sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A loja azul

A loja era de um azul celeste, assim como os produtos em sua vitrine. Havia vários pequenos enfeites, bonequinhos, placas e todo o tipo de bugigangas. Tudo era predominantemente azul, o que, entretanto, não estragava a visão nem nada assim.

Dentro da loja, havia um homem, o único não azul do cenário. Vestia calças e jaquetas jeans (que até poderiam ter sido azuis, mas em um passado distante) e uma blusa tão surrada quanto a jaqueta por cima. Tinha entre quarenta e cinqüenta anos, barba espessa e um rosto branco, mas bronzeado. Era alto, o que se mostrava evidente devido ao fato de estar sempre de pé, geralmente com as mãos nos bolsos da calça, olhando para fora da loja, esperando algum novo cliente (o que nos leva a deduzir que se tratava do vendedor da loja).

Vez ou outra alguns desapressados diminuíam o passo ao se aproximar, chegando, às vezes, até mesmo a pararem para olhar os produtos, mas jamais entravam. Geralmente, vestiam azul e se confundiam com a própria vitrine, sendo essas vestimentas quase sempre longas ou de algum material grosso, o que nos indicava que estava frio do lado de cá (nossa visão é do exterior da loja, frontalmente a ela. É de longe que vemos o suposto vendedor lá dentro, olhando sempre para fora, em nossa direção). De vez em quando, se atentarmos bem, ficamos com a impressão de que sai uma leve fumaça da boca dos transeuntes quando eles falam, fumaça esta que, de tanto azul na paisagem, acaba adquirindo tal coloração também.

O primeiro a passar por lá foi um jovem esportista. Olhou a vitrine com alguma rapidez, mas nem mesmo chegou a parar. Foi-se com a mesma rapidez com que veio. O segundo, na verdade, eram os segundos, pois se tratava de uma família inteira (destas clássicas: pai, mãe e criança). Também vestidos de azul, olharam os produtos (efetivamente pararam), apontaram para alguns, gesticularam, riram e partiram, felizes (graciosamente, a criancinha caminhava em saltos e os pais riam, satisfeitos). Depois, três jogadores de futebol (de alguma equipe com uniforme azul) correram para frente da loja, abraçaram-se, comemoraram o gol salvador, apontaram mais produtos, num misto de êxtase e alívio após o recém sucesso, e se foram, provavelmente para encontrar seus outros companheiros.

O suposto vendedor começou a armar uma barraquinha dentro da loja. Lentamente, ele montou as paredes laterais, depois fez uma portinha e, por último, criou o teto. Tudo com madeira. Apesar da rapidez dessa parte da narrativa, deve-se frisar que isso levou muitas horas (quiçá dias, jamais saberemos. Ficaria a loja aberta 24 horas? Provavelmente, não. Do lado de cá, está claro o tempo todo...) Após esse exaustivo trabalho (que, entretanto, não pareceu cansar muito o rapaz), ele, mais devagar que nunca, riscou alguns fósforos e arremessou-os na cabaninha.

Durante todo esse processo, outros potenciais clientes passaram pela lojinha, mas nunca entraram. É um pouco difícil dar detalhes dessas novas pessoas porque, ao contrário do jovem esportista, da família feliz e dos jogadores de futebol, esses novos transeuntes vieram apreciar a vitrine justamente no momento em que o suposto vendedor montava sua cabana. Como estamos vendo tudo de fora da loja, nossa atenção está voltada para o fundo, para a ação do rapaz, sendo desviada dos novos admiradores dos produtos azuis da vitrine azul da loja azul.

Agora, a barraquinha está queimando. O fogo já é da altura do homem. Ele está de volta à sua posição tradicional: de pé, inerte, mãos nos bolsos da calça jeans. Continua olhando para o exterior da loja (para nós?), enquanto a cabana queima, o fogo sobe, o calor aumenta. Não parece estar preocupado com isso, pois em determinado momento temos a impressão de que o fogo chega a tocar o rapaz (talvez, esteja frio mesmo).

Passaram-se mais horas (quantas horas tem o dia aqui?) e tudo o que se vê da barraquinha é sua porta. O resto é puro fogo ardente. Os pedestres, porém, continuam passando, em suas roupas azuis, olhando a vitrine azul, com produtos azuis, em uma loja azul. Mas nela não entram.

De repente, o homem abre a porta da barraca. Aliás, não seria exagero dizer que esta cabana se resume à porta. O resto é fogo, puro amarelo, o que é bom, pois quebra aquela terrível mesmice do cenário azul (o leitor mais atento poderá dizer que foi dito nas primeiras linhas que a visão não era estragada pelo cenário quase todo azul. Mas um escritor também tem o direito de mudar de opinião). Agora, temos azul e amarelo. Céu e fogo. A porta permanece aberta. O homem dá passos em direção ao interior da barraca (há interior? Não será tudo fogo?). Um senhor para bem na nossa frente, admirando uma bonequinha vestida em uma blusinha de lã azul. Contorcemos o pescoço para tentar ver o que o homem fará, mas o velho continua parado bem na frente. Ele sai, vai embora, enfim. Para nossa sorte, o homem também estava esperando a ação do senhor. Agora que o velho se foi, o suposto vendedor entra. E podemos ver como ele dá as costas para nós (costas largas, bonitas) e entra, devagar, pela porta da cabaninha, fechando-a a seguir.

As chamas, curiosamente, não se alastram pela loja. Elas permanecem apenas na barraquinha de madeira. E nós, daqui de fora, esperamos que o homem saia. Nem que seja todo transfigurado, com o rosto em pele viva, olhos vermelhos, um monstro de filme de terror. Mas que saia!

Talvez não seja necessário dizer que ele não saiu... Por dias, meses, anos (impossível diagnosticar o tempo, pois está sempre claro), nós esperamos seu retorno. Durante todo esse tempo, o fogo permaneceu apenas na barraca, não se alastrando pela loja, que permanecia com a porta aberta, como o homem deixara, antes de entrar na porta menor, a porta da barraquinha incendiada, para nunca mais voltar. Só nos restou apreciar os possíveis compradores que sempre passavam com suas roupas azuis, olhavam para a vitrine azul da loja azul, com seus produtos azuis e um fundo amarelo. Mas nunca entravam.

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