segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Há barulhos em toda parte

Há barulhos em toda parte, o silêncio não existe. Talvez no espaço, mas a ciência que me perdoe: não acredito. Pode ser que só haja silêncio onde exista a surdez, mas quem garante que aí também não há vozes o tempo todo se fazendo presentes? Para um surdo de nascença, talvez... Mas o mais provável é que só mesmo depois de morto teremos essa calmaria absoluta.

Ela não sabia disso quando se mudou para a região mais afastada da cidade. Cansou-se dos ruídos urbanos e seu único critério para escolher a casa nova foi a maior ausência possível de sons. Certificando-se de que por ali não passava vivalma, restava-lhe agora isolar os barulhos da natureza, tais como o vento e a chuva. Contratou uma equipe de acústica e fez grandes obras a fim do completo silêncio. Quando tudo estava pronto, pagou satisfeita pelo serviço e deitou-se na cama. Era hora de ouvir o nada.

Os nervos vieram-lhe logo à flor da pele quando escutou os móveis estalando, os insetos voando, uns cracks, pracs, precs, que sabe-se lá de onde vinham. Ela não percebia que, quanto menos se têm os barulhos do dia-a-dia, mais se ouvem outros, desconhecidos. São uns sons misteriosos cuja origem nos foge e que, por isso mesmo, enchem-nos de pavor.

Se tivéssemos nossos ouvidos apurados, bem treinados, se o meio de vida urbano não os impedisse de ouvir certos sons que só escutamos quando cremos haver silêncio, não nos aterrorizaríamos tanto diante desses barulhos, simplesmente porque os conheceríamos. Mas não. Ignoramo-los. Escapam-nos cotidianamente e, quando a sós com eles, apavoramo-nos.

Toda essa agitação urbana tinha feito com que a mulher também deixasse de ouvir os sons de quem a chamava. Sussurravam seu nome constantemente. E ainda sussurram. Além dos móveis estalando, dos insetos voando, do vento e da chuva, há todo um círculo de pessoas que a chamam sem serem respondidas. Não a censuramos, é claro, pois isso também acontece conosco. Os insetos, talvez, não sejam apenas insetos, tampouco o vento, tampouco a chuva. Os móveis, quiçá, não estão estalando, mas pode ser que, no desespero de não receberem atenção, essas pessoas invisíveis lhe batem graciosamente, apenas encostando na madeira para se fazerem sentir.

Insensível, como todos nós, ela permaneceu ignorando essas pessoas. Os móveis eram móveis, o vento era vento, a chuva era chuva e os insetos eram insetos. Não pôde isolá-los. Teve que ouvi-los para sempre. Morreu. Dizem ter sido suicídio. Silêncio. Silêncio?

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