil você terminar o namoro por isso. Por que você, com 23 anos, insiste em ser uma criança? Que mundo você quer mudar, agindo assim, de modo tão mesquinho? 
– Já terminei com outras namoradas por muito menos. Você é a quinta com quem termino por razões políticas ou sociais. A primeira se recusou a participar da minha chapa no grêmio estudantil, a segunda votava na direita, a terceira... 
– Não quero ouvir! Esse tom calmo, quase debochado...! Não quero ouvir seu passado! Já sei o suficiente de você. Sei de suas ONGs, seus projetos sociais, suas candidaturas a vereador, seu engajamento no partido socialista... E respeito todas as suas opções (gostaria que fosse recíproco). Sei de muito da sua vida, mas, das suas mulheres... Não me fale delas! 
– Que seja. Não vim aqui para isso. Só vim para te convidar para o partido e, se você não aceita, pode me acusar de infantilidade, mas não consigo mais me sentir atraído por você. Acabou. 


5

– Esse não é você, Gerson. Simplesmente não tem nada a ver contigo. 
– Por quê? Cara, não tem nada de mais em demitir uma diarista. 
– Ela faltou um dia, apenas. 
– Dois! 
– O filho dela estava doente! 
– Nada sério... 
– Desde que você conseguiu esse emprego e passou a ganhar melhor, está irreconhecível. 
– Olha, você trabalha comigo, você sabe que não ganho tanto. Se contratei uma diarista, foi porque gasto meu dia inteiro nessa empresa e não tenho tempo para nada relacionado a casa! 
– Você é um caso como outro qualquer... Luta por bandeiras que te são convenientes, mas só enquanto dura a conveniência... Aquele papo de sindicalismo, engajamento, lutas sociais, classe operária... Conversa! Você é um merda... 
– Vou ser presidente dessa empresa e vou te fazer engolir essas palavras! Vou te mostrar que continuo sendo o que sempre fui. 
– Se você é o que você sempre foi, isso significa que você sempre foi um merda. 


6

– Bom dia! Obrigado, obrigado! Àqueles que não me conhecem, sou Gerson. Um minuto de silêncio, por favor. Por favor, gente... Obrigado. Chamo-me Gerson e, a partir de hoje, sou o novo presidente desse lugar.  Nunca almejei esse posto por vaidade e tenho a consciência de que, se hoje estou aqui, é porque cada um de vocês sempre acreditou no meu trabalho. O que vou em breve anunciar é uma mostra de agradecimento. Mas é também a prova de que sou quem sempre fui: o menino da favela, o sindicalista engajado, o candidato socialista, aquele que sempre valorizou a força trabalhadora desse país. O meu anúncio, portanto, é o seguinte: a partir de hoje, todo o lucro líquido que gerarmos será dividido igualmente – sim, eu disse igualmente! – entre todos vocês. Não haverá gerentes, diretores, coordenadores... Todos nos gerenciaremos, nos direcionaremos, nos coordenaremos, mútua e reciprocamente. Haverá apenas um presidente – eu –, porque nosso regimento assim obriga, mas não ganharei mais do que ninguém aqui. Nosso trabalho será um só e, portanto, nada mais justo que a fiel divisão de cada centavo que entrar em nossos cofres! Obrigado.


7

– Satisfeito? Sou ou não sou o mesmo de antes? 
– Você é, cara, você é! Desculpe meu mau julgamento! 
– Está feliz por ganhar a mesma porcentagem de lucro que os ex-diretores, ex-coordenadores, ex-tudo, que agora são o mesmo que você? 
– É claro que estou feliz, Gerson! 
– Feliz por ganhar o mesmo que eu, que sou o presidente? 
– Gerson... Eu sabia que você não ia me desapontar. 
– Mentira. Você pensou que eu fosse te desapontar, sim. E, aqui, só trabalha quem acredita no seu parceiro. Somos um time. E você está fora dele. Você está demitido. 


8

– Toma, meu senhor. Pegue esses cem reais e gaste no supermercado. 
– Misericórdia de Cristo! Cem reais! Cem reais para um mendigo! Sangue de Jesus! Quem é o senhor? Qual o nome do senhor? O senhor é um anjo? 
– Meu nome é Gerson e não sou um anjo. Sou um homem que nem você, me entende? Você é tão bom quanto eu, só não teve a mesma sorte. Vá se alimentar, vá. Vá se alimentar porque um país como o nosso não pode comportar miséria, não pode comportar fome, de jeito nenhum! 
– Sangue de Jesus tem poder! Glória, meu senhor, glória! 


9

– Já vai! Já vai! Precisa bater na porta com toda essa violência? 
– Bom dia. Se lembra de mim? 
– Gerson? 
– Sou eu. Pensei que você não fosse se lembrar. A vida dá voltas, mas a imagem fica, não é? 
– Do que você está falando, Gerson? Nosso relacionamento acabou há anos. 
– Correto, eu sei. E você deve estar lembrada de que eu me rastejei aos seus pés... A única mulher que me botou no chão, me humilhou daquele jeito... 
– Gerson, por favor, por que essa recaída agora? 
– Recaída? Só se for da sua parte. Porque, da minha, eu só subi na vida. Hoje, sou presidente daquela empresa de altas portas de vidro através das quais você se maquiava, aquela maquiagem de pobre, de bosta! Mas não, não quero te ofender. Só quis me certificar de que você ainda mora nesse barraco... Logo você, que queria se casar com um milionário, não eram essas as suas palavras? Percebo o êxito do seu plano. Passe bem. 


10

– Bom dia, vizinha. Desculpe ter batido na porta assim, tão bruto. Estou vindo agora de uma visita a uma ex-namorada e bem... Furioso como eu estava, acho que me esqueci de como se bate na porta de forma educada. Não era minha intenção assustá-la, ao contrário. Quero é dizer que não pude deixar de ouvir uma conversa da senhora com o senhor seu marido, ontem, no elevador. Escutei que seu filho mais novo está com uma doença cujo nome não compreendi, mas que tem urgência de uma custosa operação. Enquanto não vivemos num país que propicie condições a todos os seus cidadãos para viverem com dignidade, espero que esse cheque cubra seus gastos. De nada. Não, não, faço questão. De nada. Até mais, de nada. 


11

– Estamos ao vivo com o Sr. Gerson, que nos contará o sucesso de seu espaço para crianças carentes... O ambiente educativo do lugar obteve êxito, portanto? 
– Sua habilitação, por favor. 
– Que infração estou cometendo, seu policial? 
– Além de conduzir enquanto assiste a vídeos no telefone celular? 
– E debocha de mim, é? Pois saiba que estou assistindo à minha própria entrevista para a TV, senhor. O senhor faria o mesmo se tivesse o mínimo de importância, se não fosse um gorila com um cassetete na mão, se não pertencesse a uma corporação corrupta e opressora, que esmaga seu próprio povo e abafa seus anseios, se não ganhasse tão mal e não fosse um miserável, um pé rapado, um morto de fome! 


12

– Dá orgulho ver esse lugar! 
– Dá mesmo, senhor Gerson. 
– Próximo mês vou me aposentar, devo ficar mais recolhido em casa. A disposição não é mais a mesma de outrora, mas o orgulho fica. Que lugar encantador esse que eu criei com meu próprio suor! Ver que diversas crianças, que poderiam entrar no tráfico, sem se escolarizar nem nada, podem vir para cá, ter do que comer, praticar esportes, estudar, ter acesso a uma boa equipe de médicos, boas camas para dormirem... Que lugar! 
– Por que o Estado não faz isso, não é, senhor? 
– Porque, lá, o conflito de interesses é muito mais cruel, meu jovem... 
– É verdade, senhor. 
– Esse lugar e o espaço de ressocialização de antigos detentos são meus maiores orgulhos. 
– Este último não conheço, senhor. 
– Não? Pois deveria! Vou te levar lá, afinal tanto de cá quanto de lá, estou saindo. Não tenho mais o mesmo vigor para tocar esses projetos adiante.  
– Mas do que se trata esse projeto? 
– Assim, terei que ir lá para assinar uns últimos papéis e te levo comigo, para você conhecer. 
– Fico lisonjeado. Mas do que se trata esse projeto? 
– Ah, meu filho, se você soubesse os terrores que acontecem num presídio... Uma de minhas ONGs consistia nesse estudo. Não há Direitos Humanos, garoto, não há! Eles destroem cada resquício de dignidade do preso... E ainda falam em ressocialização! Minha tentativa, nesse outro espaço que quero que você conheça, é de fazer com que o preso, quando posto em liberdade, tenha uma vida digna de novo. 
– E o que o recém-libertado faz nesse espaço? 
– O mesmo que essas crianças fazem aqui: praticam esportes, estudam, comem boas comidas, têm acesso a uma boa saúde... Em suma, tento fazer com que eles recebam de mim o que, durante anos enclausurados, não conseguiram receber do Estado. 
– Entendi, senhor. Dois projetos maravilhosos, tanto lá quanto cá. 
– Tem vários outros... Ah, esqueci: lá, ainda faço contato com diversas empresas para tentar empregar o antigo detento. Você sabe o tamanho do preconceito contra essas pessoas... Só uma porcentagem muito pequena consegue emprego, meu jovem. Triste... 
– O senhor é incrível, seu Gerson. 
– Sem falsa modéstia, sou mesmo. Mas estou passando o bastão. Continuem esse bom trabalho, por favor. Continuem. 


13

– É, meu vira-lata, você é que sempre foi amigo fiel. Nunca me abandonou. Uma pena você não ter me conhecido quando eu era ainda jovem.  Hoje, estou velho, esses 80 anos me pesam demais. E minimizo o sofrimento porque vivi bem: tive bom dinheiro para envelhecer com saúde e não definhar na solidão desse apartamento. Imagine a situação de quem chega aos 80 anos amparado pela saúde pública... Me mudei para cá pouco antes de te conhecer... Morava antes num casarão, mas aquilo era incompatível com um país tão desigual. Por que eu viveria numa mansão, enquanto tantos moram em cubículos minúsculos? Esse apartamento é o meio-termo entre o luxo e a falta de dignidade. Mas você tinha que ter me conhecido jovem, era disso que eu falava. Eu também já morei num dos cubículos que citei. Pior que cubículos. Já fui muito pobre. Mas nunca, nunca, mesmo depois de melhorar de vida, nunca deixei de ser quem eu era. Eu poderia ter sido muito mais rico, mas quis dividir meus ganhos. E não me arrependo. O poder nunca me subiu à cabeça e olha que fui muito poderoso. Nunca destratei ninguém. Dizem que, se você quer conhecer alguém, deve lhe dar poderes. Pois a mim me deram e me conheceram. Nunca deixei de ser quem sempre fui. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O conto de uma palavra só

Não. Esse não é um conto de uma palavra só. Não é nem mesmo um conto. Espero não ter decepcionado com meu título enganoso.

Acontece que me lembrei há pouco de um cara com quem eu tinha pouco ou quase nenhum contato, mas do qual às vezes me recordo por causa de uma coisa que um dia ele me falou. Disse ele que estava trabalhando para escrever contos cada vez menores, cada vez mais diretos e com menos rodeios, até conseguir escrever um conto de uma palavra só. Eu realmente falava pouco com ele, mas fiquei por anos com isso na cabeça até que hoje resolvi pensar sobre a viabilidade dessa meta e que palavra seria essa.

Gosto muito dos chamados microcontos e já participei de alguns concursos cujos contos deveriam ter no máximo uma pequena quantidade de caracteres. Em um deles, ganhei, com um microconto chamado “Extra!”, uma publicação numa antologia. O livro, que a organização do concurso me enviou por correio, tinha microcontos muito divertidos e que tinham aquilo que os contos – mesmo os não micro – têm que ter: objetividade. Mas notei também que uma outra parcela dos contos não me parecia lá muito artística, mas mais uma piada, algum tipo de charada, textos que talvez até escondessem algum tipo de enigma mais profundo, mas que, dada a obrigatória brevidade de seu caráter, muito mal me faziam esboçar um sorriso amarelo.

Se eu quisesse escrever uma história em uma palavra, como poderia me expressar de modo a me fazer entender? Por um lado, pode-se argumentar que nenhum conto – nem poema nem romance nem uma epopeia – precisa se revelar por completo, que o mistério faz parte do jogo. Mas escrever algo completamente indecifrável, que só seu autor entenda – ou pior: que só ele tenha a possibilidade de entender –, também me parece egoísta demais.

Exemplo: hoje mesmo quis botar em prática a utopia do conto de uma palavra só e fracassei. Não achei essa palavra. Dado meu malogro, vou contar o que era para ter sido um conto e não foi – e nem mesmo será, porque ele tinha que ser escrito em uma só palavra, ele foi projetado para ser assim e não vai ser em mil caracteres que vou escrevê-lo.

Um menino (por acaso, eu) gostava muito de tempos nublados e chuvosos quando morava no Rio. Era sua felicidade abrir a janela do quarto e ver o tempo fechado, nuvens carregadas, chuva. Quando ele se mudou para Brasília (isso seria mesmo muito autobiográfico!), seu gosto mudou completamente: passou a gostar do céu azul, do tempo aberto, do sol no verde. Ele teoriza que essa mudança se deu em decorrência da própria diferença climática entre as duas cidades. No Rio, céu azul era sinônimo de calor infernal. Ele odiava aquele clima e sua única esperança de sentir um bocadinho de frio – se é que isso era possível no Rio – era ver o tempo fechado. Em sua ignorância, não existia, em todo o globo terrestre, sol com frio. Se não fizesse calor, o tempo estava fechado, estava chovendo ou para chover. Em Brasília, ele se deparou com a maravilhosa seca – da qual as pessoas tão injustamente falam mal. Sentir aquele vento frio cortante no cair da tarde ou no início das manhãs, mesmo sob um céu azul, era uma experiência inovadora. Por isso, ele não gosta muito do clima de Brasília nessa época do ano (entre novembro e março, mais ou menos) e espera ansiosamente por maio, quando se inicia a temporada de céu azul com cobertor.

Como escrever isso em uma linha? Se eu disser “seca”, provavelmente se pensará em qualquer coisa diferente; se eu falar “Brasília”, idem; “mudança”, nada! “Frio sob sol” poderia ter sido o conto, mas já são três palavras. E não está claro que quero elogiar, não criticar, essa condição. Será possível escrever tudo isso, passar toda aquela ideia, em uma só palavra? Pode ser que sim, mas como me expressar univocabularmente sem fazer com que isso empobreça meu discurso – mas, sim, ao contrário, que o enriqueça?

Talvez seja mesmo impossível escrever o conto de uma palavra só, mas vou continuar tentando. Se um dia eu topar com meu colega do Rio, faço questão de perguntar se ele já conseguiu sua meta. Mas acredito que não: deve ser, afinal, só mesmo uma utopia.

Extra!

- EXTRA! EXTRA! – gritava o jornaleiro.
- Quê? – perguntou um transeunte.
- Uma bomba!
- Qual?
- Espera... Deixe-me ler aqui... O que era mesmo?

sábado, 11 de janeiro de 2014

A dor de Fiódor

Hoje, vou falar de um cara que você provavelmente não gostaria de convidar para um churrasco na sua casa, mas que, enquanto escritor do século XIX, é um dos meus autores favoritos: Fiódor Mikhailovich Dostoiévski – ou, simplesmente, Dostoiévski.

O nome, que já bota uma enorme banca, não nos deixa enganar sua nacionalidade russa. Teve seis irmãos, seus pais morreram cedo (dizem que os servos assassinaram seu pai, cansados dos maus tratos recebidos), era epilético e foi preso na Sibéria, sob acusação de conspirar contra o governo de Nicolau I. Como se não bastasse ser exilado em um lugar tão "agradável" quanto a Sibéria, chegou a ser amarrado em um poste para ser fuzilado, mas, na última hora, teve sua pena convertida para prisão com trabalhos forçados. Outros momentos como esses estão em sua obra "Recordações da Casa dos Mortos" (um dos títulos mais impactantes que conheço).

A escrita de um sujeito desses não pode ser de flores e alegrias. Constantemente, se veem em suas obras temas relacionados a morte, humilhação, assassinatos, autodestruição e, no caso de "Os Irmãos Karamazov", o parricídio. Haveria relação entre o assassinato de um pai por um filho e a personalidade do pai do próprio Dostoiévski? Freud fala um pouco sobre isso no artigo "Dostoiévski e o Parricídio" e diz que considera "Os Irmãos Karamazov" o melhor romance já escrito na história. E não posso discordar. Deve ser a obra mais completa de Dostoiévski.

Em "Crime e Castigo", de novo um assassinato é o mote da história. Em suma, o protagonista mata uma velha, após roubar suas joias. Depois do crime, ele nunca mais consegue viver normalmente. A obra tem dois pontos que, para mim, são de sensível interesse. O primeiro é a sensação de que, dadas as características do personagem, tal delito poderia ter sido cometido por qualquer um de nós. O segundo é a psique do protagonista: em um dia, ele está bem; em outro, mal... em uma hora, culpado; em outra, mais tranquilo... Ele oscila a todo momento, de novo como nós, pessoas de carne e osso.

Por último, comecei a ler "O Idiota", obra que de novo traz um quê de autobiográfico, graças, dentre outras coisas, ao príncipe epilético que protagoniza a história. O curioso é que essa é a obra mais diferente dele. Tem uma atmosfera menos pesada, uma escrita menos truncada... Ao menos, até agora (ainda estou na metade). Ao contrário, na verdade, tem até um pouco de cômico e bem humorado. Vai ver esse humor repentino se deve à inusitada influência que Dostoiévski então sofria de "Dom Quixote de la Mancha". Se você analisar bem, o príncipe epilético e Dom Quixote têm muitas semelhanças e, assim como no romance de Cervantes, os capítulos de "O Idiota" se iniciam com uma continuação direta do capítulo anterior, como se não houvesse divisão nenhuma.

Então, esse é o simpático russo que muitos dizem ter criado o existencialismo, outros avaliam ter sido a maior influência de artistas como Machado de Assis, em sua fase realista, e que um terceiro grupo pensa que foi um cara simplesmente azedo mesmo. Seja como for, vale a pena ler. Não vou mentir: dá trabalho ler Dostoiévski. Não só pela narrativa, mas principalmente pela existência de tantos personagens, cada um com primeiro nome, nome do meio e sobrenome russos, mais um apelido que nada tem a ver com nenhum dos três nomes. É como se, em nossos romances, houvesse um Leonardo Xavier Bezerra e seu apelido fosse Zeca. Só que tudo em russo. É, cansa mesmo. Se você não lê muito, não comece por Dostoiévski ou vai acontecer contigo o mesmo que com Ronaldo Fofômeno, que disse que "leu Crime e Castigo, mas pouco compreendeu". Porém, não use isso como desculpa para não lê-lo. Anote como tarefa para o futuro.

……...

Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em dezembro de 2013. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Fumaça

Gabriele tinha em mãos um mistério macabro, daqueles que, embora tivesse visto muitas vezes em filmes de terror, nunca pensara que pudesse, de fato, acontecer – e ainda por cima com ela! Ocorreu que, ao digitalizar uma foto em família, um rosto masculino desconhecido, que aparentemente não se fazia presente no momento da fotografia , agora aparecia.

A ocasião havia sido uma confraternização familiar de não muitas pessoas. Estavam presentes, além da própria Gabriele, sua mãe, seu pai, seu irmão, seu avô paterno, sua avó materna, um de seus tios, sua prima... e o intruso. Todos abraçados fraternalmente. Apenas parcialmente sorridente, o rosto misterioso tinha uma expressão bem tímida e parecia saber que aquele não era o seu lugar, que ninguém o havia convidado para aquela reunião, que era penetra e indesejado.

A principal hipótese de Gabriele era a de que se tratava de um espírito. Mas qual? Teria ela chegado a conhecer a alma errante? Algum parente que morrera quando ela ainda era criança e, portanto, não mais se lembrava? Ou quem sabe um familiar distante, de décadas, séculos atrás? Nesse caso, por que resolvera voltar agora? Já não teria passado tempo suficiente para o pobre sujeito encontrar seu lugar no outro mundo?

A verdade é que ela estava muito assustada. Na foto, onde se viam todos abraçados – cada um com a mão por trás do ombro da pessoa ao lado –, ela percebia com horror que o desconhecido estava em uma das pontas do grupo, de modo que, ao seu lado esquerdo, não havia ninguém e, ao seu direito, estava justamente Gabriele. O rapaz estava abraçado com ela! O espírito tocava em Gabriela, mas ela nada sentira na hora. É claro que não poderia sentir nada, afinal se tratava de uma alma imaterial. Mas nem um calafrio? E por que o infeliz escolhera logo ela? Tentou se acalmar e pensar que foi porque era ela quem estava na ponta, de forma que ele não conseguiria se infiltrar por entre os demais. Mas, já que se tratava de alguém sem carne, incapaz de ocupar um lugar no espaço, esse não deveria ser um obstáculo.

Surgiu, assim, a inquietante conclusão: o espírito era mais afeiçoado a Gabriele do que aos outros. Ela não gostava disso. Quem era aquele homem? Talvez, não se tratasse de um ente querido, mas de alguém que não pertencia àquela família: poderia, por exemplo, ter tido com Gabriele um caso de amor em outra vida. Mesmo ela, que não era adepta ao espiritismo, cogitou a possibilidade de, em uma encarnação passada, os dois terem tido algum vínculo que perdurou ao longo do tempo. Se não foram amores, poderiam ter sido grandes amigos, filhos, cúmplices de algum segredo. Nesse caso, deveria buscar um centro espírita. Antes, porém, gostaria de esgotar as possibilidades referentes a essa vida e telefonou para seu avô, que se orgulhava de ter conhecido três gerações diferentes da família.

Descreveu o rosto do penetra para o velho. Este parecia ouvi-la com atenção e por várias vezes pedia mais detalhes, alguns até meio estapafúrdios, levando Gabriele a crer que havia apenas perdido tempo com aquela tentativa.

 Me diz, minha filha. Ele tem alguma sobrancelha levantada?
 Não... Quer dizer... Um pouco...
 Ah, sim, sim! Primo Jeferson levantava um pouco a sobrancelha... É a direita ou a esquerda?
 A esquerda...
 Então, não. Primo Jeferson só levantava a direita. Já tio Edinho levantava muito a sobrancelha esquerda...
 Avô...
 Diz, minha filha. A orelha é de abano?
 Não.
 Nenhuma delas? Tio Edinho tinha a metade de cima da orelha esquerda de abano...

Gabriele agradeceu e disse que ia desligar.

 Traga em outra hora essa foto para seu velho avô – ele disse. – A descrição que você me deu é muito fraca!

Gabriele não levaria a foto ao seu avô; estava claro que ele não sabia de nada. Decidiu aumentar o zoom e tentar ela mesma, pela última vez, reconhecer aquele homem. Esforçou-se, mas nada conseguiu. Recorreria a um centro espírita imediatamente.

Imprimiu a fotografia, trocou de roupa rapidamente e buscou as chaves de casa, para ir ao centro mais próximo de onde morava. Quando, enfim, as encontrou, percebeu que alguém se aproximava do lado de fora da porta. Parou, assustada. Seu coração disparava. Deu três passos para trás, temerosa de ir ao olho mágico. A fechadura fez um ruído e a maçaneta se moveu. Esmagou com as mãos a foto que segurava. A porta se abriu.

O homem da foto entrava em casa.

Gabriele arregalou os olhos quando só então pôde perceber o rosto de um homem vivo, com quem morava havia muito tempo.

 Oi, querida. Mais um dia cansativo no trabalho!

Era o marido de Gabriele.