sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A coisa debaixo da cama

1

Aproxima-se o momento em que eu terei que olhar para baixo da minha cama. Foram anos evitando aquilo, mas não posso mais. Sempre me foi evidente que tinha alguma coisa, que algo ou alguém vivia ali debaixo, mas eu não queria saber, passei a minha vida a ignorar aquilo.

Tudo começou quando, criança, comecei a chorar. Eu ainda não falava - talvez já tivesse acontecido antes, mas se trata de minha memória mais antiga. Comecei a chorar e ninguém sabia por quê. Meus pais debatiam o motivo de meu choro, precisaram ligar para meu pediatra, até que veio a solução: olhar embaixo de minha cama. Não sei o que viram, não lembro o que fizeram, mas resolveu: voltei a dormir tranquilamente.

É claro que tinha algo embaixo da minha cama. Tem algo debaixo da cama de todo mundo, por que comigo seria diferente?

Eu nunca olhei diretamente lá para baixo, mas já vi evidências da existência de algo ali. Um dia, minha mãe se acidentou e foi hospitalizada. Eu tinha em torno de onze anos e fiquei muito preocupado. No abismo de minha impotência infantil, sem saber como agir nem como ajudar, vi uns olhos ali debaixo. Foi de relance, uma só luz. Corri para a sala e dormi no sofá.

Aquilo queria falar comigo. Sempre que tenho insônia, a coisa me chama. É horrível, porque são grunhidos, gemidos, mas eu finjo não ouvir, porque, do contrário, o sono teimará ainda mais em me encontrar.

Eu tenho que ver quem está ali. Envolto à poeira, ao escuro e ao inacessível, há uma coisa ali.

Durante meu período universitário, aconteceu uma das experiências mais temerosas com meu vizinho debaixo do colchão. Ele não se contentava mais em me chamar. Como que exausto por eu não lhe dar atenção, ele resolveu me buscar de alguma forma mais física. Duas mãos saíram de lá, apalpando o colchão. Meu grito deve ter assustado a coisa, pois foram dias sem reaparecer. Ela voltou quando eu tive uma forte dor na boca do estômago, que perdurou por três dias, e eu sabia que tinha algo a ver com aquilo. Ela confirmou, com sua risada macabra.

Um dia, eu (que, a essa altura já tinha mais de vinte e cinco anos) estava deitado na cama e mau pai bateu à porta. Gritei-lhe para entrar, mas, quando ele girou a maçaneta e pisou no quarto, imediatamente desviou o olhar do chão. Sei que ele viu alguma coisa ali embaixo. O mesmo aconteceu outras vezes, não só com ele, mas também com minha mãe. Eles estavam tão impressionados com a coisa que em um momento vieram me aconselhar a buscar o que chamaram de "ajuda profissional", termo que, para eles, englobava de padre a terapeuta. Eu recusei, porque sabia que esse ajudante nada mais faria do que me mandar olhar lá embaixo e eu não queria. Só fui considerar tal ajuda quando a quinta namorada terminou comigo por causa daquele demônio de olhos brilhantes. Digo: elas não falavam que era por isso, mas, para mim, não havia outra razão. Eram namoros curtos, porque, assim que dormiam na minha casa, diziam não estar preparadas para o relacionamento.

Hoje, estou apto a conhecer a coisa. Não que eu vá enfiar a cara ali embaixo, não, de jeito nenhum. Não de imediato. Vou começar aos poucos, tentando estabelecer contato verbal, de cima da cama, antes de olhar. Já tenho trinta anos e minha vida é tão infértil que só pode ser culpa desse diabo. Não tenho nada, não conquistei nada, ninguém, meu trabalho é um asco, ainda moro com meus pais… Tenho que exterminar a coisa.

Ele, ela, isso, não está lá de dia. É só à noite. Tarde da noite, na verdade. Geralmente, quando durmo. Hoje, falarei com ela.

2

Como prometido, falei com a coisa, de cima do colchão, sem estabelecer contato visual. No primeiro dia, ela não apareceu. Chamei-a timidamente, mas ninguém me respondeu. Meu medo falou mais alto e não insisti. Esperei o coração normalizar suas batidas e dormi. No segundo dia, estabeleci o primeiro contato. Novamente, ela não atendeu ao meu primeiro chamado. Eu sussurrei vários vocativos - coisa, diabo, demônio, monstro -, mas nada. Só houve resposta quando fiz uma pergunta direta: "Você já morreu?" Na verdade, essa resposta foi apenas um gemido. Congelei. Não falei mais nada. No terceiro dia, a coisa novamente não me respondeu. Tentei sucessivas vezes nos dias seguintes, mas o silêncio imperava. Só no décimo dia, quando eu já me sentia mais corajoso - talvez, justamente por não mais esperar resposta -, aconteceu o diálogo.

- Você já morreu? - eu repeti a pergunta.
- Morrendo - veio a voz lá de baixo. Eu tremi, senti o colchão se mover com minhas batidas cardíacas. Não desisti, porém.
- Você está vivo, portanto?
- Morrendo.
- Você é homem ou mulher? - perguntei, pois a voz era completamente indefinida. Não houve resposta, porém, além de um gemido. - Quem é você?

A ausência de resposta persistiu. Restando o silêncio, preferi não forçar. Já havia feito grandes avanços nesse dia.

No dia seguinte, ele - ou ela - foi quem puxou assunto.

- Você não tem tempo para mim.

Pulei da cama ao ouvir aquela voz. Agora, parecia voz de homem. Na verdade, parecia-se com a minha própria voz.

- O dia-a-dia agitado nunca te permitiu me olhar.
- Por que você diz isso? - perguntei. Ele parecia bem mais falante nesse dia.
- Você sabe… Desde o seu nascimento, busco contato. Você sempre me evitou.
- Mas eu nem sei quem é você.
- Esse é o problema.
- Acho normal as pessoas não quererem contato com monstros debaixo da cama.
- Só o desconhecido é monstro.
- Você não é um monstro?
- Enquanto você não me conhecer, sou.
- Você é um espírito?
- Um pouco.
- Um fantasma?
- Não diria, mas posso ser.
- Então, quem é você?

Nenhuma resposta. Novamente, a conversa se encerrava com essa pergunta.

Tinha me decidido. Iria vê-lo na próxima conversa.

3

- Coisa? Você está aí? - perguntei, depois de duas semanas de silêncio.
- Eu sempre estou aqui.
- Então, por que passou dias sem me responder?
- Eu respondi, você não ouviu.
- É sempre tarde da noite, portanto há silêncio!
- Mas você não me ouviu.
- Você não falou nada!
- Falei. E não só aqui. Estou contigo em todos os lugares.
- Em todos os lugares? - Voltei a sentir o medo de velhos tempos, mas não podia deixar esse terror me afastar da decisão de descer da cama.
- Em todos os lugares. Mas, como já te disse, o dia-a-dia não te deixa me notar.
- Vou aí!

Eu fui. Em um só impulso, desci. Joguei-me da cama, com a respiração presa, cada músculo contraído, olhos muito abertos. E vi a coisa. Ela estava ali. Ela, ele, o monstro. O diabo. O demônio. A voz. Era minha imagem. Eu mesmo. A coisa era eu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário