terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O Corcunda

Corcunda era o apelido autoexplicativo do excêntrico morador da Rua A, número 22. A vizinhança mais antiga já conhecia de muito tempo a história daquele homem, mas os novatos sempre o tomavam por um mendigo ou vagabundo. O número 22 era, na realidade, uma pequena, mas famosa sorveteria, em frente à qual Corcunda sentava-se todos os dias em um banquinho branco por ele próprio trazido.

 Esse rapaz deve ter ficado curvado desse jeito de tanto carregar esse banquinho para cima e para baixo, todo dia  dizia um transeunte.
 É verdade  concordou o amigo.  A prefeitura deveria construir uma cadeira permanente aqui para ele.

Pois bem, era isso. A sorveteria abria às 8 da manhã e, às 7:50, já era possível avistar Corcunda carregando seu banquinho e se sentando ali em frente, na calçada, mas bem encostado à parede, sem atrapalhar o fluxo de pedestres. Às 19:10, dez minutos depois do encerramento das atividades do estabelecimento, Corcunda pegava outra vez o seu banquinho e voltava para a sua casa.

A ideia de instalar permanentemente um banco ali não fora isolada. A associação de moradores chegou mesmo a enviar uma carta à prefeitura, requisitando, formalmente, que tal medida fosse tomada, mas a subsecretaria de obras públicas respondeu, sucintamente, que negaria o pedido, a fim de evitar o incentivo à vagabundagem e à mendicância nas vias públicas da cidade, argumento que revoltou parte da população e ajudou a impedir a reeleição do prefeito.

Como se pode ver, Corcunda era um sujeito querido pela população antiga. Mas os mais novos, assim como, provavelmente, também os leitores dessa história, perguntavam-se o que diabos Corcunda fazia naquele lugar, todo dia, o dia todo. Foram poucos os curiosos que tiveram coragem suficiente para perguntar a ele próprio sobre o mistério (a maioria preferia questionar outros moradores, já conhecedores do caso). Cabe transcrever uma dessas ocasiões, para os leitores entenderem o que prendia Corcunda àquela sorveteria no número 22.

 Senhor, posso te perguntar uma coisa?  Tratava-se de uma moça de seus trinta anos, com umas bochechas redondas e cabelos castanhos claros curtinhos, seguindo o rosto, o que lhe dava um aspecto de bondosa mãe e dona de casa. Corcunda, ao contrário, tinha uns quarenta e cinco anos, rosto comprido e bem branco, queixo pontiagudo, bochechas chupadas e cabelos pretos e oleosos, embora sempre muito bem penteados. Aliás, apesar do aspecto doentio, Corcunda não pecava por falta de vaidade. Estava sempre bem arrumado, perfumado, com os sapatos lustrosos e a barba bem feita. Dizia que tinha que estar sempre preparado, pois, quando o dia, enfim, chegasse, não se anunciaria com antecedência.
 Que dia é esse pelo qual o senhor espera?  perguntou a senhora, depois de Corcunda tê-la autorizado a fazer a pergunta.
 A senhora não é a primeira pessoa curiosa a meu respeito. Acontece que há cerca de 15 anos mantenho essa rotina. Levanto-me às 6:30 da manhã, arrumo-me e venho para a sorveteria, com meu amigo que me acompanhou durante todo esse tempo (a mulher demorou a perceber que o amigo era o banco). Estou aqui todos esses anos esperando por uma pessoa. Não sei quando ela virá. Pode ser hoje, amanhã ou daqui a cinco ou dez anos, mas, um dia, ela virá. 
 Que pessoa? Desculpe se estou sendo indiscreta.
 Indiscreta, a senhora está sendo, é claro. Mas não me ofende, não se preocupe. Trata-se de uma namorada que eu tive. Perdi essa pessoa sem dizer muitas coisas que deveria ter falado. Nunca disse que a amava, nunca disse que queria me casar com ela, ter filhos com ela e ela se foi. Ela se foi sem ouvir nada disso. Não de mim. Deve ter ouvido de outro ou outros, mas nunca de mim. E estou certo de que os meus sentimentos são muito mais intensos do que os desses outros rapazes que já devem ter se declarado para ela.
 Muito bonita a sua história. Mas o que não compreendo é… Por que o senhor a espera aqui, na Rua A? Ela mora por aqui?
 Não faço a mais mínima ideia de onde ela mora. Perdemos completamente o contato e esse é o problema. Ah, se eu soubesse onde ela mora, seu telefone, qualquer indício! Mas não, minha senhora, não sei. Tudo o que tenho dela é uma fotografia, para a qual olho todos os dias, a fim de não me esquecer de sua fisionomia, que era tão bonita! Na verdade, até gosto quando me perguntam sobre minha história, pois posso reviver meu amor, através de palavras. Ah, claro, não te respondi. Por que a Rua A? Ela me dizia que, independentemente do que acontecesse com ela, de onde ela morasse, da profissão que ela exercesse, ela só tinha uma certeza na vida: viria a essa sorveteria.
 Oh! Mas logo a essa sorveteria, numa cidade tão pequena? Digo… Presumo que vocês moravam na capital, não?
 De fato, morávamos. Mas veja, minha senhora, a cidade pode ser pequena, mas a sorveteria é muito famosa, já foi premiada por várias revistas de culinária e é, sem dúvida, um nome de referência não só no estado, mas em todo o país. Veja a senhora quantas pessoas vêm para essa cidade só para experimentar os sabores desse sorvete. E minha amada, como uma autêntica fã de sorvetes, sonhava em vir para cá.

Corcunda contava essa história repetidamente, tanto que se surpreendia sempre que notava que ainda havia pessoas que não a conheciam. As reações dos ouvintes, porém, nem sempre eram as mesmas da bondosa senhora. Alguns o tomavam por louco, outros até o insultavam. Em diversas vezes, diziam-no para procurar outra pessoa.

 Com tanta mulher no mundo!  exclamou uma vez um rapaz.  Por que você tem que se meter logo com uma mulher que sumiu do mapa?
 Porque é ela que eu amo, o que fazer?  respondeu, complacentemente, o Corcunda.
 Mas e se ela nunca aparecer?
 Veja: aparecer, ela vai. Pode estar com outro namorado, casada, com filhos… Pode nem me reconhecer. É possível que ela nem se lembre mais de mim. Sim, eu imagino isso tudo. Eu sei que ela talvez nem se recorde que eu já tenha passado pela vida dela. Mas aparecer, ela vai. Ela disse que viria, ela queria muito vir, portanto tenho certeza de que ela virá.
 Que seja! E se ela, assim como você disse, estiver casada?
 Direi que a amo e falarei sobre todos os anos que passei aqui, esperando por ela. Se ela não me quiser, aí, sim, esqueço-a de vez, como você me sugeriu, e, quem sabe, procuro outra mulher. Mas, até lá, isso é impossível. Preciso dizer tudo o que não disse enquanto namorávamos.

Houve uma situação em que um desses curiosos foi um pouco além no questionamento:

 Ei, me diz: o senhor está esse tempo todo sem transar?

O Corcunda não se intimidou e respondeu tranquilamente:

 Sim, esse tempo todo.

Os anos se passaram e vários falsos alarmes soaram. Por inúmeras vezes, Corcunda pensava ter avistado sua amada entrando na sorveteria, mas, assim que pegava a fotografia para comparar, percebia que não era ela. Ao dono da sorveteria, por sua vez, agradava muito o prolongamento da história, que apenas faziam crescer os boatos acerca do Corcunda e aumentava a fama do estabelecimento. Quando Corcunda completou vinte e cinco anos de espera, o dono resolveu mudar o nome da sorveteria para "O Corcunda", aumentando ainda mais o faturamento.

 Por que o senhor não entra para a nossa igreja?  sugeriu um dia uma freira.  Apenas frequente algumas missas, participe de algumas reuniões. Quem sabe, assim, o senhor não consegue preencher esse vazio da sua existência?
 Até gostaria, para ser sincero. Mas há o inconveniente de a maioria das missas ser aos domingos e a sorveteria só fechar às segundas…
 Então, visite-nos apenas em um domingo e nada mais. Pode ser o suficiente para o senhor conhecer Jesus. E um dia apenas ausente… Seria muita coincidência ela aparecer logo nesse domingo!
 Estou aqui há vinte e cinco anos, sem faltar nenhum dia sequer. Não posso abrir exceções. O grande dia pode ser hoje, amanhã ou no domingo da minha ausência. Não posso.

Um dos temas que mais intrigavam a população era sobre como Corcunda sobrevivia financeiramente. Se fosse um mendigo, tudo bem. Mas ele morava em um apartamento, mantinha gastos mínimos.

 Vai trabalhar e larga de ser vagabundo!  gritavam os mais agressivos.

Corcunda, na verdade, sempre dependeu de favores alheios. No início de sua saga de vigília, atrasou indefinidamente o aluguel, sem ter sido incomodado pelo dono do imóvel, que o tinha por maluco e se compadecia com sua dor. Quando a paciência do locador, por fim, terminou, Corcunda precisou ser recolhido pelo seu vizinho de porta, morando com ele por três anos. Um dia, o vizinho se casou e o espaço passou a ser pequeno demais para os três. Desde então, Corcunda mora em um outro apartamento (tudo no mesmo prédio), bancado pelo dono da sorveteria, que, como já dito, gosta muito da fama que Corcunda proporciona ao local. O empresário, inclusive, banca todas as refeições de Corcunda, em um restaurante próximo, ainda que ele insista em almoçar, no banquinho, a marmita feita com o resto da janta do dia anterior. É para não desgrudar os olhos por nenhum minuto da sorveteria, ele dizia.

Trinta anos se passaram desde o início da saga. Corcunda, agora, tinha já sessenta anos. Alguns moradores resolveram juntar dinheiro e contratar uma prostituta para simular interesse em Corcunda. Era mais uma tentativa de animá-lo a esquecer aquela obstinação. A mulher vestiu-se provocantemente e sentou-se ao lado de Corcunda, perguntando sobre a história de sua vida, como se fosse mais uma curiosa. Dada hora, ela perguntou, maliciosamente, se poderia tentar fazer com que ele se esquecesse de sua antiga amada. Corcunda respondeu que, provavelmente, sim, mas só depois que seu único amor aparecesse, ouvisse todas as suas declarações e dissesse, de forma expressa, que a história dos dois havia terminado. Mesmo com outras investidas, a prostituta falhou.

Agora, trinta e cinco anos se foram e Corcunda somava sessenta e cinco anos de idade. Não dá para dizer que ele parecia jovem e saudável, mas, se considerarmos que, com quarenta anos, ele já possuía um terrível aspecto cadavérico, pode-se afirmar que pouco mudou. O que mais se acentuou, na verdade, foi a curvatura de sua coluna.

 Meu senhor  dizia mais uma moradora da vizinhança , esqueça esse antigo amor. Não se magoe com o que vou dizer, mas e se ela já tiver morrido?
 Sinto que não morreu. Quando ela morrer, eu saberei.
 Mas, Corcunda! O senhor já tem sessenta e tantos anos, logo ela…
 Ela era mais nova do que eu. Está viva, tenho certeza.

Quando Corcunda completou setenta anos, a cidade preparou uma festa de aniversário para ele. Foi coisa grande, até o prefeito compareceu (principalmente por conhecer o fracasso dos mandatários anteriores que demonstraram pouco apreço por Corcunda). A festa, é claro, foi à noite, para Corcunda poder ir. Corcunda, definitivamente, já era um grande ícone da cidade e, agora, quase ninguém ainda tentava demovê-lo da ideia de buscar aquela antiga paixão. Sabiam que, se ele se apaixonasse por outra mulher, o mito teria sua magia quebrada. Melhor seria deixar assim. A exceção, talvez, fosse uma senhora que morava na Rua C, que, diziam, era apaixonada por Corcunda.

 Eu também já tive um grande amor na minha juventude  ela disse, na festa.
 E o que aconteceu?
 Acabou. Mas eu, ao contrário do senhor, não me prendi ao ex-namorado. Toquei minha vida, como deve ser.
 Então, a senhora falou mal: foi paixão. Não amor. Eu não desisto de minha amada.

Em outra ocasião, a senhora da Rua C cochichou no ouvido de Corcunda que o melhor remédio para um amor era outro amor. Corcunda discordou:

 O melhor remédio para um amor, minha senhora, é esse mesmo amor. O resto é anestésico.

Cinquenta anos após o início do cotidiano do banquinho na sorveteria, Corcunda já tinha oitenta de idade. Naquele ano, o inverno havia sido o mais rigoroso da história e Corcunda acabou por se resfriar na rua. A situação logo piorou e evoluiu para uma pneumonia. Ao menos, isso era o que diziam, pois ele nunca foi ao hospital, para não abandonar o posto.

 Vá à noite, então, ao médico, depois do fechamento da sorveteria!  dizia um morador.
 Em hipótese nenhuma. Vai que me internem! Posso acabar perdendo dias inteiros de vigília!

Acontece que a doença piorou e enfraqueceu terrivelmente Corcunda, que começou até mesmo a cochilar no banquinho, fato inédito até então. Teve um dia em que um transeunte se assustou ao ver Corcunda dormindo em serviço  fato inédito  e, temendo por sua morte, foi sacudi-lo.

 Corcunda? Você está bem?
 Estou. Por que não estaria?
 Você estava dormindo, então me preocupei.
 Dormindo, eu? Durante a vigília? Impressão sua! Jamais!

Daí em diante, pode-se presumir a gradativa piora de Corcunda, já velho e enfraquecido. Houve um dia em que, segundo dizem, ele não teve forças nem para voltar para casa, depois que a sorveteria fechou. Dormiu no banquinho, com um péssimo semblante. Teria ainda afirmado que, naquele momento, só tinha energia para um trajeto, casa-sorveteria ou sorveteria-casa, e, pelo bem da vigília, escolheu excluir o segundo e poupar forças para o dia seguinte.

A doença  fosse ela pneumonia ou outra coisa  perdurou por um longo tempo e a vizinhança apenas esperava pela súbita morte de Corcunda. Boatos diziam que o prefeito já havia até encomendado uma estátua do ilustre personagem. Foi quando, um dia, todos acordaram de madrugada com seus gritos. Pensaram ser dor ou algo assim, mas, além de não ser do feitio de Corcunda gritar por dor, eram berros de felicidade. Aos poucos, as pessoas saíam de suas casas e foi-se formando uma pequena multidão em direção ao número 22 da Rua A. 

 O que o Corcunda está fazendo a essa hora na sorveteria?
 São 4 da manhã!
 Aquele louco não voltou para o seu apartamento de novo!
 Ele já não volta há cinco dias!
 Que gritos são esses?

Quando todos chegaram ao local, viram Corcunda ajoelhado, em frente a uma senhora, segurando-lhe fortemente a mão. Ela estava com um aspecto terrivelmente assustado e agora parecia se perguntar por que tanta gente havia aparecido.

 Esperei tanto por você, meu amor!  gritava Corcunda para a velha.  Já posso morrer em paz, agora! Se lembra de mim? Certamente, não!

Corcunda se apresentou, disse de onde conhecia aquela senhora, contou sobre o amor que eles tiveram, citou momentos que passaram juntos, tudo para reavivar a memória daquela senhora, mas esta continuava paralisada de terror.

 Foram anos esperando por você!  gritou Corcunda.  Só queria dizer que te amo, que sempre te amei, só queria dizer o que deveria ter te dito na época, só isso, só isso, nada mais!
 Senhor...  falou, por fim, a velha, vencendo a paralisia.  Desculpe, mas o senhor está me confundindo... Nem mesmo o nome pelo qual o senhor me chamou é o meu.  Ela falava gaguejando e respirando com dificuldades.  Não sei o que dizer, mas nada disso que o senhor narrou condiz com a realidade. Desculpe. Por favor, me solte. Eu não sou a pessoa pela qual você procura.

Corcunda transpareceu o olhar mais triste de toda a história daquela pequena cidade e lágrimas vieram a seus olhos. Por fim, escorreram-lhe pelo rosto. A população ficou atônita. Durante todos esses anos, nenhum morador jamais vira Corcunda chorar. Ao contrário, ele nunca demonstrava ter perdido as esperanças de encontrar sua antiga paixão, sempre evidenciava uma entusiasmada felicidade por ter certeza de que o aguardado dia, sem nenhuma dúvida, chegaria. Apesar de seu aspecto historicamente doentio, sempre pareceu uma pessoa feliz, ainda que agarrada fragilmente a uma única razão para essa felicidade. E nunca chorou, nunca. Mas, agora, lágrimas escorriam com tanta fartura por suas bochechas que alguns moradores choraram também. A senhora, por sua vez, conseguiu se desvencilhar das mãos de Corcunda, agora já frouxas.

Por fim, os joelhos de Corcunda escorregaram e ele caiu. Caiu para nunca mais se levantar.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Compreensão

Nélio tinha a senha 545 na fila para atendimento para renegociar suas dívidas junto a um serviço de proteção ao crédito. O painel que mostrava o número a ser atendido, no momento, ainda não tinha chegado ao 500. Com seus trinta anos recém-completados, Nélio estava sentado em uma cadeira levemente desconfortável, em um grande salão com centenas de pessoas a segurar envelopes pardos e a esperar suas vezes. Pensava nas coisas triviais que todos de sua idade e perfil social costumam pensar. Ao seu lado, sentou uma mulher, mais velha, de um loiro desbotado, aspecto doentio e pesadas olheiras. Ela já veio logo puxando aqueles papos típicos de gente entediada em filas burocráticas:

 Muito poucos guichês de atendimento, né?
 É verdade…
 Cinco atendentes para esse mundaréu de gente!
 Pois é.
 E a gente com tanto o que fazer e tem que perder uma tarde inteira aqui!
 É mesmo.

A mulher suspirou, olhou sua senha, notou que era a número 585, quarenta a mais que Nélio.

 Você ainda vai sair antes de mim…
 É, estou esperando  disse ele, pateticamente. Era claro que estava esperando.
 Nem me apresentei. Me chamo Icleia.
 Nélio.
 Trabalha em quê?
 Lojas Americanas.
 Ah, qual unidade?
 Essa aqui ao lado.
 Tenho uma amiga que trabalha lá… Não sei se você a conhece…

Nessa hora, Nélio notou que, no prédio vizinho, uma mulher dançava para o que ele supunha ser seu namorado ou marido.

 Eu trabalhei por muitos anos no Ponto Frio, mas…  Icleia continuou falando, mas agora Nélio só tinha olhos para o apartamento ao lado. A mulher estava vestindo uma máscara preta carnavalesca, roupas curtas de látex, meias sete-oitavos, cinta-liga e começava a rebolar lentamente em cima da cama, de onde o homem, deitado, pachorrentamente, olhava a namorada, com olhos de profundo orgulho. Nélio, por instantes, considerou a possibilidade de ela ser a amante ou uma prostituta, mas, não se sabe por quê, ele tinha a convicção de que se tratava de um relacionamento que ele chamaria de "correto", não determinando apenas se eram casados ou namorados. Logo, porém, concluiu, pela tenra idade dos dois, que eram apenas namorados  no máximo, noivos.

A garota  agora, era óbvio: ela não tinha mais de vinte e cinco anos  acabara de tirar as meias e jogá-las em cima do parceiro. Tinha um belo corpo moreno, nádegas redondas, coxas firmes, cabelos pretos pela cintura, seios volumosos. Ao lado da cama, em um criado mudo, estava um notebook aberto, provavelmente de onde saía a música, que Nélio adoraria saber qual era. A menina rebolava e se abaixava até o travesseiro, roçando de leve sua virilha no rosto do felizardo namorado, enquanto se tremia no ritmo sensual da melodia. "Que desinibição não fecharem a cortina!", ele pensou, torcendo para que não se lembrassem de que estavam rodeados de prédios comerciais e residenciais, igualmente altos.

 E eu não sei como isso pode ter acontecido…  Icleia falou, trazendo, de súbito, Nélio de volta à realidade.
 Isso o quê? Em que número está?
 Essa desgraça! Não sei como isso pôde acontecer comigo!  Icleia não respondeu à segunda pergunta, mas Nélio viu no painel que ainda estava na senha 520.
 Uma desgraça, realmente  disse Nélio, sem ter noção de que rumo tinha tomado o monólogo de Icleia.
 Não é um horror? Ainda bem que você concorda comigo!  E Icleia desabou a chorar. Nélio ficou aturdido, até porque as pessoas começaram a olhar.
 Calma. Vou pegar um copo de água para a senhora.
 Ah, muito obrigada, mas não me chame de senhora, por favor.

Nélio levantou-se, esticou o corpo, deu uma última espiada para a janela vizinha e viu que a garota agora segurava uma corda, amarrada sob a nuca do namorado, forçando-o a se levantar sempre que ela puxasse o artefato. Nélio tropeçou num carrinho de bebê, pediu desculpas à mãe (que respondeu com um grunhido mal humorado) e caminhou até o galão de água. Encheu um copo de plástico e retornou para junto de Icleia.

 Aqui, senhora. Beba um pouco para se acalmar.
 Não me chame de senhora, já te pedi. Você é meu amigo e amigos se tratam por "você".

Nélio perguntou para si mesmo, sem verbalizar: Amigo?

 Só sei que a vida é uma roda gigante  Icleia continuou  e, se antes eu estava naquela situação que te contei, três meses depois estou aqui, sozinha e tendo que renegociar dívidas.
 Comigo aconteceu algo parecido… Desculpe, qual seu nome mesmo?
 Icleia. O que aconteceu contigo? Ah, como é bom poder ouvir histórias semelhantes às nossas!
 Ah… Não sei se é semelhante à sua…
 Mas me conta, me conta!  Agora, ela tinha parado de chorar, mas ainda tremia muito. Seus olhos doentios, pesados, vermelhos, encaravam afoitamente Nélio.
 Eu…  A garota tinha acabado de tirar o sutiã.  Eu… Eu tinha um emprego bom e fui demitido.
 Ah, não diga! Trabalhava em quê?
 Muito mais, ganhava muito mais.
 Não, eu perguntei que em você trabalhava. Bem, de toda forma, há de convir que minha situação é pior. 

A garota tinha uma pele estonteantemente bronzeada, marcada de biquíni, curvas apaixonantes, batom fortemente vermelho. Vestia apenas a calcinha, agora. 

 …e ele se casou e se mudou para Paris.
 Seu filho?
 Não! Meu filho é o que está preso!
 Seu filho está preso?! Ah, entendi… Seu filho é o que está preso; você acabou de falar. Entendi, entendi. Mas se acalme!  Icleia voltava a tremer, no mesmo instante em que a desconhecida do outro lado da rua também tremia: seu ventre, suas coxas, seu abdômen, tudo tremia no ritmo da música ("Que diabo de música será que está tocando?"). Como para adiar sua completa nudez, ela começou a despir seu namorado, com os pés, depois com as mãos, com a boca…
 Eu não sei se vou suportar, Nélio! Não vou!
 Você tem que ser forte.
 Mas como vou ser forte?  E ela voltou a chorar copiosamente, agora ainda mais alto do que da outra vez.
 Espere um pouco.
 Mas estou esperando a minha vida inteira!
 Não. Quis dizer para você esperar um pouco que já já eu pego mais água para você. Só um minutinho!  A garota simulava a retirada da calcinha, mas voltava, adiando o momento máximo.
 Não precisa, ainda tenho água aqui. Você é muito gentil.
 Cinco quatro cinco!  um funcionário gritava. Icleia cutucou o braço de Nélio:
 Hey, não é seu número?
 Err… Meu número é 545. Digo… Sim, é meu número. Pode ir na minha frente.
 Mas o meu é só o 585!
 Não faz mal. Me dá sua senha.
 Ah, muito obrigada! Você é um anjo que Deus botou na minha vida!
 Ok…

E lá foi Icleia ser atendida, enquanto Nelio ficou com a senha 585, podendo assistir, enfim sossegadamente, ao espetáculo no prédio vizinho. A garota já estava nua ("Perdi!"), seu parceiro também. Ela deslizou a boca para o meio de suas pernas e, pouco depois (para Nélio, um minuto; para a vida real, quase uma hora), o painel anunciava: 585.

Nélio renegociou um desconto de 500 reais em uma dívida que passava dos 3 mil. Satisfeito, pegou o elevador rumo ao térreo, saiu do edifício e, por alguns minutos, ficou parado na rua, em frente ao prédio onde provavelmente o espetáculo ainda se desenrolava. Quem diria que, no meio desse concreto, no centro do caos urbano, envolto ao tédio, à poluição e à desesperança, duas pessoas conseguiriam encontrar a plena felicidade? Se não fecharam a cortina, poderiam ter simplesmente se esquecido de que a cidade é habitada por milhões de indivíduos além deles ou, ao contrário, tinham conhecimento de que seriam espiados, mas queriam cuspir na cara das pessoas o quão miseráveis estas são, em contraste ao nirvana do casal.

 Nélio! Voltei para te ver!

Nélio virou o rosto em câmera lenta, deparando-se com Icleia.

 Já estava longe, mas quis voltar.  Ela sorriu com seus dentes amarelados, que combinavam tristemente com seu loiro desbotado.
 Oi…
 Quer vir à minha casa hoje?  Ela riu um riso afetado, atuando estar envergonhada, levando as mãos ao rosto em um gesto imitado.
 Como?
 Você me fez muito bem. Nunca me senti tão bem quanto contigo. Você tem toda razão: eu tenho que ser forte! Guardei essas palavras comigo.
 Que bom que fiz você se sentir melhor, mas tenho compromisso para hoje à noite.
 Então…  Ela se aproximou de Nélio.  Reprograme seu compromisso.  E ela beijou o canto do lábio dele, em um sensualismo mimetizado. Como uma adolescente ansiosa, levou a mão à virilha de Nélio, apertando o que sentiu estar ereto. Pensou ser essa rigidez por causa dela, ignorando que os pensamentos do rapaz estavam em algum lugar entre o vigésimo e o trigésimo andar do prédio em frente. Nélio, por sua vez, ao sentir o toque, deu dois rápidos passos para trás.
 Estamos no centro da cidade, Icleia! Pelo amor de Deus!
 Está com vergonha?  ela prosseguiu com suas frases copiadas, pseudo-sensuais, com seu sorriso que fracassava na tentativa de ser sexy.

Nélio nunca entendeu por que aceitou. Influência da morena dançarina, talvez. É, só pode ter sido isso. Antes do "sim" definitivo, ainda perguntou:

 E seu marido?

Ela gargalhou, como se ele tivesse feito uma piada, mas não explicou por quê. Ele logo percebeu que ela provavelmente lhe dissera qualquer coisa acerca do esposo  ou que morreu, viajou, divorciaram-se, vai saber! , enquanto ele assistia ao show em janelas vizinhas.

Nélio, portanto, foi à casa de Icleia. Não só naquele dia, mas também em outros. No terceiro encontro, pediu para que ela dançasse para ele. Ela dançou, ela fez strip, ela vestiu as roupas de látex que ele lhe comprara, com meias sete-oitavos, cinta-liga e máscara carnavalesca. Ela era desajeitada demais: nunca conseguiu dançar, jamais rebolou o tanto quanto ele imaginava em seus devaneios com a morena desconhecida, mas Icleia se esforçava. Aos poucos, ela até melhorou, com exceção do chicote, que nunca aprendeu a manusear. A distante vizinha sempre esteve presente em Icleia, arredondando suas nádegas, aumentando e firmando seus seios, embelezando seu rosto, dando vida à sua pele. Icleia, por sua vez, largou os medicamentos psiquiátricos, afastou-se da depressão, vivia feliz. Nunca se sentira tão compreendida em toda a sua vida.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O fim do mundo

Eram sete da noite de uma sexta-feira. Os amigos afrouxavam as gravatas e conversavam animadamente em um dos muitos bares repletos de clientes nas redondezas da Cinelândia. Um misto de estresse do acúmulo de serviço dos cinco dias da semana com alívio pelos dois dias de folga que estavam por vir dava o tom do bate-papo.

– O Vagner é foda – disse um deles, referindo-se em altos brados ao supervisor, de forma, aliás, bastante despudorada, uma vez que o tal do Vagner também frequentava aqueles bares. – O filho da puta chega faltando quinze minutos para o fim do expediente e quer tudo para ontem!

– O Vagner é um filho da puta, mas é justo – respondeu outro colega. – Se você trabalha, você consegue subir naquela porra. Agora, e o Breno? – Breno era o outro supervisor. – Chega todo amigão, com toda aquela simpatia do mundo, mas, na hora que o fogo pega, não defende nenhum funcionário dele. É o único supervisor que eu vejo que bota para foder na própria equipe!

– O Breno é um covarde; quanto a isso, você tem razão. Mas sabe o quê que é o negócio? A merda vem de longe, cara! A merda vem desde o RH, que coloca gente incompetente para dentro, até o zezinho da xerox, que leva uma hora para tirar cópia de um processo de meia dúzia de folhas!

– Epa, epa, epa! – manifestou-se um terceiro colega, que trabalhava no RH. – A merda vem do RH é o cacete! Você já viu como o processo seletivo é feito? Você já viu as ferramentas de que dispomos? A gente tem que preencher três tabelas ridículas para cada candidato e escolher totalmente às cegas o melhor! E você sabe que a palavra final é do Gerson. Nós, no fundo, não escolhemos nada!

– Que Gerson?

– O diretor do RH, né? Está há dez anos na empresa e não sabe quem é o Gerson!

– O que eu sei é que o Vagner é um filho da puta... – disse o primeiro, retomando o assunto inicial. – Como pode, cara? Só promoveu a Luana, da equipe inteirinha!

– E, mesmo assim, porque está comendo...

– Está comendo?

– Ah, no mínimo...

– E eu vou te dizer: somos nós que seguramos a contabilidade daquela bosta. Porque, se fôssemos depender do Departamento de Pessoal, ainda estaríamos naquele moquifo no Chile! – O “Chile” é a Avenida República do Chile, antiga sede da empresa. Tratava-se, de fato, de um espaço bem menor.

– Do Departamento de Pessoal, do Pagamento, da Divisão de Carreiras... É a gente que segura aquela bagaça mesmo!

– E reconhecimento zero!

– Se Deus quiser, no próximo ano vou ser nomeado no ministério e saio dessa vida. – Aqui, um dos colegas referia-se a um concurso público em que tinha sido aprovado.

– Sorte a sua! Eu vou morrer nessa bosta!

– Comodismo... Vai ter um AVC aí e não vai fazer nada para sair dessa merda. Vai ficar sendo cuspido pelo Vagner todo dia!

– Garçom, caralho! Faz meia hora já que estou pedindo outra cerveja!

– Não fala assim com o garçom!

– Ah, vai à merda!

– Depois, reclama quando é humilhado pelo Breno e pelo Vagner... Macaco nunca olha seu rabo, né não?

– Mas eu não presto um serviço de merda, que nem esse bar! Esse e todos os outros, né? Nem adianta procurar outro. O serviço no Rio de Janeiro está cada dia pior!

– No Brasil todo... Fui a Floripa nas férias e está a mesma merda.

– Também, né, podem cagar nos nossos pratos que a gente paga os 10%... Povo acomodado!

– Queria mesmo era sair do Brasil, se você quer saber.

– Ah, se Deus permitisse!

– Já chega! – veio a voz de um velho mal encarado na mesa ao lado. – Já é a segunda vez que escuto meu nome nessa conversa horrorosa de vocês!

– Que nome, vovô?

– Deus! Eu sou Deus! Puta que pariu, vocês me fazem até quebrar o sigilo, mas não aguento mais ver meu nome na boca de qualquer um! Vocês se acham muito importantes, né? Muito importantes! E que chatice! Como são chatos! Não tolero que minhas próprias criações tenham se tornado aberrações do tédio!

E essa foi a história de como se deu o fim do mundo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Poesia ridícula

Escrever poesia é um exercício
contra o incansável vício
de lutar em combate ao ridículo.
É como fazer teatro:
"Respire: um, dois, três, quatro".
O que pode ser mais vexatório
que o resultado final do somatório
de arte e revelação da subjetividade?
Escrever já é ridículo -
seja lá o que for -;
falar de umbigo, alegria e amor,
falar de amigo, nostalgia e dor,
mas poesia é algo ainda mais ridículo,
por ser a expressão exata do ventrículo
que leva todas as emoções ao coração -
e cá estou eu falando de coração:
o que há pior que isso?
Se a metáfora é gasta, é clichê;
o sentimento sempre é demodê.
E se o poeta ainda ousa recitar,
aí o ridículo já vira absurdo
e eu, se sou plateia, aturdo
meu ouvido que, infelizmente, não é surdo
e tem que ouvir as baboseiras de nem sei quem.
Poesia é uma coisa ridícula:
pior que uma carta de amor!
Que se importem os pobres bobalhões,
que não têm suficientes colhões
para mandar tudo isso ao inferno!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

E = mc²

Ela olha a cama da patroa como quem há meses vem maturando uma ideia que lhe parece apenas estúpida. Dizer que se trata de uma atração pelo proibido seria reducionista: mais que isso, é um desejo por outra vivência. Fazer aquilo seria uma transgressão, mas também um segredo particular: não há a menor chance de alguém descobrir. É ainda metade da tarde e a patroa demorará a chegar; a janela que, ademais, pode ser fechada, não dá para outros apartamentos, mas para uma imensidão azul que só depois dos trinta anos de idade ela pôde associar ao mar; não há câmeras, nenhum sistema de monitoramento: tem certeza de que ninguém descobriria, mas e sua consciência? Como lidar com ela? Não sob um ponto de vista ético ou moral, não: sua consciência não pesaria, não é isso. O problema é que ela teria simplesmente vivido aquilo, experimentado aquele sabor que nunca havia sido acessível a seu paladar. Dessa consciência  no sentido de conhecimento, percepção , ela não poderia se livrar. Nunca mais.

Balança a cabeça, em um gesto imitado. Todos sabemos que, para afastar um pensamento, o mero fato de balançar a cabeça não é garantia de nada, mas ela precisa desse ato físico. Balança-a até desarrumar os cabelos, grossos, duros, que só se mexeriam com uma chacoalhada dessas, forte, quase desesperada, cabelos que nada têm a ver com os da patroa, lisos, claros, macios, que se moveriam com a mais leve brisa do mar. Ela troca o jogo de cama, como sempre: a fronha dos travesseiros, os lençóis, as cobertas, a manta que compõe uma linha perpendicular em relação à janela por onde entram os gritos alegres vindos da praia. Ela tenta se focar nesses sons, a fim de afastar de uma vez por todas aquela ideia que não a deixa em paz. Debruça-se no parapeito, pergunta-se curiosamente o que fazem da vida aquelas pessoas que estão a jogar vôlei, correr, andar de bicicleta, em plena tarde de quarta-feira. Não que esteja se comparando com eles; sabe que pertencem a mundos diferentes, que, de grosso modo, podem ser divididos entre eles ricos e ela pobre. Porém somente essa rudimentar explicação não lhe basta: que fazem eles? São estudantes? Bancados pelos pais? Trabalham de casa? Meio período? Autônomos? Que diabo explica que pessoas de diferentes idades estejam ali àquela hora?

Dá as costas à janela, revê a cama e a ideia lhe assalta de novo. Não pode mais resistir. Teve uma pessoa famosa  ela não sabe quem foi Oscar Wilde  que já dissera que a única maneira de vencer uma tentação é cedendo a ela. Embora saiba que, mesmo com a janela aberta, ninguém a veria, tranca-a. Fecha ainda as cortinas e o blecaute. Cerra a porta do quarto, roda a chave, fica na perfeita escuridão, resguarda-se como pode. Ok, não é nada errado. Passou anos trocando cobertas e lençóis daquela cama, já teve por inúmeras vezes contato físico com aquele móvel que tanto fascínio lhe inspira. Agora, dará apenas um passo além nesse trajeto natural, mas, ainda assim, as mãos, os braços e as pernas tremem. Arqueia-se lentamente, é um caminho sem volta, e senta-se na beirada da cama. Tira a sandália, respira fundo e, de uma só vez, para vencer o medo, atira-se para trás e deita-se. Reajeita o corpo, posiciona o travesseiro embaixo da nuca, estica as pernas e sente o contato do colchão em suas costas. Aos poucos, os músculos, tensos, vão relaxando e cedendo ao toque macio do jogo de cama de mais de mil fios. Por lá ela fica, durante vários minutos, sentindo-se transportada e pertencente a um mundo e a uma sociedade que não sabe denominar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Até o dia em que o cão morreu

“Até o dia em que o cão morreu” não está entre os meus livros preferidos, mas está entre aqueles com que mais me identifiquei. Com raras exceções, seu narrador poderia ter sido eu. Qual o sentimento de quando se lê algo tão próximo do que você próprio é?


Você já deve ter passado por isso: cursou uma faculdade, se formou, saiu ou quis sair de casa, morar sozinho, mas, para isso, deveria prosseguir com o fluxo natural das coisas, isto é: trabalhar. Você tinha conhecimentos e habilidades para conseguir um trabalho, mas você não queria. Trabalhar é sempre um esforço que se faz para os outros, raramente é por uma causa que te diga respeito. Você só escolhe trabalhar porque isso é pré-requisito para algo que realmente te importa: morar sozinho, sua liberdade.

Você já deve ter ficado ansioso, agitado, ausente da sua zona de conforto, porque algo te retirou daquele cotidiano em que nada acontecia, da mesmice de todos os dias. Mas essa agitação, ao contrário do que pode acontecer com muitas pessoas, não te faz feliz. O que você mais queria era sua apatia de volta. Do mesmo modo, você já deve ter gostado muito de uma pessoa, mas não queria oficializar nenhum relacionamento, justamente porque esse compromisso seria um eterno adeus àquele estado apático que você tanto amava. Um namoro seria ceder a uma infinita ansiedade, pela qual você não estava preparado e que, definitivamente, você não desejava.

Você já deve ter passado horas na janela do seu apartamento, vendo uma paisagem feia, telhados sujos, carros numa velocidade estúpida. Você já deve ter pensado que isso era solidão, que você precisava de uma companhia, mas que, afinal de contas, era melhor ficar sozinho mesmo. Solitário, apático e inerte: assim, você estava feliz. Do mesmo modo, você andava pela rua sem rumo, somente porque não queria voltar para casa, estando feliz com seus próprios pensamentos e com suas pernas que te guiavam sabe-se lá para onde.

Se você está pensando que não, que nunca passou por isso, que eu sou um doido, talvez não vá gostar de "Até o dia em que o cão morreu" (adaptado para os cinemas com o título "Cão sem dono), romance do brasileiro Daniel Galera, 35 anos, que o publicou quando ainda tinha vinte e poucos, o que, por si só, já salta aos olhos. No meio literário, constituído por velhos e mortos, ler uma obra-prima de um garoto desses é um sopro na alma.

………

Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em novembro de 2014. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Brincadeira de mau gosto

– Que brincadeira de mau gosto! – foi o que Marcio ouviu de seu amigo, ao contar-lhe a peça que planejava pregar em sua esposa naquela noite. Como ele saía mais cedo do que ela do trabalho e, por isso, chegava antes em casa, pretendia sujar-se de ketchup e esperá-la deitado no chão, fingindo-se de morto e ensanguentado.

– É uma brincadeira de mau gosto! – repetiu o amigo. – Imagina o susto que ela vai tomar! Pode até pôr em risco a saúde da coitada!

– Mas é rápido! – respondeu Marcio. – Logo depois do susto, eu me levanto e revelo a pegadinha. Mas o mais importante é que ela pense que eu não estou apenas desacordado, mas efetivamente morto.

– Que estupidez! E como pretende isso?

– Ah, tenho praticado apneia voluntária em minhas aulas de mergulho. Trata-se, você sabe, da técnica de prender a respiração. Já consigo ficar dois minutos sem respirar e acho que ainda posso evoluir. Mas dois minutos já me bastam. São suficientes para o susto que ela vai tomar. Depois, me levanto, abraço ela e vamos rir juntos da situação.

Enquanto Marcio ria, imaginando a cena, seu amigo balançava a cabeça, em gesto de reprovação.

A noite chegou e Marcio já estava em casa, pintando-se de ketchup e estirando-se no chão, bem perto da porta da entrada, à espera de sua esposa, que deveria chegar dentro de dez minutos, aproximadamente. Quando ouviu, por fim, o portão da garagem de casa se abrir, fechou os olhos e, quando o carro da mulher estacionou, tomou fôlego e prendeu a respiração. Nenhum músculo de seu abdômen se movia. Estava completamente imóvel.

Ao abrir a porta de casa, sua esposa não conteve um grito agudo e prolongado. Marcio sentiu vontade de rir, mas se dominou. Continuava perfeitamente inerte.

– Meu Deus! Meu Deus! – exclamou a mulher, histericamente.

Marcio, somente nesse momento, temeu que estivesse passando dos limites naquela brincadeira e lembrou-se das palavras apreensivas de seu amigo. Mas, como já havia iniciado a anedota, pretendia continuar mais um pouco com a farsa. Só mais um pouco. Em alguns segundos, revelaria a simulação, embora ainda aguentasse ficar sem respirar por muito mais tempo.

Marcio, então, ouviu a mulher mexer apressadamente em sua bolsa, deixando cair vários objetos, até alcançar o celular.

– Alô! Alô! – gritou ela. – Amor, amor, você não vai acreditar! O Marcio morreu! É, é, é, amor, é isso mesmo o que você ouviu! O Marcio morreu! Acabou o nosso esconderijo! Eu nem estou acreditando! Vem logo para cá para a gente comemorar!

E Marcio permaneceu imóvel.

sábado, 1 de novembro de 2014

O conto do esquecimento do riso

Esse blog sofreu um baque de realidade, com meu diário sobre a Coreia do Norte. Para retomar o seguro campo da literatura, vou contar a história do garçom Alencar. Quando foi chamado na sala do gerente do restaurante, ele pensava que lhe seria oferecida uma promoção. Trabalhava naquele estabelecimento já havia algum tempo e nenhuma razão lhe fazia crer que seria repreendido pelo chefe. Entretanto, ao entrar, notou um mau semblante nos olhos do empregador.

 Bom dia, senhor.
 Bom dia, Alencar. Por favor, sente-se.

Hesitante, Alencar se sentou numa cadeira desconfortável, embora bonita, em frente ao gerente, dele separado por uma mesa entulhada de planilhas e papéis.

 Alencar, te chamo aqui porque tenho recebido algumas reclamações quanto ao seu tratamento para com os clientes.

Alencar olhou o outro como se não acreditasse no que estava ouvindo, arregalando levemente os olhos.

 Você sabe, Alencar, que você é um dos funcionários mais pontuais e assíduos desse estabelecimento, mas esses não são os únicos fatores envolvidos numa avaliação. É, portanto, com pesar que te comunico que não poderemos mais contar com os seus serviços.

Alencar sentiu um forte bater do coração e tentou, com a voz desequilibrada, responder:

 Mas, senhor... Deve haver algum engano. Sempre trato os clientes com a máxima cordialidade, com o maior respeito possível...
 Não são as informações que tenho, infelizmente.
 Senhor, insisto que deve haver algum engano!
 Alencar, veja bem: reclamações isoladas, todos os outros funcionários têm. O problema é que, com relação a você, o número de queixas foi muito alto. Foram vários os clientes que reclamaram da mesma coisa.
 Mas como isso é possível? Estou sempre a sorrir para os fregueses!
 Ah, sim, isso eles disseram. Todos falaram que você já chega em suas mesas sorrindo, antes mesmo de perguntar qual pedido eles desejam.
 Pois e então?
 Como “e então”? O problema é justamente esse, Alencar. Por que razão vocês lhes chega sorrindo?
 Para ser simpático, para ser agradável! Quem não gosta de sorrisos?
 Quem gosta deles?

Alencar abriu a boca, maquinalmente, para responder ao gerente, mas não pôde. Não sabia o que dizer. Conseguiu apenas balbuciar:

 Que pessoas são essas que não gostam de sorrisos?
 Alencar, meu caro, essas pessoas não desgostam de sorrisos. O que lhes aborrece são os sorrisos falsos. Por que você chega à mesa sorrindo? Para ser agradável, você responde. Mas isso em nada é agradável. O sorriso pelo sorriso, sem vontade de sorrir, não apenas é desagradável como é ofensivo. Se você visse graça em alguma coisa, se algo lhe despertasse o riso ou se – essas ocasiões são raras, mas existem – você estivesse tão feliz que não conseguisse conter o riso, tudo bem, esse sorriso é aceitável e, mais do que isso, é elogiável. É contagiante, até! Mas sabemos que não é o caso. Você não chega numa mesa sorrindo porque está imensamente feliz – ao menos, não todos os dias. E tampouco há coisas engraçadas que te façam rir tanto. Se, ao menos, você olhasse para o cliente e risse da orelha de abano, do nariz avantajado ou da cara feia daquele que está sentado, da mulher horrorosa que acompanha o homem ou vice-versa, estou certo de que ninguém se sentiria insultado. Você pode rir diretamente de alguém, mas rir com gosto, com sinceridade. Já esse sorriso forçado, quase condescendente, irrita e ofende. É como abrir uma revista e ver falsos sorrisos estampados em modelos, pessoas em festas, gente que está apenas posando para aquele clique. Por que elas riem? Todos sabemos que, logo após o flash da câmera estourar, o sorriso desaparece. Da mesma forma, qualquer cliente tem a certeza de que, assim que você dá as costas com os pedidos anotados, seu sorriso também some. Então, por que rir? Para ser agradável? Não, você ri para forçar uma simpatia que não é natural. Você ofende os clientes.

Alencar ficou estupefato com aquele longo discurso. Levantou-se da cadeira e emitiu um breve sorriso para o chefe.

 Não ria, Alencar! – esbravejou o gerente. – Você não ouviu nada do que eu falei? Você não está feliz. Ao contrário, você está triste porque acabou de perder o emprego! Você não está vendo nada engraçado. Então, para que rir?
 Para mostrar que não estou chateado com o senhor...
 Alencar, você vai mostrar melhor isso se seguir meus conselhos. Em futuros empregos e na vida. Não ria sem vontade, Alencar. O riso não serve para mostrar nada. O riso não é o meio, ele é o fim.

Encucado com essa última frase, Alencar foi-se embora, sem mais proferir nenhuma palavra nem olhar para o gerente. Despediu-se rapidamente dos colegas com quem encontrou pelo caminho e seguiu para casa. Mas não iria diretamente. Não tinha coragem de contar a notícia para a esposa. Preferiu perambular por algum tempo pela cidade.

Logo de cara, viu um palhaço na praça do centro do bairro, fazendo malabarismos e, posteriormente, passando um chapéu para recolher dinheiro. Teve vontade de pagar algo àquele pobre infeliz, mas, como estava agora desempregado, preferiu não. Logo após a primeira rodada de malabarismos e a passada de chapéu, o palhaço voltou a fazer novas graças. Chamou uma menininha que estava por perto para o meio da praça e ficou a fazer caretas para ela. A cada reação da criança, a plateia em volta gargalhava. Alencar olhou estupefato para aquilo. No fundo, não havia graça nenhuma. Que havia de risível numa criança que se espanta com as caretas de um palhaço? Em outros tempos, riria, para mostrar ao palhaço que entendia o trabalho dele e que sabia que aquilo, supostamente, era ou deveria ser engraçado. Mas não era. E não podia tratar o riso como um meio. O riso é o fim.

Lutando contra o tumulto, virou-se de costas para o espetáculo circense e caminhou um pouco mais. Por onde passava, via risos, mas sabia que ninguém estava feliz de estar lá, no sol do meio da tarde, em um dos bairros mais agitados, quentes e poluídos da cidade. Então, por que riam? Numa loja, a imagem de uma modelo sorridente anunciava a marca de um sapato; na porta da loja em frente, um vendedor sorria e chamava os clientes para adentrarem; na outra calçada, uma mulher, com uniforme de um banco, ria e perguntava quem desejava contrair um empréstimo pelos menores juros do mercado; o camelô ria; o vendedor de bala gritava “dez por um real”, também com um sorriso, e, por fim, o caso mais trágico: uma senhora havia posto algumas mercadorias de artesanato numa toalha e as expunha no chão da rua, que, por ser muito estreita, era parcialmente bloqueada pelos produtos da vendedora. Com isso, transeuntes mais apressados cortavam as pessoas à sua frente passando por cima da toalha e, ocasionalmente, chutando alguma mercadoria. Mas Alencar não podia crer: a vendedora ria!

Nem todos esses risos eram tão explícitos – tampouco contínuos –, mas eram suficientemente denunciadores da farsa que era tudo aquilo. Não havia por que rirem nem por um segundo, no meio daquele caos devastador. Alencar se sentia exatamente como os fregueses que o denunciaram: ofendido com sorrisos tão forçados, tão falsos, os quais ele nunca havia reparado. Mas nem todos sorriam: as crianças não riam, os mendigos não riam, os senhores aposentados não riam. Só não sorriam aqueles que não precisavam, a princípio, agradar a ninguém. Por outro lado, quase todos os que riam trabalhavam com o comércio.

O que eram esses risos, então, senão frutos da necessidade de lucro? Alencar não podia conceber que o sorriso fosse uma mera invenção capitalista e, mais atordoado do que nunca, resolveu, enfim, voltar para casa. No caminho, seu celular tocou e, no outro lado da linha, estava uma atendente de telemarketing, anunciando algum produto telefônico. Ele não podia vê-la, mas sentiu o sorriso falso pelo mero tom de sua voz. Seu simples “bom dia” denunciava um sorriso inconsistente e forçado. Alencar não apenas não comprou o produto como desligou o celular atonitamente.

Chegou em casa e seu filho, de uns sete anos de idade, veio recebê-lo. O garoto sorria e abraçava o pai, mas Alencar, que sempre esteve certo de que o filho ficava efetivamente feliz quando ele voltava do trabalho, agora já não tinha mais certeza. Até que ponto o menino tinha sido treinado para isso? Logo atrás, veio a esposa, com o mesmo sorriso, o mesmo abraço, o mesmo gesto. Alencar pensou ter desvendado o segredo: a mãe treinara o garoto para ser mais um portador do falso sorriso. No caso deles, era tudo pior, pois não trabalhavam com comércio, não visavam ao lucro, mas usavam o falso sorriso como meio para demonstrarem um afeto inexistente. Não duvidava do amor dos dois nem nada disso. Sabia que ambos o amavam, mas quem fica tão feliz – a ponto de rir! – quando o pai ou o esposo volta do trabalho? Um dia ou outro, vá lá – mas sempre? O sorriso havia sido transformado num triste ritual familiar do qual o próprio Alencar fizera parte por anos. Mas, dessa vez, não. Dessa vez, não retribuiu o gesto. Quando os dois indagaram por que Alencar respondia com taciturnidade àqueles sorrisos, ele usou a demissão do emprego como desculpa para a sua infelicidade e, portanto, para a ausência de riso. Mas não estava exatamente infeliz. Estava descontente, é claro, mas o sentimento prevalecente não era esse, mas, sim, o de descoberta. É verdade que esta revelação ocorreu de forma dolorosa, mas, pelo menos, agora, Alencar é consciente da farsa do sorriso. E repetia para si mesmo que o riso não deve ser um meio, mas o fim.
       
Alencar nunca mais sorriu de novo.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Diário da Coreia do Norte - parte 4 (final)

30/09/14

Hoje, no clube diplomático, recebi uma massagem muito boa, que durou uma hora e quarenta e cinco minutos. Nunca recebi uma massagem tão longa. 13 euros, quero voltar lá. Massagem é coisa boa demais e os coreanos têm tradição de serem talentosos nisso (e são mesmo). Mais tarde, fui almoçar no Girassol, o segundo melhor restaurante ao qual fui aqui, atrás apenas daquele no Potogang Hotel. Talvez, até o fim da viagem, esse ranking se altere. Em ambos os restaurantes, que não são tão baratos se comparados com outros, veem-se não só estrangeiros como também coreanos, uns, inclusive, fumando. Aqui, é permitido fumar em ambientes fechados, o que às vezes dá no saco, especialmente em restaurantes. Outro curioso hábito vem dos garçons: eles te entregam o cardápio e ficam parados ao seu lado, em vez de irem dar uma voltinha enquanto você escolhe os pratos. Rola uma pressão psicológica para você escolher logo!

Esse restaurante tem um monte de opções esquisitas, sendo uma delas sopa de pombo. Só depois de ler esse prato fui me dar conta de que tem pombos em Pyongyang. É engraçado isso, mas ainda não os tinha percebido, enquanto que, em qualquer cidade do mundo, eles se mostram notáveis logo à primeira olhada. Essas curiosas aves urbanas, que provavelmente morreriam se soltas numa floresta, estão até em Pyongyang, embora menos abundantemente. Acho que, se um dia as Coreias ou quaisquer outros países se destruírem com armamento nuclear, não são as baratas, ao contrário do que preza o imaginário popular, que se salvarão, mas esses onipresentes pombos.

Após o almoço, Luiza passou numa loja de cosméticos. Ela disse que tem vários produtos de luxo lá, desses que são encontrados em lojas caras de Nova Iorque, Paris... Não me perguntem os nomes, porque só recentemente fui descobrir que Seda é considerada uma marca ruim, mas são produtos que só a elite brasileira compra, não sendo para o bico nem da nossa classe média. E não pensem que era loja de gringo, não. Tinha muitos norte-coreanos por lá.


01/10/14

Muitas das notícias sobre a Coreia do Norte vêm da Coreia do Sul. E a Coreia do Sul é meio sem noção. Exemplo: lembram-se de que falei que o wi-fi havia sido quase que proibido nas embaixadas, porque alguns norte-coreanos estavam se posicionando ao lado dos prédios para pegarem o sinal? Pois bem, baseada nessa informação, a imprensa sul-coreana está a noticiar que os preços de aluguel dos imóveis que cercam as embaixadas estão em contínua ascensão. Mas todos aqueles prédios são disponibilizados pelo governo para estrangeiros, que, de qualquer forma, já têm acesso à internet; não há nenhum norte-coreano morando lá. E, ainda que tivesse, norte-coreano não paga aluguel. Depois que ele se casa e sai da casa dos pais, ele pede ao governo uma casa para morar, que lhe é cedida gratuitamente, embora ele pague uma pequena taxa de luz, coleta de lixo etc. Onde será essa residência é da escolha do partido, mas o empregador pode, por exemplo, pedir ao governo para que seu empregado more perto do local de trabalho.

Hoje, foi à embaixada brasileira um “técnico em ondas”, dizendo que haviam detectado sinal de wi-fi vindo do nosso prédio. Acho que tinha um notebook ligado, que, após a repreensão, foi devidamente desativado. O wi-fi, mesmo com senha, tem que ser bem fraquinho, restrito à residência do embaixador.

As guardinhas de trânsito estão com uniforme de inverno! Mudaram hoje. Agora, é uma roupinha azul. Continuam elegantes, porém. Vi vendendo, no Monte Myohyang, uma bonequinha de guarda de trânsito. Deveria ter comprado. É uma das coisas mais características de Pyongyang.

Quando eu estava entrando no elevador do hotel, tinha uma funcionária saindo, com um daqueles carrinhos onde se põem várias malas, e outro empregado entrando, com o mesmo equipamento. Eles se enrolaram na manobra, principalmente porque o elevador não tem sensor, portanto abre e fecha na velocidade da luz. Ajudei-os e, quando enfim entrei, o funcionário falou qualquer coisa que nem sei se foi em inglês ou em coreano, mas acho que ficou um pouco encabulado por ter sido ajudado por um estrangeiro. Quando toquei meu andar no painel, ele perguntou se eu era do Brasil. É muito estranho isso: eles conhecem todo mundo de cor no hotel. Quando eu chego ao restaurante daqui, já tem separada uma mesa de três lugares para mim, Luiza e Leonel, os brasileiros. A propósito, logo nos primeiros dias, quando estava indo ao segundo andar desse restaurante, eles me encaminharam para o terceiro. No segundo, eu não posso entrar porque sou brasileiro e brasileiro fica no terceiro, mesmo andar onde encontrei os portugueses, alguns africanos, muitos chineses... Aí, pronto: fiquei curioso para saber quem vai para o segundo andar e por que essa divisão é feita. Será que para o segundo vão os russos? Ainda não vi ninguém da Rússia no hotel (ao menos, não daqueles com um crachá: “oi, sou russo”) e deve ter muitos russos por aqui... Ou será que para lá vão os próprios norte-coreanos? É possível também que para o segundo andar vão os americanos e os japoneses, para o caso de, acidentalmente, algumas mesas pegarem fogo ou coisa assim...

Ao longo das paredes do restaurante (estou a falar do restaurante principal, porque tem vários dentro do hotel), há várias portas, quase sempre fechadas. Vez ou outra elas se abrem e entra uma princesinha (cada andar do restaurante tem uma princesa recepcionista), além de garçons com várias bandejas de comida. O que estará rolando lá dentro? Uma reunião do partido? Estará ali o grande líder? Pô, antes de voltar ao Brasil, eu ainda quero ver o Kim Jong-Un (sei lá por que estava escrevendo os nomes dos líderes em minúsculo, colocando só o “Kim” em maiúsculo. Que falta de respeito!). Tomara que Deus, digo, Stalin, digo, sei lá quem, ajude o presidente a se recuperar logo de seu problema de saúde!

A graça de ficar na Coreia do Norte é que você levanta várias teorias absurdas. O Koryo Hotel tem muitas salas que estão sempre fechadas, mesmo fora dos restaurantes. Uma delas, em um dos muitos corredores, um dia estava aberta e nela, eu notei uma TV, um computador e um sofá. Pronto, começaram as teorias: eles estão ali a vigiar todos os hóspedes, dia e noite, a receber as imagens das câmeras escondidas atrás dos espelhos que estão em cada quarto do hotel!

Viajar para a Coreia do Norte é viajar na batatinha.


02/10/14

Ontem, a fim de um prato mais ocidental, jantei em um gostoso restaurante italiano (sim, eles existem!). Pedi uma pizza, mas vou voltar lá para comer minha favorita massa à carbonara.

A Coreia do Sul é o país que mais consome pimenta no mundo, ultrapassando até mesmo o México. Eu, que gosto de pimenta, lamentava que, no norte, os pratos fossem menos picantes. Descobri: eles deixam as comidas menos apimentadas porque elas não costumam satisfazer o paladar do estrangeiro. Você tem que especificar para o garçom que quer seu pedido com pimenta. Ele vai te olhar desconfiado. Reitere: sim, com pimenta, como se fosse para vocês. Ele vai continuar sem acreditar. Você enfatiza: com pimenta, não se preocupe com meu cu que disso trato eu, com pimenta! (Ok, não fale isso, mas enfatize seu desejo pelo prato apimentado. Se o inglês dele permitir tal troca de diálogo, é claro.)

A Coreia do Norte venceu o Japão no vôlei feminino dos Jogos Asiáticos, que estão sendo disputados na Coreia do Sul. O avião que levou os atletas do norte para o sul foi o primeiro, em muitos anos, a atravessar a fronteira mais militarizada do mundo, que tem a irônica nomenclatura de Zona Desmilitarizada (queria até fazer um passeio para lá, mas, além de custar 350 euros, tem que pedir autorização com um mês de antecedência). A partida não foi televisionada ao vivo, mas algumas horas depois, afinal a vitória já havia sido consolidada e o povo poderia se orgulhar de seu país. Pobres norte-coreanos: nunca saberão a emocionante experiência de ver ao vivo seu time perder de 7 a 1...

Queria ter assistido a PSG e Barcelona, deve ter sido um jogão. Sinto falta dos jogos de futebol. Nem os gols eu posso ver, porque nem pensar que youtube carrega na internet da embaixada. Apesar disso, a solidão daqui é agradável, isso é quase um retiro espiritual. E olhem que tenho BBC e outros canais estrangeiros no hotel (além da internet, que é ruim, mas está lá); imaginem o isolamento do cidadão local (se bem que não sei se ele entende que está isolado...). Para combater esse cárcere psicológico, a comunidade estrangeira de Pyongyang está o tempo todo a promover eventos.

Repito que gosto dessa solidão, mas isso é só porque sei que não fico aqui por mais do que um mês. A baixa expectativa também contribui para esses sentimentos positivos quanto ao país. Talvez, se eu não soubesse nada da Coreia do Norte, não fosse gostar daqui, mas o que chega para nós é que se trata de algo tão ruim que, depois que você chega com um pé atrás, acaba por perceber que as coisas não são tão sombrias quanto se pinta (ao menos, não hoje em dia).

É sempre bom frisar que as coisas estão mudando. Há cinco anos, ninguém do Brasil vinha para cá. Hoje, visitam a Coreia do Norte, em média, anualmente, entre 20 e 30 brasileiros, um número bem superior às minhas expectativas.

Uma coisa que salta aos olhos em Pyongyang são os muros limpos. Não há nenhuma pichação, algo que eu nunca vi em nenhuma cidade! Nenhum CV, é nóis, fora ditadura, PT traidor, nada!


03/10/14


Hoje fez um daqueles dias de que tanto gosto, que são meus preferidos: frio e céu azul, combinação inimaginável no Rio e que só na seca de Brasília fui descobrir ser possível. Nesse belo dia, fomos ao Estúdio de Arte Mansudae, onde são exibidas pinturas e esculturas de diversos artistas norte-coreanos. Estão trabalhando no estúdio 700 artistas e 4000 empregados. Era possível visitar os ateliês, com exceção de um, em frente de cuja porta estavam alguns militares com armas em punho. Tratava-se do local onde eram pintados os retratos dos líderes. Possivelmente, eles não querem que o visitante infiel veja os erros que os pintores cometem, tipo deixando um presidente mais orelhudo, outro mais narigudo... Deve ser uma responsabilidade enorme pintar os quadros desses caras, além de uma tarefa um tanto quanto ingrata. Isso na minha perspectiva, é claro, mas, para eles, deve ser o reconhecimento máximo de seus talentos, uma vez que só os melhores são selecionados para esse nobre dever cívico.

O trânsito de Pyongyang hoje estava ao estilo metrópole brasileira, tudo parado. Tinha algo a ver com a vitória do vôlei feminino sobre o Japão. Acho que estavam recepcionando as meninas, que tinham voltado para casa. Já no futebol masculino, eles não tiveram a mesma sorte. A Coreia do Norte perdeu para a Coreia do Sul (que jogo, hein!) por 1 a 0. E verdade seja dita: a derrota foi, sim, noticiada.

Tem um garçom aqui no hotel que tem toda, mas a toda a pinta de ser gay! Coitado, nunca vai poder sair do armário... A propósito, termino o relato do dia com uma informação de relevante utilidade pública: vi uma garçonete com o sugestivo nome de He Un Bok.


04/10/14

Meu prato coreano preferido é bibimbap. Ponham no Google. É mesmo muito bom.

Comentário de um norte-coreano, depois de ver Tropa de Elite: “Como vocês deixam um filme retratar o país de vocês desse jeito?”. 

Por aqui, são comuns arranha-céus sem elevadores. Ouvi sobre uma norte-coreana que tem que subir de escada os 49 andares de seu prédio. Imaginem para carregar compras, que beleza. O país quer se mostrar grande, moderno, com prédios altos, mas às vezes falta a simples eletricidade para manter um elevador.

Ao lado do Koryo Hotel, tem uma loja que vende selos e pinturas socialistas, das que se veem espalhadas pelas ruas. Comprei algumas. É um lugar amplo, bem organizado, com várias opções. Bem diferente das lojinhas, em outras cidades a que já fui, que vendem selos e coisas do tipo.

Esse pessoal não se cansa de ouvir Moranbong? Só toca isso, o tempo todo, que horror!


05/10/14

Fomos almoçar em um restaurante japonês (é, eles também existem!), que estava lotado, como ficam os restaurantes brasileiros nos almoços de domingo. E não era o restaurante mais barato da cidade. A classe média emergente coreana está bombando! (Digo... melhor não falar em nada “bombando” por aqui...)

Entramos na fila de espera e, passado um tempo, uma atendente veio nos conduzir para outro lugar, fora do estabelecimento. Pensei: pô, conseguiram uma mesa para nós em outro prédio, que curioso. Mas, não. Com a maior boa vontade, ela apenas nos levou para outro restaurante, que não tinha nada a ver com aquele onde estávamos. Acho que ela não percebe a lógica da fila de espera: se eu estou aguardando por uma vaga naquele restaurante, é porque não quero qualquer comida, eu quero ir é ali. Tadinha, e ela fez para ajudar mesmo. Surrealidades norte-coreanas.

À noite, fomos jogar boliche no Yanggakdo Hotel, com um pessoal do Nepal, Camboja, Holanda, Austrália... O australiano disse algo interessante: “Quando eu contava para meus amigos que viria para a Coreia do Norte, todos diziam que eu provavelmente receberia muito dinheiro. Mas essa é uma experiência e tanto; eu poderia vir de graça, em um intercâmbio. Tanto é verdade que, para vir, larguei um emprego que me pagava muito bem”. 

Depois, jantamos, no mesmo hotel, em um restaurante chinês. Estava gostosinha a comida. Na TV, passavam notícias do mundo, incluindo um discurso da Dilma e gols do Real Madrid. Depois, mencionaram alguma coisa que tinha a ver com EUA, Facebook e crimes... Em coreano, não entendi nada, mas juntei os pontinhos e concluí que alguém matou alguém nos Estados Unidos, após terem se conhecido pelo Facebook. Fiquei surpreso que tenham mencionado a existência do Facebook, mas é sempre com esse intuito de mostrar o que nele há de ruim, da mesma forma que fazem com EUA, Japão, Coreia do Sul... Numa revista daqui, tinha uma seção: “Notícias do Sul”. Lá, tinha apenas uma matéria, falando sobre manifestações de estudantes em Seul, insatisfeitos com qualquer coisa. Nunca, nunca falam nada de bom dos inimigos. Exatamente como fazem com eles, a propósito. Ou alguém já viu alguma notícia positiva da Coreia do Norte?


06/10/14

Além da música de terror japonês que é ouvida por toda Pyongyang nas horas redondas, às 7 da manhã toca uma sirene medonha. Nem sempre eu ouço, por causa das janelas acústicas do hotel, mas um desavisado, sendo acordado com esse som estrondoso, pode facilmente achar que a guerra começou.

Os postes já estão cheios de bandeiras do país, para os preparativos para o próximo dia 10, feriado nacional, data da criação do partido.

Constatação do dia-a-dia: na Coreia do Norte, faxineira usa salto alto.


07/10/14

A pizzaria onde comi hoje é uma das melhores a que já fui. É perto do rio, não muito longe do Koryo Hotel, não deixa nada a desejar em relação às pizzas que comi na Itália. Digo mais: é melhor.

Tem uma funcionária de um outro restaurante ao qual normalmente vou que às vezes fica anotando alguma coisa, puxa muito papo com os estrangeiros e tal. Hoje, veio a confirmação: ela traça um perfil de cada um e, depois, sabe-se lá para quem ela o repassa. É... Nem toda teoria da conspiração é infundada.

Aliás, uma história boa: um estrangeiro, muito jovem, convidou uma coreana para sair. Ela, que gostava dele, aceitou. Quando ele chegou para buscá-la, ela, chorando, entregou-lhe um ursinho de pelúcia, desculpando-se por não poder mais vê-lo. Provavelmente ela, muito nova, não sabia que era proibido sair com alguém que não fosse coreano e, inocentemente, deu-lhe um ursinho como pedido de desculpas. Uma história de namoro de crianças, só que com adolescentes e adultos.

Outra história. Na verdade, outras, no plural, essas contadas por um raro sujeito que chegou em Pyongyang a negócios. Ele aprendeu que: 1) teria que ensinar aos norte-coreanos para que serve dinheiro. Quando ele dizia que veio para cá para ganhar dinheiro, eles não compreendiam, dizendo que isso não serve para nada (confesso que, quando ele me contou isso, eu até simpatizei com os coreanos); 2) ele não podia usar a palavra “profit” (lucro), termo capitalista, mas “plus”, que tinha um quê mais socialista, embora ele quisesse dizer a mesma coisa; 3) uma tática que ele usou para incentivar os coreanos a fazer um bom serviço era dizer que ele veio para cá para fazer determinada coisa, porque esta não podia ser feita nos EUA, que americano não sabia fazê-la, mas norte-coreano, sim. O resultado saía exatamente como ele esperava.


08/10/14

O governo norte-coreano está promovendo uns jogos esportivos para a comunidade estrangeira de Pyongyang. Ontem, em um time formado por mim e mais quatro norte-coreanos que trabalham em embaixadas e outras representações, tomamos uma lavada da Rússia, no basquete. Hoje, foi a vez do futebol e eu joguei com o uniforme comprado da seleção norte-coreana, causando muita comoção (e risos) dos transeuntes, especialmente as crianças. No nosso time, tinha gente de tudo que é canto do mundo. No primeiro jogo, vencemos uma equipe formada por norte-coreanos que trabalham em organismos internacionais. Depois de um 0 a 0 no tempo normal, vencemos por 4 a 1 nos pênaltis. À tarde, jogamos contra os chineses e ganhamos de 3 a 1. No domingo, faremos a final contra a Rússia.

Aqui, o ano não é medido desde o surgimento de Jesus Cristo, mas, sim, a partir do nascimento de Kim Il-Sung. Chama-se de “ano Juche”, em referência à ideologia criada por ele. Assim, não estamos em 2014, mas no ano 103 Juche.

Esqueci-me de contar (conforme vou me lembrando das coisas, vou falando, ainda que fora de ordem cronológica): durante a viagem ao Monte Paektu, no avião, ficavam passando uns vídeos infantis bizarros, com todo o tipo de esquisitice asiática ao qual já estamos acostumados. O toque norte-coreano da história foi um trecho em que uns menininhos bem pequenos (de 2 anos de idade) brincavam de matar um soldado com um capacete em que se lia: USA.

Outra coisa de que me lembrei agora: na nossa visita ao templo budista do Monte Myohyang, nos mostraram uma torre, em que havia seis colunas com três sininhos cada. O guia falou que aquela torre simbolizava a inteligência de algum presidente antigo, não sei se o Il-Sung ou o Jong-Il. Há alguns anos, as pessoas queriam saber quantos sininhos tinha na torre, então contaram um por um, ao passo que o sábio líder multiplicou o número de colunas pelo número de sininhos, 3x6, 18 sininhos. Claro! Quem mais pensaria nisso? Incontestavelmente, um gênio!


09/10/14

Queria voltar aqui no futuro para ver se as coisas vão seguir mudando, como diria Dilma. Tem muita informação desencontrada e, como já me disseram, em um mês só, nunca vou sair da superfície da sociedade. Por exemplo, lembram-se de quando eu disse que, como um papagaio acrítico, eu ia relatar que me contaram que as mulheres norte-coreanas têm liberdade ao escolherem seus parceiros? Como o mesmo papagaio acrítico, eu já digo que ouvi versões contraditórias, que elas não têm poder de escolha nenhum, que às vezes chegam a ser negociadas entre membros do partido, com corrupção e tudo mais, podendo negar seus pretendentes por, no máximo, três vezes.

Contei a um estrangeiro sobre o coreano que queria peitos grandes e confidenciei que a vida sexual do norte-coreano me enche de curiosidade. “Prostituição, aqui, não há, né?”, eu perguntei. Ele me falou que, em qualquer casa de massagem, você pode conseguir um pouco mais do que massagem. “E os norte-coreanos frequentam?”, “Claro! Tem cassino, tem prostituição, tem tudo isso em Pyongyang. Mas veja que é uma prostituição muito diferente daquilo com o que estamos acostumados.”, “Como assim?”, “Não tem penetração, mas você consegue carícias a mais... É claro que, para isso, a massagista tem que gostar de você... Raramente você consegue na primeira ida...”

Outra conversa, outro estrangeiro, outro contexto: eu perguntei se pornografia era realmente proibida. “Proibida, é, mas olhe: um dia eu me machuquei e tive que ir ao hospital com um coreano. Você não entra num hospital sozinho, sendo estrangeiro. No balcão, tinha uma revista que parecia um kama sutra. Perguntei à balconista o que era aquilo e ela respondeu que era uma revista que ensinava as posições sexuais às mulheres que estavam próximas de se casar!”, “Ela respondeu, sem maiores constrangimentos? Que maravilha! E o que mais você descobriu?”, “Nada, porque fiz uma piada e ela virou as costas, dizendo que eu era feio e mau...”, “O que você falou?”, “Perguntei qual era a posição sexual preferida de seu líder”. Meu Deus, que piada sem noção, que sorte que ela só virou as costas e nada mais! 

Ele disse: “Um dia comprei um vibrador para o meu amigo” (Amigo, né?) “O quê? Tem sex shop na Coreia do Norte?”, eu perguntei. “Sex shop, não. Comprei na farmácia! Mas não foi fácil conseguir. Eu levei uma amiga bem mais nova, a fim de que ela se passasse por minha esposa, e disse para a farmacêutica que eu estava muito velho, que já não conseguia mais satisfazer minha mulher, que eu precisava de um consolo gigante. Tudo isso com gestos, porque ela não falava inglês.” Que fantástico!

Depois de muitas conversas, todos me disseram que realmente é difícil rolar sexo antes do casamento, mesmo entre coreanos. Fiquei meio cético... Essa não é a única sociedade na história da humanidade onde sexo é proibido e ele sempre aconteceu, escondido ou não. As pessoas replicavam que, talvez, até aconteça aqui também, mas que deve ser raro, a vigília é enorme e, além disso, se a mulher engravidar, ela é expulsa de Pyongyang imediatamente e sabe-se lá o que pode acontecer com ela...

Aliás, aborto é permitido, aqui. É uma forma de controle de natalidade, mas não consegui descobrir ao certo como funciona.


10/10/14

Hoje, foi feriado, aniversário da fundação do partido, o único desde a criação da Coreia do Norte. Mais uma data importante em que o Kim Jong-Un não deu as caras, aumentando a especulação internacional de que ele está morto, foi deposto etc. Por aqui, as autoridades permanecem falando no líder normalmente, a TV continua mostrando vídeos antigos dele, a comunidade internacional não parece se importar muito com isso, não levando tanto a sério as especulações da imprensa.

Um dia eu perguntei a um estrangeiro que já mora aqui há um tempo onde estão os gays da Coreia do Norte. Eles têm que existir, né? Ele respondeu que sim, “claro que existem. Em todos os países, há gays, por que aqui, não? Mas eles nunca vão sair do armário. Se saírem, são mortos. Matam mesmo, sem pensar duas vezes.” Pensei em como nossa bancada evangélica tem muito em comum com esse país ateu... Perguntei: “E os deficientes? Não os vejo pelas ruas!”, “Matam também!”, “Matam os deficientes?”, “Matam. Meu amigo trabalhava na Cruz Vermelha daqui. Ele chorava todo dia, ficou com depressão, teve que sair do trabalho. Ele me contou que, se a criança nascesse com alguma doença mental, era assassinada.” 

Sobre isso, existe toda uma história de que, em Pyongyang, só estão as pessoas “perfeitas”, os mais altos, os mais bonitos. Não acredito, não. Para mim, esses boatos estão no mesmo nível daqueles que dizem que há atores fingindo ser felizes na Coreia do Norte... Apesar dos relatos que citei no parágrafo anterior, devo dizer que eu já vi dois cadeirantes e um amputado em Pyongyang. Estará o estrangeiro mentindo, portanto, sobre a Cruz Vermelha? Acho que não... Vai ver, se a criança nasce com algum problema, é assassinada, mas, se o cidadão desenvolve a deficiência já em adulto, permanece onde mora, ainda que seja em Pyongyang. Mas, agora, já sou eu que estou especulando... Não dá para saber a verdade. Talvez, no interior, existam alguns deficientes. “Pyongyang é muito diferente do restante do país”, o estrangeiro prosseguiu, “e, mesmo em Pyongyang, tem muita coisa acontecendo que você nunca saberá”.

Outra pessoa me relatou que, há anos, um amigo dela, também da Cruz Vermelha, encontrou duas crianças perdidas no interior do país. Elas lhe disseram que estavam com fome, que seus pais haviam sido executados após cometer certo crime (furto, eu acho). Elas pediam para sair da Coreia, até porque, além de tudo, filhos de criminosos não costumam ter vida fácil aqui. O estrangeiro as colocou no porta-malas e, junto de outra pessoa, dirigiu até a China e, depois, até o Vietnã. Não adiantava procurar ajuda em Pequim, a capital mais próxima, porque a China manda refugiados norte-coreanos de volta para a Coreia do Norte. Poderiam ter escolhido a Mongólia, país que costuma enviar os norte-coreanos para Seul, com voo pago, mas acharam o Vietnã a melhor escolha. Foram parados numa blitz, na fronteira, acho que já em território vietnamita, e a polícia descobriu as crianças no porta-malas. Os policiais ficaram com os refugiados e disseram que os enviariam para a Coreia do Sul, mas os enviaram para a do Norte. Aqui, a imprensa noticiou que estrangeiros tentavam raptar as crianças, mas que estas já haviam sido resgatadas. Nunca mais se soube o que lhes aconteceu.


11/10/14

Depois de pagar em euro e receber troco em yuan e dólar, hoje, o troco foi completado também por bala, que nem no comercial do “bala de troco, que cosa triste”.

Hoje, fui a um cassino. Não joguei, é claro, mas só quis me certificar de que realmente eles existem em Pyongyang. Tem cassino, tem strip club...

O fato de garçonete que fala com estrangeiro pertencer a uma certa elite norte-coreana é algo muito intrigante. Essas garçonetes, que também limpam o chão e dormem no mesmo lugar em que trabalham, seriam consideradas escravas no Brasil. Elas dormem todas numa mesma cama, comprida, de modo a não terem nenhuma privacidade. Algumas ficam anos sem ver suas famílias, sendo, ocasionalmente, liberadas para visitarem suas casas por alguns dias apenas. Tudo isso é muito perturbador. Fico a pensar em quanto uma abertura econômica do país favoreceria sua elite, que não são só essas meninas, mas ainda várias peruas ao estilo ocidental.

Às vezes, fico a pensar numa frase do Eduardo Siebra, último diplomata a ter vindo para Pyongyang: Só quis vir para cá porque, infelizmente, o Brasil ainda não tem embaixada em Marte. Eu também. Mas é até frustrante ver que, afinal, os norte-coreanos são que nem a gente. Não são verdes, não têm anteninhas, são relativamente civilizados...


12/10/14

Hoje, fizemos a final do futebol contra a Rússia. E pasmem: somos campeões! Por essa, eu não esperava, especialmente porque os russos treinam toda semana e o nosso time foi um pingado de cada lugar, que se conheceu na hora. Empate por 1 a 1 e vitória nos pênaltis. Ganhamos um trofeuzão bem bonito, das mãos do Ministro das Relações Exteriores ou qualquer cargo análogo, além de seis troféus individuais. Deixamos um deles na embaixada do Brasil.

Depois do jogo, rolou uma exibição de pratos típicos dos países com representação em Pyongyang. O nosso embaixador estava reticente de participar, mas Luiza botou pilha e acabou acontecendo. No início, eu achava que ela estava arrumando sarna para se coçar (e estava mesmo), mas, afinal, essa é a minha ingênua visão do que deve, primordialmente, fazer um diplomata: mostrar as melhores coisas de seu país para o estrangeiro. E o que melhor que comida brasileira? Passamos ontem o dia todo cozinhando litros e mais litros de feijoada (uns 30 litros, suponho), farofa, caipirinha, batida de coco... A jarra com a caipirinha quebrou no caminho, mas, tirando isso, deu tudo certo. Comi prato de tudo que é lugar. Fazia questão de preparar um minipratinho de cada barraquinha que estava lá (e tinha muitas). Tudo isso sob um forte sol e céu azul. De vez em quando, o inverno ameaça se aproximar, com um vento mais gelado, mas acho que ele só vai chegar para valer depois da nossa partida.

O senso de pertencimento na Coreia do Norte é uma coisa muito engraçada. Você não se sente próximo de alguém porque ele é da sua cidade, do seu estado, do seu país... Basta ser ocidental. As pessoas se conhecem, se cumprimentam pelas ruas, coisa de cidade pequena. Quem, aliás, também acha que mora em cidade pequena são os pedestres norte-coreanos. Como há poucos anos não tinha quase nenhum carro aqui, eles mantêm seus velhos hábitos de atravessar as ruas de qualquer maneira, mesmo na completa escuridão noturna. Há um tempo, um estrangeiro atropelou e matou uma coreana. Um problemão, isso.

Assim como chegam os carros, claramente se forma uma economia paralela. Há duas economias na Coreia do Norte: a estatal, oficial, que sempre existiu, que funciona precariamente, e a de mercado, que faz emergir uma nova classe média, para a qual o Estado fecha os olhos. Há um tempo, era crime o cidadão vender algo e ficar com o dinheiro para ele. Hoje, é mais do que tolerado, embora irregular, ou seja: para ter um negócio, você tem que ser alguém indubitavelmente fiel ao regime. Do contrário, o Estado pode fechá-lo, sem nenhum esforço.


13/10/14

Hoje, foi dia de, no almoço, comer o que sobrou da feijoada e, no jantar, comemorar o título do futebol, no Pyongyang Shop.

Conheci uns indonésios que, quando eu disse que era brasileiro, não falaram de futebol nem de Pelé nem de samba, mas de Sepultura!

Conversa com dois estrangeiros: o primeiro me disse que acredita que os norte-coreanos não se rebelam contra o regime não por causa da repressão estatal, mas porque os asiáticos são naturalmente mais obedientes e subservientes mesmo. Nada inovador, mas acho que passa por isso mesmo. Na União Soviética, disse ele, a toda hora tinha balbúrdia, e Stalin não era exatamente um cara frouxo... O segundo estrangeiro crê que o Japão trabalhe contra a unificação das Coreias, temendo um estado nuclearmente armado e economicamente mais forte que os próprios japoneses. Sei lá se faz sentido, mas fica aí o registro.

A Air China cancelou o voo dela das quartas-feiras, então tivemos que antecipar em um dia nosso adeus a Pyongyang, pegando o voo da Air Koryo, de terça. Essa empresa é proibida de voar para vários lugares, não apenas pelo mero fato de ser norte-coreana, mas também porque descumpre inúmeras normas de segurança. Que seja o que Deus, digo, o líder, quiser.


14/10/14

Acordei cedo para pegar o voo, num frio de fazer sair fumacinha da boca quando falávamos. Agora que estamos indo embora, o inverno parece se aproximar. No aeroporto, encontramos um brasileiro (até na Coreia do Norte!), que veio em um grupo de turista com outras pessoas, dentre as quais um americano muito do chato, que estava atrás de mim na fila do despacho da bagagem, reclamando de tudo. Falou que a China é uma merda, mas, ainda assim, dez vezes melhor que a Coreia do Norte, que é a merda das merdas, que ha-ha-ha, não tem gay em Pyongyang, que comédia, que país ridículo! Como eu me afeiçoo facilmente aos lugares e, com a Coreia não foi diferente, não pude deixar de achar que o ridículo era ele.

O pequeno aeroporto está um imenso canteiro de obras. Aliás, por toda Pyongyang se veem muitas construções. Pegamos o voo sem maiores burocracias. Não olharam as fotos que tiramos, não investigaram nossos computadores nem nada assim. Essas práticas eram comuns até bem pouco tempo, mas não sei se as coisas mudaram ou se não nos importunaram só por causa do passaporte diplomático.

Chegando ao aeroporto de Pequim, o baque: KFC, Buger King, McDonald's, wi-fi, a civilização imperialista estava de volta! Já comi o melhor pato do mundo, já andei bastante, mas, a partir de agora, nada disso mais é importante o suficiente para compor um diário. Pequim, assim como meus próximos destinos (Dubai e Abu Dhabi) são locais repletos de informações, ao contrário da boa e velha Pyongyang que deixei para trás. Quer dizer, velha nem tanto, uma vez que a cidade foi quase totalmente reconstruída depois dos bombardeios japoneses nos anos 40.

É, Coreia, foi bom te conhecer. Volto quando você virar uma democracia. Mal posso esperar por esse dia em que, juntos, vamos rir dos líderes.