domingo, 15 de dezembro de 2013

Cinthia

Cacá era um garoto deveras atípico. O pobre rapaz sofria de uma doença desconhecida, uma anomalia que lhe desfigurava por completo, da cabeça aos pés, diariamente. O verbo ''desfigurar'' não está aqui empregado no sentido usual, transpassando a ideia de fazer virar um monstro ou alguém horripilante, mas apenas de desfazer expressões, trocar um rosto (ou, no caso de Cacá, todo o corpo, o que é ainda pior) por outro.

A melhor maneira de explicar o fenômeno é contar um pouco a vida de Cacá, de modo mais ou menos linear. Já nasceu causando a separação de seus pais, loiros, descendentes de alemães, vendo com perplexidade um bebezinho negro. O pai, gritando por toda a maternidade que fora traído, pediu o divórcio no dia seguinte. No dia seguinte, porém, o bebê negro não mais existia, tendo se transformado em uma criança bem branca, embora ainda sem os olhos verdes dos pais,

– Vê como não te traí, homem? Está aqui o nosso filho, branco como nós!
– Vão para o inferno, você e aquele moleque preto! Está óbvio que são crianças diferentes!

Tal diálogo, ocorrido na mesa de um restaurante, fez o garçom negro franzir as sobrancelhas. Mas o pai de Cacá não era racista nem preconceituoso, adoraria ter um filho pretinho, desde que a genética lhe explicasse que isso era possível.

– Escute. Te chamei para esse almoço justamente para te mostrar quem é a nossa criança, que não sou uma traidora. O quê?! Não! Eu não troquei o bebê, está louco?! É o nosso Karl, sorri para o papai!

Karl, que rapidamente virou Cacá, não sorriu e o casamento dos pais se acabou. No terceiro dia, porém, o garoto ficou mais orelhudo e sua pele tornou a escurecer. Sua mãe, atordoada, criticava sua pouca capacidade de reparar nos detalhes físicos do filho. No quarto dia, justamente quando o pai foi em casa buscar roupas que ali deixara, viu o menino novamente modificado: ainda mais escuro e com as expressões parecidas com as do dia em que nasceu.

– Ah, então aqui está o moleque fruto da sua traição! Devolveu o garoto branco?

A mãe, chorando, não respondeu. Completada uma semana desde que pariu, telefonou e resolveu contar tudo à sua mãe sobre as mudanças físicas do menino e o consequente fim do seu casamento.

– Que bobagem! Bebês nessa idade mudam o tempo todo. Quando eu posso ir aí fazer uma visita ao meu netinho?

Completados um mês e trinta rostos diferentes, a mãe levou Cacá ao pediatra.

– Como vai esse garoto, mãe? Temos que tratar dessas sardas no rosto.
– Essas sardas são novas, doutor. Não estavam aí ontem.
– A senhora precisa estar mais atenta. Volte daqui a um mês.

Assim, ela fez, retornando com a sexagésima expressão facial em seu colo.

– Como esse menino está moreno! Bem, as sardas sumiram, mas ele deve pegar menos sol.
Por várias vezes, a mulher ficou olhando atentamente, durante todo o dia, para Cacá, a fim de perceber quando ocorreria a mudança. Nunca conseguiu. Quando bebia uma água, ia ao banheiro, cochilava um pouquinho, se efetuava a transformação. E não conquistou voluntários para um revezamento nessa ''missão maluca'', como eles caçoavam.
Aos três anos de idade, Cacá voltou ao pediatra. 

– Doutor, é como se fosse meu nonagésimo filho diferente!
– Explique, por favor.

Saiu do hospital e seguiu para um centro de umbanda.

Fato é que ninguém dava créditos para a mãe desesperada. Acabou por conformar-se e encarou Cacá não como uma aberração, mas como alguém único, em sua não unicidade.

Cacá crescia e desenvolvia-se normalmente. Aprendeu a andar, a falar e sua primeira palavra foi ''eu''. Sua mãe, com o tempo, percebeu que as mudanças ocorriam durante a noite e que o corpo de Cacá também se modificava (ora mais alto, ora mais baixo, ora mais magro, ora mais gordo). Resignou-se também em não ver as mudanças na hora em que ocorriam. Tendo reparado que era durante a noite que elas aconteciam, chegou a passar madrugadas em claro, entretanto, bastava um piscar de olhos e lá estava um novo Cacá. Pensava, portanto, que essa permissão não lhe era concedida.

O que mais alegrou a mãe foi saber que a personalidade de Cacá não se alterava. Independentemente de seu rosto e de seu corpo, era sempre um garoto dócil e tranquilo. Ótimo aluno, aprendeu sem dificuldades as operações matemáticas básicas e alfabetizou-se rapidamente. É claro que sua vida escolar não foi nada fácil e chegou a ser expulso de três escolas, por ser uma aberração, e de uma quarta, por excesso de faltas (o controle de presença era feito por uma máquina que fotografava os alunos quando entravam em sala). Essas expulsões, porém, diferentemente do que se pode imaginar, alegraram muito à mãe de Cacá, pois, ao contrário de suas amigas, familiares e ex-marido, nessas escolas, acreditava-se que aquele garoto, de fato, mudava diariamente sua fisionomia, ainda que lidassem mal com o fenômeno. Ela sabia, assim, que não estava louca.

A quinta escola de Cacá – e a única a aceitá-lo – tinha uma diretora interessada em estudar cientificamente o menino. Ao mesmo tempo em que o tratava como um simples objeto de pesquisa, fazia de tudo para que ele se sentisse bem na escola e não procurasse outra. Pensava em apresentá-lo à comunidade científica e à grande imprensa e enriquecer, mas, antes, precisava comprovar a veracidade da história àqueles cientistas e jornalistas que tinha em mente. Um dia, fez uma reunião com todo o corpo docente e pediu especial atenção àquele aluno, além de ter passado, de sala em sala, em um dia em que Cacá faltou, proibindo qualquer tipo de piada com o menino. O primeiro engraçadinho a caçoar de Cacá seria banido da escola! É claro que, além de essa proibição ter chegado aos ouvidos de Cacá, as gozações nunca cessaram. Seu apelido era, dentre outros, ''Cacamaleão''.

Cacá não se importava. Não muito. Como dito, era um garoto muito calmo, tinha reais amigos e era a eles muito fiel. Um dia, um menino de outra série fingiu ser Cacá e arrumou uma série de confusões com os seus amigos; depois de esclarecida a situação, criaram o que chamavam de ''código de reconhecimento''. Quando um garoto estranho ao grupo se aproximasse e dissesse ser o Cacá, um deles perguntaria:

– Quem criou o mundo?

Cacá deveria responder:

– A mãe de Joaquim.

Não conheciam nenhum Joaquim e não sabem de onde tiraram isso.

A diretora continuava a perseguir Cacá e, por várias vezes, chamava-o em sua sala para levantar questionamentos:

– Como é sua relação com os seus pais?
– Nunca vi meu pai. Com a minha mãe é ótima, senhora.
– Quando você percebeu que... não era como as outras crianças?
– Eu me olho no espelho diariamente, senhora.
– Foi assim que percebeu?
– Sim, senhora.
– Simples, desse jeito?
– Minha mãe, senhora, me explicava também.
– Foi fácil a aceitação?
– Acho que não tem muito o que aceitar. Desculpa, senhora, não entendi sua pergunta.
– O que desejo saber, Karl, é se você se sente bem ou mal com essa situação.
– Depende da cara com que acordo, senhora.

E assim foi até sua juventude. Quando, por exemplo, seus amigos o chamavam para sair à noite, só aceitava se julgasse ter acordado bonito. Na sua primeira noite fora de casa, morreu de medo de se transformar no meio da balada em alguém gordo, careca e desdentado. Mas percebeu que, ao contrário do que lhe dizia sua mãe, suas mudanças não necessariamente ocorriam à noite, mas, sim, quando dormia (o que, é claro, geralmente era à noite).

De posse dessa informação, Cacá resolveu se filmar dormindo. Assim como, havia anos, acontecera com sua mãe, a curiosidade de assistir à cena da transformação tomou conta de Cacá. Porém, em todas as suas tentativas, a filmadora chuviscou no ato da mudança.

Foi também nessa época que Cacá adquiriu a maioridade e teve que tirar seus documentos. Problemas à vista! Escolheu o dia do rosto mais comum para ir tirar fotos e dar entrada no pedido da carteira de identidade. Alguns anos mais tarde, chegou a ser barrado na entrada de uma festa, pois o segurança afirmava que o garoto da foto não era o mesmo que estava à sua frente, ao que, com espirituosidade, Cacá respondeu:

– Senhor, por favor, compare sua foto em sua identidade com o rosto que o senhor tem hoje. Estou certo de que haverão de ser fisionomias nitidamente diferentes.

Era um argumento imbatível. Só falhou uma vez, quando o segurança de um bar disse:

– Acontece, meu jovem, que desde que tirei minha identidade já se vão trinta anos. Já o seu documento, posso ver aqui, foi emitido há bem pouco tempo.

Desconcertado, Cacá respondeu:

– Senhor, mas essas fotos 3x4 enganam terrivelmente. Façamos assim: dê-me uma chance de assinar o meu nome em um pedaço de papel e o senhor compara as assinaturas.

O segurança consentiu, examinou as assinaturas idênticas e deixou Cacá passar.

Tinha já 21 anos e frequentava a universidade. Faculdade de Ciências Humanas, pessoal mente aberta, que aceitou Cacá sem segregá-lo por sua anomalia. Manteve as amizades do colégio, as reais, além da falsa amizade da diretora, que frequentemente visitava sua casa, para ''saber como ele estava'' e aumentava as informações que, segundo ela pensava, fariam com que ela ''ganhasse muito dinheiro e ficasse muito famosa''. Ela deveria correr agora, pois, uma vez na universidade, no seio da ciência, haveriam de  explorar Cacá antes dela. Não exploraram, porém, e Cacá se alegrava por sua história ainda não se ter tornado pública.

Aos 22, pertencia ao time de vôlei da universidade. Era, de fato, excelente jogador, mas, em uma partida decisiva, acordou acima do peso e teve que ser substituído. Seu time perdeu e foi eliminado dos jogos universitários.

Aos 23, sua mãe faleceu, deixando como últimas palavras: ''Seja você mesmo''. Apesar das lágrimas nos olhos, Cacá ria e se divertia com esse conselho.

Agora, precisava trabalhar para se sustentar, mas sabia da impossibilidade de conseguir um emprego. Desesperado, pensou em contar seu caso à imprensa e ganhar algum dinheiro, mas foi desencorajado por um amigo do seu antigo colégio. Desconhecedores dos planos da antiga diretora, conversavam:

– Oi, sou o Cacá.
– Quem criou o mundo?
– A mãe do Joaquim.
– Fala.
– Vou aos jornais, à TV, contar meu caso.
– Problemas de dinheiro?
– Muitos.
– Você vai ser ridicularizado, você sabe.
– Sei.
– Vai parar nos circos, com mulheres peludas, homens-elefantes e anões saltadores.

Cacá riu.

– Não acho que meu caso seja tão circense...
– Em algum lugar de bizarrices, você vai parar.

Esse amigo sugeriu que Cacá tentasse algum emprego em que não precisasse mostrar o rosto, em que trabalhasse em casa. Ele tentou, mas não foi contratado por nenhum. Chegou a ser chamado para um, contudo, quando apareceu para os exames médicos uma pessoa totalmente diferente da que fora à entrevista, expulsaram-no do local. Foi a partir daí que passou a viver às custas do amigo, que mensalmente lhe enviava uma quantia suficiente apenas para sua sobrevivência. Estava consciente, porém, de que essa situação não se poderia manter para sempre. Não sabia o que fazer.

Para piorar, sua vida sentimental, que, evidentemente, nunca tinha sido muito boa, desgraçou-se ainda mais. Mudou-se para o seu prédio uma linda garota, por quem ele imediatamente se apaixonou. Já tivera vários casos com inúmeras meninas, mas, graças ao seu problema, sempre havia sido por uma só noite (nem precisava se preocupar em esconder-se no dia seguinte). Nunca namorou e tinha em mente que ficaria para sempre só. Mas, agora, essa garota atrapalhava os seus planos.

Trocou poucas palavras com o seu amigo sobre a menina. Ele o incentivou a falar com ela, mas ele sabia que aquilo era inimaginável. Cacá não sabia nada da vida dela e ela, é claro, tampouco sabia da dele, desconhecendo totalmente sua doença.

Num domingo em que Cacá amanheceu nem particularmente bonito nem particularmente feio, resolveu passar horas na janela de seu apartamento, observando um dia que também não estava nem particularmente ensolarado nem particularmente chuvoso. Viu no saguão do prédio sua ex-diretora, acompanhada por cinco homens com câmeras nas mãos. Sabia ser ele o alvo da procura e desceu rapidamente pelas escadas, enquanto a mulher e os cinco homens subiam pelo elevador. Contornou o térreo, agradeceu mais uma vez por aquele ser um prédio sem porteiro e sentou-se em um banquinho de uma praça lateral, perguntando-se quando os visitantes iriam embora – se é que iriam.

Num misto de melancolia e desespero, permaneceu ali sentado por um longo tempo, quando sentiu um hálito fresco e gostoso ao seu lado. Era a garota por quem era apaixonado, linda. Ela disse, num tom jovial, nada irritado:

– O que mais tenho que fazer para você me olhar?
– Como? Está aí há muito tempo? Não reparei, o pensamento está voando, desculpa.
– Há muito tempo, sim. Não apenas há muito tempo hoje, mas há muitos dias. Tem, pelo menos, um mês que eu te olho, que não te tiro da cabeça. Você é tão bonito!

''Pelo menos, um mês'', ela disse? Mas ele mudava todo dia de fisionomia! Como isso era possível?

– Meu nome é Cinthia. E eu te amo.

Um comentário:

  1. MACOMO não tem continuação? Pelamordedeus, VG! Fala que vai ter continuação!

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