sábado, 7 de dezembro de 2013

Lágrimas da comédia

– Que aconteceu com o Pablo?
– Não sei direito... Parece que a mãe dele foi hoje ao médico e as notícias não são nada boas.

A que fez a pergunta era uma amiga de longa data de Pablo e o que respondeu era o promotor do espetáculo. Pablo era comediante, tinha acabado de subir ao palco e a conversa acontecia no camarim.

– Estou muito preocupada. Desde que o conheço – e lá se vão bons anos! –, nunca o vi daquela forma.
– Não o conheço há tanto tempo, mas é verdade que eu tampouco já o tinha visto naquele estado. Chorou muito depois do telefonema.
– Preciso conversar com ele. Foi péssimo a ligação ter acontecido tão pouco tempo antes do espetáculo.
– Falei para ele não se apresentar. O público entenderia, é claro. Mas ele insistiu que deveria ir adiante, que milhares de pessoas compraram ingresso para vê-lo, para rirem e se divertirem nessa noite... “Mas como você vai fazê-los rir?”, eu perguntei. “Como vai fazê-los rir depois de você próprio tanto chorar?” Ele me respondeu que tinha técnicas, que um bom comediante não precisa estar feliz para fazer os outros felizes, da mesma forma que um bom ator não precisa estar triste para atuar numa cena triste...
– Sim, claro, mas esses atores têm um contexto. Talvez, se Pablo não fosse o único ator de uma comédia em pé, eu lhe desse razão, mas não é fácil ficar lá, fazendo palhaçadas e contando piadas, se você não está com o mínimo humor para isso.
– Eu concordo. Mas ele insiste que tem a técnica.
– Isso é absurdo! – disse a maquiadora, que até então estava calada. – Assim como você, eu falei tanto para ele não subir ao palco... Não é que ele tenha acordado mal disposto ou num leve mau humor, como acontece com todos nós. É a mãe dele que vai morrer!
– É grave assim?
– Câncer descoberto tardiamente, já em estado terminal. Foi o que ele me disse por alto, mas não pedi detalhes. Nem deu tempo, porque logo teve que iniciar o espetáculo.

Assim, ficaram os três, por uma hora e meia, falando que Pablo não deveria ter subido ao palco, que aquilo seria um fiasco, que a crítica iria detoná-lo, que seria a maior frustração do ano, que ele era um dos comediantes mais famosos do país, que tinha um nome a zelar, que não precisava se submeter àquilo, que, ainda que dominasse todas as técnicas para fazer rir mesmo sem estar feliz, ele deveria cancelar o espetáculo, em respeito ao seu próprio sofrimento, que ele não deveria passar por aquela tortura.

– Já pensou você ter que contar piada, se sentindo mal? – disse a maquiadora. – Quem dera o problema fosse só a reação do público. É torturante para ele próprio!

Terminada a apresentação, assim que Pablo apareceu, foram os três, afoitamente, recebê-lo na porta do camarim.

– Vocês tinham razão – disse Pablo, cabisbaixo. – Foi um erro ter subido ao palco.

A amiga, o promotor e a maquiadora se entreolharam, com feições coniventes.

– Não sei o que deu em mim – continuou Pablo. – Quis bancar o Pierrot, encarnar o célebre personagem do palhaço entristecido, mas quem chorou foi a plateia...
– Como assim? – perguntou a amiga.
– Choraram. Era incrível, mas foi isso. Eu contava uma piada e eles choravam. Não riam; choravam.
– Mas espere aí – disse o promotor, meio sem jeito. – Eu mesmo já esperava que não rissem. Mas chorar já é demais, né?
– Choraram...

Passados trinta segundos de um silêncio constrangedor, o faxineiro pediu licença para recolher o lixo e, sem recato, exclamou um grito de parabéns a Pablo.

– Parabéns por quê? – perguntou Pablo, desanimado.
– Como por quê? Seu espetáculo foi muito bom! Ouvi tudo enquanto trabalhava e realmente até me desconcentrou. Foi engraçado demais! Não pude parar de rir. Nem eu nem a plateia. Sério mesmo: para onde quer que eu olhasse, via gente rindo, rindo muito, às gargalhadas! Parabéns! – E virou as costas e foi-se embora com o lixo.

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