quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O poste

Ele não era insone antes do poste. Começou a padecer desse mal depois que a companhia elétrica instalou um poste bem em frente à sua janela. A luz entrava pelas ventanas e morria-lhe nos olhos. Esmagava-o contra a cama, torturava-o até que não mais aguentasse e se levantasse, irritado.

A primeira providência foi fechar as janelas, ainda que lhe desagradasse o calor do quarto. Não bastou, o que o obrigou a comprar cortinas, dispensáveis até então, dado o habitual negrume absoluto da noite. As cortinas foram ainda insuficientes, mesmo com um pesado forro blackout. Decidiu, assim, trocar a cama de lugar, passá-la para a parede oposta à janela. A luz, contudo, continuava a invadir seu espaço, refletia no espelho e alcançava-o em cheio. Passou o espelho para a sala e a luz, agora, ricocheteava na própria parede onde outrora estava a cama, atingindo-o na parede oposta. Cedeu e foi dormir na sala.

Assim, passavam-se já duas semanas sem que o insone pudesse dormir amenamente, sem que soubesse o que é descansar de um dia agitado.

Na primeira noite na sala, pensou ter encontrado a paz, mas o espelho – aquele mesmo que estava no quarto – voltou a incomodá-lo, refletindo, novamente, a luz do poste, que, sabe-se lá como, transcorria por dois cômodos. Dessa vez, como fruto da irritação de tempos sem um bom sono, o insone não mudou o objeto de lugar, mas o quebrou aflitamente. Precisava mesmo dormir. Não esperava, contudo, que os cacos no chão continuassem a refletir seu inimigo iluminado.

Varreu os cacos na manhã seguinte, teve mais um dia de trabalho – não sei se é de interesse, mas ele era professor – e sentia doerem-lhe as costas das noites no sofá. Nessa noite, não teria espelho (nem sequer os cacos de vidro), fecharia as cortinas, as janelas e dormiria na sala. Juntaria todas as armas contra o poste, tudo em busca de uma noite de sono. Não bastou, porém. Pairava-lhe sobre os olhos um círculo de luz radiante e ele não sabia mais de onde ela vinha, como conseguia entrar ali, onde refletia.
  
Não só a sala como todos os cômodos da casa foram testados na busca pela escuridão (até o banheiro!), mas, como uma serpente em um labirinto, a luz achava o caminho rumo aos olhos do insone. Só havia uma solução: mudar de residência.

Vendeu seu apartamento (abaixo do preço) e comprou outro, em outra rua, outro bairro, bem distante dali. Na primeira noite, chorou, pois, assim que entardeceu e os postes começaram a se acender, percebeu a luz em toda a sua nova casa. Parecia impossível; antes de fechar negócio, tinha se certificado de que não tinha nenhum poste por perto. E não tinha mesmo. A luz vinha daquele antigo poste, refletindo além de sua antiga rua, de seu antigo bairro, furando avenidas, vencendo obstáculos, desvendando caminhos, cruzando a cidade para encontrar os olhos daquele infeliz homem.

Se não podia fugir do poste, teria que enfrentá-lo. Deveria destruí-lo. Se, ao menos, a energia caísse e ele tivesse uma noite, apenas uma noite de sono… Telefonou para a companhia elétrica, dizendo que havia mais de dois meses que a energia não caía, que a cidade não mergulhava na agradável e almejada escuridão.

– Nesse caso, o senhor deve selecionar a opção 2 no menu inicial.

Mas a opção 2 era referente a elogios e ele queria era criticar. Ligou de novo. Agora, solicitou que tirassem aquele poste de lá, pois estava a prejudicar o sono dos cidadãos locais. Foi-lhe negado o pedido, é claro. Teria que executar a tarefa com suas próprias mãos.

Eram já três meses sem dormir, o que lhe dificultava responder à questão: "Como se destrói um poste?". A resposta veio no rádio: "Carro fica destruído após derrubar poste na Avenida Central".

Com olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, rosto pálido e cadavérico, imensas olheiras, alucinado, pegou a chave de seu automóvel, girou a ignição e pisou tão forte no acelerador que cantou pneu. Era a hora de destruir aquele poste! Dirigiu até sua localização, mas não o derrubou de imediato. Estacionou ao seu lado, a contemplá-lo, a se despedir ao mesmo tempo em que tripudiava sobre o objeto: "Hora de cair, meu amigo! Espero que tenha se divertido ao me infernizar, pois sua existência chegou ao fim!"

Deu ré o máximo que pôde, engatou a primeira marcha, acelerou e, segundos depois, já estava a 200 km por hora. Explodiu o veículo contra o poste. O airbag foi acionado e os mecanismos de segurança do carro evitaram que o homem sofresse danos mais graves, mas o poste, este caiu mesmo, conforme planejado. O que o insone não esperava era que caísse em cima do automóvel. O homem morreu não com a batida, mas com o poste que, ao desabar, esmagou-lhe o crânio. Fez-se, enfim, a escuridão e, finalmente, o homem pôde descansar.

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