segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Atuação

A jovem estudante de teatro sofria de um mal crônico: tudo de ruim que pensava acontecia.

Quando viu seu pai hospitalizado, pensou que ele fosse morrer: ele morreu. Ao se apresentar pela primeira vez como protagonista de uma peça, pensou que fosse fazer alguma besteira: escorregou na cena mais importante e a dor nas costas a impediu de dizer sua fala. Quando apareceu a oportunidade de atuar em outra peça, pensou ironicamente: “Agora, só falta eu ficar doente”. Ficou e teve que ser substituída. Por fim, ao viajar de carro com outros jovens atores, imaginou que o carro poderia bater e ele, de fato, derrapou, se chocou contra a montanha e, embora ela não tenha sofrido nada, três de seus quatro colegas morreram. 

Mais exemplos não faltam. Esses foram apenas os mais trágicos.

Um dia, conversando a esse respeito com sua mãe, esta lhe disse que, quando pensamos em algo ruim, é natural que tal aconteça. Segundo ela, os pensamentos têm força que desconhecemos. A jovem atriz deveria, portanto, combater essas más imaginações e pensar em coisas boas, sempre em coisas boas, nunca nem sequer cogitar o fracasso. Só assim o êxito viria.

Logo no dia posterior, resolveu pôr em prática os conselhos da mãe. Enquanto caminhava rumo à sua aula de teatro, ia pensando que era uma atriz de sucesso, reconhecida, constantemente aplaudida de pé, disputada para protagonizar diversos papéis, não apenas no país como também no exterior, que envelhecia como toda mulher, mas sem perder a graça e a beleza da mocidade, sem deixar de ser cobiçada para inúmeras personagens importantes.

Seu raciocínio foi tão longe que não prestou atenção ao atravessar a rua. Foi atropelada por um ônibus e morreu.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A loja azul

A loja era de um azul celeste, assim como os produtos em sua vitrine. Havia vários pequenos enfeites, bonequinhos, placas e todo o tipo de bugigangas. Tudo era predominantemente azul, o que, entretanto, não estragava a visão nem nada assim.

Dentro da loja, havia um homem, o único não azul do cenário. Vestia calças e jaquetas jeans (que até poderiam ter sido azuis, mas em um passado distante) e uma blusa tão surrada quanto a jaqueta por cima. Tinha entre quarenta e cinqüenta anos, barba espessa e um rosto branco, mas bronzeado. Era alto, o que se mostrava evidente devido ao fato de estar sempre de pé, geralmente com as mãos nos bolsos da calça, olhando para fora da loja, esperando algum novo cliente (o que nos leva a deduzir que se tratava do vendedor da loja).

Vez ou outra alguns desapressados diminuíam o passo ao se aproximar, chegando, às vezes, até mesmo a pararem para olhar os produtos, mas jamais entravam. Geralmente, vestiam azul e se confundiam com a própria vitrine, sendo essas vestimentas quase sempre longas ou de algum material grosso, o que nos indicava que estava frio do lado de cá (nossa visão é do exterior da loja, frontalmente a ela. É de longe que vemos o suposto vendedor lá dentro, olhando sempre para fora, em nossa direção). De vez em quando, se atentarmos bem, ficamos com a impressão de que sai uma leve fumaça da boca dos transeuntes quando eles falam, fumaça esta que, de tanto azul na paisagem, acaba adquirindo tal coloração também.

O primeiro a passar por lá foi um jovem esportista. Olhou a vitrine com alguma rapidez, mas nem mesmo chegou a parar. Foi-se com a mesma rapidez com que veio. O segundo, na verdade, eram os segundos, pois se tratava de uma família inteira (destas clássicas: pai, mãe e criança). Também vestidos de azul, olharam os produtos (efetivamente pararam), apontaram para alguns, gesticularam, riram e partiram, felizes (graciosamente, a criancinha caminhava em saltos e os pais riam, satisfeitos). Depois, três jogadores de futebol (de alguma equipe com uniforme azul) correram para frente da loja, abraçaram-se, comemoraram o gol salvador, apontaram mais produtos, num misto de êxtase e alívio após o recém sucesso, e se foram, provavelmente para encontrar seus outros companheiros.

O suposto vendedor começou a armar uma barraquinha dentro da loja. Lentamente, ele montou as paredes laterais, depois fez uma portinha e, por último, criou o teto. Tudo com madeira. Apesar da rapidez dessa parte da narrativa, deve-se frisar que isso levou muitas horas (quiçá dias, jamais saberemos. Ficaria a loja aberta 24 horas? Provavelmente, não. Do lado de cá, está claro o tempo todo...) Após esse exaustivo trabalho (que, entretanto, não pareceu cansar muito o rapaz), ele, mais devagar que nunca, riscou alguns fósforos e arremessou-os na cabaninha.

Durante todo esse processo, outros potenciais clientes passaram pela lojinha, mas nunca entraram. É um pouco difícil dar detalhes dessas novas pessoas porque, ao contrário do jovem esportista, da família feliz e dos jogadores de futebol, esses novos transeuntes vieram apreciar a vitrine justamente no momento em que o suposto vendedor montava sua cabana. Como estamos vendo tudo de fora da loja, nossa atenção está voltada para o fundo, para a ação do rapaz, sendo desviada dos novos admiradores dos produtos azuis da vitrine azul da loja azul.

Agora, a barraquinha está queimando. O fogo já é da altura do homem. Ele está de volta à sua posição tradicional: de pé, inerte, mãos nos bolsos da calça jeans. Continua olhando para o exterior da loja (para nós?), enquanto a cabana queima, o fogo sobe, o calor aumenta. Não parece estar preocupado com isso, pois em determinado momento temos a impressão de que o fogo chega a tocar o rapaz (talvez, esteja frio mesmo).

Passaram-se mais horas (quantas horas tem o dia aqui?) e tudo o que se vê da barraquinha é sua porta. O resto é puro fogo ardente. Os pedestres, porém, continuam passando, em suas roupas azuis, olhando a vitrine azul, com produtos azuis, em uma loja azul. Mas nela não entram.

De repente, o homem abre a porta da barraca. Aliás, não seria exagero dizer que esta cabana se resume à porta. O resto é fogo, puro amarelo, o que é bom, pois quebra aquela terrível mesmice do cenário azul (o leitor mais atento poderá dizer que foi dito nas primeiras linhas que a visão não era estragada pelo cenário quase todo azul. Mas um escritor também tem o direito de mudar de opinião). Agora, temos azul e amarelo. Céu e fogo. A porta permanece aberta. O homem dá passos em direção ao interior da barraca (há interior? Não será tudo fogo?). Um senhor para bem na nossa frente, admirando uma bonequinha vestida em uma blusinha de lã azul. Contorcemos o pescoço para tentar ver o que o homem fará, mas o velho continua parado bem na frente. Ele sai, vai embora, enfim. Para nossa sorte, o homem também estava esperando a ação do senhor. Agora que o velho se foi, o suposto vendedor entra. E podemos ver como ele dá as costas para nós (costas largas, bonitas) e entra, devagar, pela porta da cabaninha, fechando-a a seguir.

As chamas, curiosamente, não se alastram pela loja. Elas permanecem apenas na barraquinha de madeira. E nós, daqui de fora, esperamos que o homem saia. Nem que seja todo transfigurado, com o rosto em pele viva, olhos vermelhos, um monstro de filme de terror. Mas que saia!

Talvez não seja necessário dizer que ele não saiu... Por dias, meses, anos (impossível diagnosticar o tempo, pois está sempre claro), nós esperamos seu retorno. Durante todo esse tempo, o fogo permaneceu apenas na barraca, não se alastrando pela loja, que permanecia com a porta aberta, como o homem deixara, antes de entrar na porta menor, a porta da barraquinha incendiada, para nunca mais voltar. Só nos restou apreciar os possíveis compradores que sempre passavam com suas roupas azuis, olhavam para a vitrine azul da loja azul, com seus produtos azuis e um fundo amarelo. Mas nunca entravam.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Cinthia

Cacá era um garoto deveras atípico. O pobre rapaz sofria de uma doença desconhecida, uma anomalia que lhe desfigurava por completo, da cabeça aos pés, diariamente. O verbo ''desfigurar'' não está aqui empregado no sentido usual, transpassando a ideia de fazer virar um monstro ou alguém horripilante, mas apenas de desfazer expressões, trocar um rosto (ou, no caso de Cacá, todo o corpo, o que é ainda pior) por outro.

A melhor maneira de explicar o fenômeno é contar um pouco a vida de Cacá, de modo mais ou menos linear. Já nasceu causando a separação de seus pais, loiros, descendentes de alemães, vendo com perplexidade um bebezinho negro. O pai, gritando por toda a maternidade que fora traído, pediu o divórcio no dia seguinte. No dia seguinte, porém, o bebê negro não mais existia, tendo se transformado em uma criança bem branca, embora ainda sem os olhos verdes dos pais,

– Vê como não te traí, homem? Está aqui o nosso filho, branco como nós!
– Vão para o inferno, você e aquele moleque preto! Está óbvio que são crianças diferentes!

Tal diálogo, ocorrido na mesa de um restaurante, fez o garçom negro franzir as sobrancelhas. Mas o pai de Cacá não era racista nem preconceituoso, adoraria ter um filho pretinho, desde que a genética lhe explicasse que isso era possível.

– Escute. Te chamei para esse almoço justamente para te mostrar quem é a nossa criança, que não sou uma traidora. O quê?! Não! Eu não troquei o bebê, está louco?! É o nosso Karl, sorri para o papai!

Karl, que rapidamente virou Cacá, não sorriu e o casamento dos pais se acabou. No terceiro dia, porém, o garoto ficou mais orelhudo e sua pele tornou a escurecer. Sua mãe, atordoada, criticava sua pouca capacidade de reparar nos detalhes físicos do filho. No quarto dia, justamente quando o pai foi em casa buscar roupas que ali deixara, viu o menino novamente modificado: ainda mais escuro e com as expressões parecidas com as do dia em que nasceu.

– Ah, então aqui está o moleque fruto da sua traição! Devolveu o garoto branco?

A mãe, chorando, não respondeu. Completada uma semana desde que pariu, telefonou e resolveu contar tudo à sua mãe sobre as mudanças físicas do menino e o consequente fim do seu casamento.

– Que bobagem! Bebês nessa idade mudam o tempo todo. Quando eu posso ir aí fazer uma visita ao meu netinho?

Completados um mês e trinta rostos diferentes, a mãe levou Cacá ao pediatra.

– Como vai esse garoto, mãe? Temos que tratar dessas sardas no rosto.
– Essas sardas são novas, doutor. Não estavam aí ontem.
– A senhora precisa estar mais atenta. Volte daqui a um mês.

Assim, ela fez, retornando com a sexagésima expressão facial em seu colo.

– Como esse menino está moreno! Bem, as sardas sumiram, mas ele deve pegar menos sol.
Por várias vezes, a mulher ficou olhando atentamente, durante todo o dia, para Cacá, a fim de perceber quando ocorreria a mudança. Nunca conseguiu. Quando bebia uma água, ia ao banheiro, cochilava um pouquinho, se efetuava a transformação. E não conquistou voluntários para um revezamento nessa ''missão maluca'', como eles caçoavam.
Aos três anos de idade, Cacá voltou ao pediatra. 

– Doutor, é como se fosse meu nonagésimo filho diferente!
– Explique, por favor.

Saiu do hospital e seguiu para um centro de umbanda.

Fato é que ninguém dava créditos para a mãe desesperada. Acabou por conformar-se e encarou Cacá não como uma aberração, mas como alguém único, em sua não unicidade.

Cacá crescia e desenvolvia-se normalmente. Aprendeu a andar, a falar e sua primeira palavra foi ''eu''. Sua mãe, com o tempo, percebeu que as mudanças ocorriam durante a noite e que o corpo de Cacá também se modificava (ora mais alto, ora mais baixo, ora mais magro, ora mais gordo). Resignou-se também em não ver as mudanças na hora em que ocorriam. Tendo reparado que era durante a noite que elas aconteciam, chegou a passar madrugadas em claro, entretanto, bastava um piscar de olhos e lá estava um novo Cacá. Pensava, portanto, que essa permissão não lhe era concedida.

O que mais alegrou a mãe foi saber que a personalidade de Cacá não se alterava. Independentemente de seu rosto e de seu corpo, era sempre um garoto dócil e tranquilo. Ótimo aluno, aprendeu sem dificuldades as operações matemáticas básicas e alfabetizou-se rapidamente. É claro que sua vida escolar não foi nada fácil e chegou a ser expulso de três escolas, por ser uma aberração, e de uma quarta, por excesso de faltas (o controle de presença era feito por uma máquina que fotografava os alunos quando entravam em sala). Essas expulsões, porém, diferentemente do que se pode imaginar, alegraram muito à mãe de Cacá, pois, ao contrário de suas amigas, familiares e ex-marido, nessas escolas, acreditava-se que aquele garoto, de fato, mudava diariamente sua fisionomia, ainda que lidassem mal com o fenômeno. Ela sabia, assim, que não estava louca.

A quinta escola de Cacá – e a única a aceitá-lo – tinha uma diretora interessada em estudar cientificamente o menino. Ao mesmo tempo em que o tratava como um simples objeto de pesquisa, fazia de tudo para que ele se sentisse bem na escola e não procurasse outra. Pensava em apresentá-lo à comunidade científica e à grande imprensa e enriquecer, mas, antes, precisava comprovar a veracidade da história àqueles cientistas e jornalistas que tinha em mente. Um dia, fez uma reunião com todo o corpo docente e pediu especial atenção àquele aluno, além de ter passado, de sala em sala, em um dia em que Cacá faltou, proibindo qualquer tipo de piada com o menino. O primeiro engraçadinho a caçoar de Cacá seria banido da escola! É claro que, além de essa proibição ter chegado aos ouvidos de Cacá, as gozações nunca cessaram. Seu apelido era, dentre outros, ''Cacamaleão''.

Cacá não se importava. Não muito. Como dito, era um garoto muito calmo, tinha reais amigos e era a eles muito fiel. Um dia, um menino de outra série fingiu ser Cacá e arrumou uma série de confusões com os seus amigos; depois de esclarecida a situação, criaram o que chamavam de ''código de reconhecimento''. Quando um garoto estranho ao grupo se aproximasse e dissesse ser o Cacá, um deles perguntaria:

– Quem criou o mundo?

Cacá deveria responder:

– A mãe de Joaquim.

Não conheciam nenhum Joaquim e não sabem de onde tiraram isso.

A diretora continuava a perseguir Cacá e, por várias vezes, chamava-o em sua sala para levantar questionamentos:

– Como é sua relação com os seus pais?
– Nunca vi meu pai. Com a minha mãe é ótima, senhora.
– Quando você percebeu que... não era como as outras crianças?
– Eu me olho no espelho diariamente, senhora.
– Foi assim que percebeu?
– Sim, senhora.
– Simples, desse jeito?
– Minha mãe, senhora, me explicava também.
– Foi fácil a aceitação?
– Acho que não tem muito o que aceitar. Desculpa, senhora, não entendi sua pergunta.
– O que desejo saber, Karl, é se você se sente bem ou mal com essa situação.
– Depende da cara com que acordo, senhora.

E assim foi até sua juventude. Quando, por exemplo, seus amigos o chamavam para sair à noite, só aceitava se julgasse ter acordado bonito. Na sua primeira noite fora de casa, morreu de medo de se transformar no meio da balada em alguém gordo, careca e desdentado. Mas percebeu que, ao contrário do que lhe dizia sua mãe, suas mudanças não necessariamente ocorriam à noite, mas, sim, quando dormia (o que, é claro, geralmente era à noite).

De posse dessa informação, Cacá resolveu se filmar dormindo. Assim como, havia anos, acontecera com sua mãe, a curiosidade de assistir à cena da transformação tomou conta de Cacá. Porém, em todas as suas tentativas, a filmadora chuviscou no ato da mudança.

Foi também nessa época que Cacá adquiriu a maioridade e teve que tirar seus documentos. Problemas à vista! Escolheu o dia do rosto mais comum para ir tirar fotos e dar entrada no pedido da carteira de identidade. Alguns anos mais tarde, chegou a ser barrado na entrada de uma festa, pois o segurança afirmava que o garoto da foto não era o mesmo que estava à sua frente, ao que, com espirituosidade, Cacá respondeu:

– Senhor, por favor, compare sua foto em sua identidade com o rosto que o senhor tem hoje. Estou certo de que haverão de ser fisionomias nitidamente diferentes.

Era um argumento imbatível. Só falhou uma vez, quando o segurança de um bar disse:

– Acontece, meu jovem, que desde que tirei minha identidade já se vão trinta anos. Já o seu documento, posso ver aqui, foi emitido há bem pouco tempo.

Desconcertado, Cacá respondeu:

– Senhor, mas essas fotos 3x4 enganam terrivelmente. Façamos assim: dê-me uma chance de assinar o meu nome em um pedaço de papel e o senhor compara as assinaturas.

O segurança consentiu, examinou as assinaturas idênticas e deixou Cacá passar.

Tinha já 21 anos e frequentava a universidade. Faculdade de Ciências Humanas, pessoal mente aberta, que aceitou Cacá sem segregá-lo por sua anomalia. Manteve as amizades do colégio, as reais, além da falsa amizade da diretora, que frequentemente visitava sua casa, para ''saber como ele estava'' e aumentava as informações que, segundo ela pensava, fariam com que ela ''ganhasse muito dinheiro e ficasse muito famosa''. Ela deveria correr agora, pois, uma vez na universidade, no seio da ciência, haveriam de  explorar Cacá antes dela. Não exploraram, porém, e Cacá se alegrava por sua história ainda não se ter tornado pública.

Aos 22, pertencia ao time de vôlei da universidade. Era, de fato, excelente jogador, mas, em uma partida decisiva, acordou acima do peso e teve que ser substituído. Seu time perdeu e foi eliminado dos jogos universitários.

Aos 23, sua mãe faleceu, deixando como últimas palavras: ''Seja você mesmo''. Apesar das lágrimas nos olhos, Cacá ria e se divertia com esse conselho.

Agora, precisava trabalhar para se sustentar, mas sabia da impossibilidade de conseguir um emprego. Desesperado, pensou em contar seu caso à imprensa e ganhar algum dinheiro, mas foi desencorajado por um amigo do seu antigo colégio. Desconhecedores dos planos da antiga diretora, conversavam:

– Oi, sou o Cacá.
– Quem criou o mundo?
– A mãe do Joaquim.
– Fala.
– Vou aos jornais, à TV, contar meu caso.
– Problemas de dinheiro?
– Muitos.
– Você vai ser ridicularizado, você sabe.
– Sei.
– Vai parar nos circos, com mulheres peludas, homens-elefantes e anões saltadores.

Cacá riu.

– Não acho que meu caso seja tão circense...
– Em algum lugar de bizarrices, você vai parar.

Esse amigo sugeriu que Cacá tentasse algum emprego em que não precisasse mostrar o rosto, em que trabalhasse em casa. Ele tentou, mas não foi contratado por nenhum. Chegou a ser chamado para um, contudo, quando apareceu para os exames médicos uma pessoa totalmente diferente da que fora à entrevista, expulsaram-no do local. Foi a partir daí que passou a viver às custas do amigo, que mensalmente lhe enviava uma quantia suficiente apenas para sua sobrevivência. Estava consciente, porém, de que essa situação não se poderia manter para sempre. Não sabia o que fazer.

Para piorar, sua vida sentimental, que, evidentemente, nunca tinha sido muito boa, desgraçou-se ainda mais. Mudou-se para o seu prédio uma linda garota, por quem ele imediatamente se apaixonou. Já tivera vários casos com inúmeras meninas, mas, graças ao seu problema, sempre havia sido por uma só noite (nem precisava se preocupar em esconder-se no dia seguinte). Nunca namorou e tinha em mente que ficaria para sempre só. Mas, agora, essa garota atrapalhava os seus planos.

Trocou poucas palavras com o seu amigo sobre a menina. Ele o incentivou a falar com ela, mas ele sabia que aquilo era inimaginável. Cacá não sabia nada da vida dela e ela, é claro, tampouco sabia da dele, desconhecendo totalmente sua doença.

Num domingo em que Cacá amanheceu nem particularmente bonito nem particularmente feio, resolveu passar horas na janela de seu apartamento, observando um dia que também não estava nem particularmente ensolarado nem particularmente chuvoso. Viu no saguão do prédio sua ex-diretora, acompanhada por cinco homens com câmeras nas mãos. Sabia ser ele o alvo da procura e desceu rapidamente pelas escadas, enquanto a mulher e os cinco homens subiam pelo elevador. Contornou o térreo, agradeceu mais uma vez por aquele ser um prédio sem porteiro e sentou-se em um banquinho de uma praça lateral, perguntando-se quando os visitantes iriam embora – se é que iriam.

Num misto de melancolia e desespero, permaneceu ali sentado por um longo tempo, quando sentiu um hálito fresco e gostoso ao seu lado. Era a garota por quem era apaixonado, linda. Ela disse, num tom jovial, nada irritado:

– O que mais tenho que fazer para você me olhar?
– Como? Está aí há muito tempo? Não reparei, o pensamento está voando, desculpa.
– Há muito tempo, sim. Não apenas há muito tempo hoje, mas há muitos dias. Tem, pelo menos, um mês que eu te olho, que não te tiro da cabeça. Você é tão bonito!

''Pelo menos, um mês'', ela disse? Mas ele mudava todo dia de fisionomia! Como isso era possível?

– Meu nome é Cinthia. E eu te amo.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Há barulhos em toda parte

Há barulhos em toda parte, o silêncio não existe. Talvez no espaço, mas a ciência que me perdoe: não acredito. Pode ser que só haja silêncio onde exista a surdez, mas quem garante que aí também não há vozes o tempo todo se fazendo presentes? Para um surdo de nascença, talvez... Mas o mais provável é que só mesmo depois de morto teremos essa calmaria absoluta.

Ela não sabia disso quando se mudou para a região mais afastada da cidade. Cansou-se dos ruídos urbanos e seu único critério para escolher a casa nova foi a maior ausência possível de sons. Certificando-se de que por ali não passava vivalma, restava-lhe agora isolar os barulhos da natureza, tais como o vento e a chuva. Contratou uma equipe de acústica e fez grandes obras a fim do completo silêncio. Quando tudo estava pronto, pagou satisfeita pelo serviço e deitou-se na cama. Era hora de ouvir o nada.

Os nervos vieram-lhe logo à flor da pele quando escutou os móveis estalando, os insetos voando, uns cracks, pracs, precs, que sabe-se lá de onde vinham. Ela não percebia que, quanto menos se têm os barulhos do dia-a-dia, mais se ouvem outros, desconhecidos. São uns sons misteriosos cuja origem nos foge e que, por isso mesmo, enchem-nos de pavor.

Se tivéssemos nossos ouvidos apurados, bem treinados, se o meio de vida urbano não os impedisse de ouvir certos sons que só escutamos quando cremos haver silêncio, não nos aterrorizaríamos tanto diante desses barulhos, simplesmente porque os conheceríamos. Mas não. Ignoramo-los. Escapam-nos cotidianamente e, quando a sós com eles, apavoramo-nos.

Toda essa agitação urbana tinha feito com que a mulher também deixasse de ouvir os sons de quem a chamava. Sussurravam seu nome constantemente. E ainda sussurram. Além dos móveis estalando, dos insetos voando, do vento e da chuva, há todo um círculo de pessoas que a chamam sem serem respondidas. Não a censuramos, é claro, pois isso também acontece conosco. Os insetos, talvez, não sejam apenas insetos, tampouco o vento, tampouco a chuva. Os móveis, quiçá, não estão estalando, mas pode ser que, no desespero de não receberem atenção, essas pessoas invisíveis lhe batem graciosamente, apenas encostando na madeira para se fazerem sentir.

Insensível, como todos nós, ela permaneceu ignorando essas pessoas. Os móveis eram móveis, o vento era vento, a chuva era chuva e os insetos eram insetos. Não pôde isolá-los. Teve que ouvi-los para sempre. Morreu. Dizem ter sido suicídio. Silêncio. Silêncio?

sábado, 7 de dezembro de 2013

Lágrimas da comédia

– Que aconteceu com o Pablo?
– Não sei direito... Parece que a mãe dele foi hoje ao médico e as notícias não são nada boas.

A que fez a pergunta era uma amiga de longa data de Pablo e o que respondeu era o promotor do espetáculo. Pablo era comediante, tinha acabado de subir ao palco e a conversa acontecia no camarim.

– Estou muito preocupada. Desde que o conheço – e lá se vão bons anos! –, nunca o vi daquela forma.
– Não o conheço há tanto tempo, mas é verdade que eu tampouco já o tinha visto naquele estado. Chorou muito depois do telefonema.
– Preciso conversar com ele. Foi péssimo a ligação ter acontecido tão pouco tempo antes do espetáculo.
– Falei para ele não se apresentar. O público entenderia, é claro. Mas ele insistiu que deveria ir adiante, que milhares de pessoas compraram ingresso para vê-lo, para rirem e se divertirem nessa noite... “Mas como você vai fazê-los rir?”, eu perguntei. “Como vai fazê-los rir depois de você próprio tanto chorar?” Ele me respondeu que tinha técnicas, que um bom comediante não precisa estar feliz para fazer os outros felizes, da mesma forma que um bom ator não precisa estar triste para atuar numa cena triste...
– Sim, claro, mas esses atores têm um contexto. Talvez, se Pablo não fosse o único ator de uma comédia em pé, eu lhe desse razão, mas não é fácil ficar lá, fazendo palhaçadas e contando piadas, se você não está com o mínimo humor para isso.
– Eu concordo. Mas ele insiste que tem a técnica.
– Isso é absurdo! – disse a maquiadora, que até então estava calada. – Assim como você, eu falei tanto para ele não subir ao palco... Não é que ele tenha acordado mal disposto ou num leve mau humor, como acontece com todos nós. É a mãe dele que vai morrer!
– É grave assim?
– Câncer descoberto tardiamente, já em estado terminal. Foi o que ele me disse por alto, mas não pedi detalhes. Nem deu tempo, porque logo teve que iniciar o espetáculo.

Assim, ficaram os três, por uma hora e meia, falando que Pablo não deveria ter subido ao palco, que aquilo seria um fiasco, que a crítica iria detoná-lo, que seria a maior frustração do ano, que ele era um dos comediantes mais famosos do país, que tinha um nome a zelar, que não precisava se submeter àquilo, que, ainda que dominasse todas as técnicas para fazer rir mesmo sem estar feliz, ele deveria cancelar o espetáculo, em respeito ao seu próprio sofrimento, que ele não deveria passar por aquela tortura.

– Já pensou você ter que contar piada, se sentindo mal? – disse a maquiadora. – Quem dera o problema fosse só a reação do público. É torturante para ele próprio!

Terminada a apresentação, assim que Pablo apareceu, foram os três, afoitamente, recebê-lo na porta do camarim.

– Vocês tinham razão – disse Pablo, cabisbaixo. – Foi um erro ter subido ao palco.

A amiga, o promotor e a maquiadora se entreolharam, com feições coniventes.

– Não sei o que deu em mim – continuou Pablo. – Quis bancar o Pierrot, encarnar o célebre personagem do palhaço entristecido, mas quem chorou foi a plateia...
– Como assim? – perguntou a amiga.
– Choraram. Era incrível, mas foi isso. Eu contava uma piada e eles choravam. Não riam; choravam.
– Mas espere aí – disse o promotor, meio sem jeito. – Eu mesmo já esperava que não rissem. Mas chorar já é demais, né?
– Choraram...

Passados trinta segundos de um silêncio constrangedor, o faxineiro pediu licença para recolher o lixo e, sem recato, exclamou um grito de parabéns a Pablo.

– Parabéns por quê? – perguntou Pablo, desanimado.
– Como por quê? Seu espetáculo foi muito bom! Ouvi tudo enquanto trabalhava e realmente até me desconcentrou. Foi engraçado demais! Não pude parar de rir. Nem eu nem a plateia. Sério mesmo: para onde quer que eu olhasse, via gente rindo, rindo muito, às gargalhadas! Parabéns! – E virou as costas e foi-se embora com o lixo.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A coisa debaixo da cama

1

Aproxima-se o momento em que eu terei que olhar para baixo da minha cama. Foram anos evitando aquilo, mas não posso mais. Sempre me foi evidente que tinha alguma coisa, que algo ou alguém vivia ali debaixo, mas eu não queria saber, passei a minha vida a ignorar aquilo.

Tudo começou quando, criança, comecei a chorar. Eu ainda não falava - talvez já tivesse acontecido antes, mas se trata de minha memória mais antiga. Comecei a chorar e ninguém sabia por quê. Meus pais debatiam o motivo de meu choro, precisaram ligar para meu pediatra, até que veio a solução: olhar embaixo de minha cama. Não sei o que viram, não lembro o que fizeram, mas resolveu: voltei a dormir tranquilamente.

É claro que tinha algo embaixo da minha cama. Tem algo debaixo da cama de todo mundo, por que comigo seria diferente?

Eu nunca olhei diretamente lá para baixo, mas já vi evidências da existência de algo ali. Um dia, minha mãe se acidentou e foi hospitalizada. Eu tinha em torno de onze anos e fiquei muito preocupado. No abismo de minha impotência infantil, sem saber como agir nem como ajudar, vi uns olhos ali debaixo. Foi de relance, uma só luz. Corri para a sala e dormi no sofá.

Aquilo queria falar comigo. Sempre que tenho insônia, a coisa me chama. É horrível, porque são grunhidos, gemidos, mas eu finjo não ouvir, porque, do contrário, o sono teimará ainda mais em me encontrar.

Eu tenho que ver quem está ali. Envolto à poeira, ao escuro e ao inacessível, há uma coisa ali.

Durante meu período universitário, aconteceu uma das experiências mais temerosas com meu vizinho debaixo do colchão. Ele não se contentava mais em me chamar. Como que exausto por eu não lhe dar atenção, ele resolveu me buscar de alguma forma mais física. Duas mãos saíram de lá, apalpando o colchão. Meu grito deve ter assustado a coisa, pois foram dias sem reaparecer. Ela voltou quando eu tive uma forte dor na boca do estômago, que perdurou por três dias, e eu sabia que tinha algo a ver com aquilo. Ela confirmou, com sua risada macabra.

Um dia, eu (que, a essa altura já tinha mais de vinte e cinco anos) estava deitado na cama e mau pai bateu à porta. Gritei-lhe para entrar, mas, quando ele girou a maçaneta e pisou no quarto, imediatamente desviou o olhar do chão. Sei que ele viu alguma coisa ali embaixo. O mesmo aconteceu outras vezes, não só com ele, mas também com minha mãe. Eles estavam tão impressionados com a coisa que em um momento vieram me aconselhar a buscar o que chamaram de "ajuda profissional", termo que, para eles, englobava de padre a terapeuta. Eu recusei, porque sabia que esse ajudante nada mais faria do que me mandar olhar lá embaixo e eu não queria. Só fui considerar tal ajuda quando a quinta namorada terminou comigo por causa daquele demônio de olhos brilhantes. Digo: elas não falavam que era por isso, mas, para mim, não havia outra razão. Eram namoros curtos, porque, assim que dormiam na minha casa, diziam não estar preparadas para o relacionamento.

Hoje, estou apto a conhecer a coisa. Não que eu vá enfiar a cara ali embaixo, não, de jeito nenhum. Não de imediato. Vou começar aos poucos, tentando estabelecer contato verbal, de cima da cama, antes de olhar. Já tenho trinta anos e minha vida é tão infértil que só pode ser culpa desse diabo. Não tenho nada, não conquistei nada, ninguém, meu trabalho é um asco, ainda moro com meus pais… Tenho que exterminar a coisa.

Ele, ela, isso, não está lá de dia. É só à noite. Tarde da noite, na verdade. Geralmente, quando durmo. Hoje, falarei com ela.

2

Como prometido, falei com a coisa, de cima do colchão, sem estabelecer contato visual. No primeiro dia, ela não apareceu. Chamei-a timidamente, mas ninguém me respondeu. Meu medo falou mais alto e não insisti. Esperei o coração normalizar suas batidas e dormi. No segundo dia, estabeleci o primeiro contato. Novamente, ela não atendeu ao meu primeiro chamado. Eu sussurrei vários vocativos - coisa, diabo, demônio, monstro -, mas nada. Só houve resposta quando fiz uma pergunta direta: "Você já morreu?" Na verdade, essa resposta foi apenas um gemido. Congelei. Não falei mais nada. No terceiro dia, a coisa novamente não me respondeu. Tentei sucessivas vezes nos dias seguintes, mas o silêncio imperava. Só no décimo dia, quando eu já me sentia mais corajoso - talvez, justamente por não mais esperar resposta -, aconteceu o diálogo.

- Você já morreu? - eu repeti a pergunta.
- Morrendo - veio a voz lá de baixo. Eu tremi, senti o colchão se mover com minhas batidas cardíacas. Não desisti, porém.
- Você está vivo, portanto?
- Morrendo.
- Você é homem ou mulher? - perguntei, pois a voz era completamente indefinida. Não houve resposta, porém, além de um gemido. - Quem é você?

A ausência de resposta persistiu. Restando o silêncio, preferi não forçar. Já havia feito grandes avanços nesse dia.

No dia seguinte, ele - ou ela - foi quem puxou assunto.

- Você não tem tempo para mim.

Pulei da cama ao ouvir aquela voz. Agora, parecia voz de homem. Na verdade, parecia-se com a minha própria voz.

- O dia-a-dia agitado nunca te permitiu me olhar.
- Por que você diz isso? - perguntei. Ele parecia bem mais falante nesse dia.
- Você sabe… Desde o seu nascimento, busco contato. Você sempre me evitou.
- Mas eu nem sei quem é você.
- Esse é o problema.
- Acho normal as pessoas não quererem contato com monstros debaixo da cama.
- Só o desconhecido é monstro.
- Você não é um monstro?
- Enquanto você não me conhecer, sou.
- Você é um espírito?
- Um pouco.
- Um fantasma?
- Não diria, mas posso ser.
- Então, quem é você?

Nenhuma resposta. Novamente, a conversa se encerrava com essa pergunta.

Tinha me decidido. Iria vê-lo na próxima conversa.

3

- Coisa? Você está aí? - perguntei, depois de duas semanas de silêncio.
- Eu sempre estou aqui.
- Então, por que passou dias sem me responder?
- Eu respondi, você não ouviu.
- É sempre tarde da noite, portanto há silêncio!
- Mas você não me ouviu.
- Você não falou nada!
- Falei. E não só aqui. Estou contigo em todos os lugares.
- Em todos os lugares? - Voltei a sentir o medo de velhos tempos, mas não podia deixar esse terror me afastar da decisão de descer da cama.
- Em todos os lugares. Mas, como já te disse, o dia-a-dia não te deixa me notar.
- Vou aí!

Eu fui. Em um só impulso, desci. Joguei-me da cama, com a respiração presa, cada músculo contraído, olhos muito abertos. E vi a coisa. Ela estava ali. Ela, ele, o monstro. O diabo. O demônio. A voz. Era minha imagem. Eu mesmo. A coisa era eu.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O poste

Ele não era insone antes do poste. Começou a padecer desse mal depois que a companhia elétrica instalou um poste bem em frente à sua janela. A luz entrava pelas ventanas e morria-lhe nos olhos. Esmagava-o contra a cama, torturava-o até que não mais aguentasse e se levantasse, irritado.

A primeira providência foi fechar as janelas, ainda que lhe desagradasse o calor do quarto. Não bastou, o que o obrigou a comprar cortinas, dispensáveis até então, dado o habitual negrume absoluto da noite. As cortinas foram ainda insuficientes, mesmo com um pesado forro blackout. Decidiu, assim, trocar a cama de lugar, passá-la para a parede oposta à janela. A luz, contudo, continuava a invadir seu espaço, refletia no espelho e alcançava-o em cheio. Passou o espelho para a sala e a luz, agora, ricocheteava na própria parede onde outrora estava a cama, atingindo-o na parede oposta. Cedeu e foi dormir na sala.

Assim, passavam-se já duas semanas sem que o insone pudesse dormir amenamente, sem que soubesse o que é descansar de um dia agitado.

Na primeira noite na sala, pensou ter encontrado a paz, mas o espelho – aquele mesmo que estava no quarto – voltou a incomodá-lo, refletindo, novamente, a luz do poste, que, sabe-se lá como, transcorria por dois cômodos. Dessa vez, como fruto da irritação de tempos sem um bom sono, o insone não mudou o objeto de lugar, mas o quebrou aflitamente. Precisava mesmo dormir. Não esperava, contudo, que os cacos no chão continuassem a refletir seu inimigo iluminado.

Varreu os cacos na manhã seguinte, teve mais um dia de trabalho – não sei se é de interesse, mas ele era professor – e sentia doerem-lhe as costas das noites no sofá. Nessa noite, não teria espelho (nem sequer os cacos de vidro), fecharia as cortinas, as janelas e dormiria na sala. Juntaria todas as armas contra o poste, tudo em busca de uma noite de sono. Não bastou, porém. Pairava-lhe sobre os olhos um círculo de luz radiante e ele não sabia mais de onde ela vinha, como conseguia entrar ali, onde refletia.
  
Não só a sala como todos os cômodos da casa foram testados na busca pela escuridão (até o banheiro!), mas, como uma serpente em um labirinto, a luz achava o caminho rumo aos olhos do insone. Só havia uma solução: mudar de residência.

Vendeu seu apartamento (abaixo do preço) e comprou outro, em outra rua, outro bairro, bem distante dali. Na primeira noite, chorou, pois, assim que entardeceu e os postes começaram a se acender, percebeu a luz em toda a sua nova casa. Parecia impossível; antes de fechar negócio, tinha se certificado de que não tinha nenhum poste por perto. E não tinha mesmo. A luz vinha daquele antigo poste, refletindo além de sua antiga rua, de seu antigo bairro, furando avenidas, vencendo obstáculos, desvendando caminhos, cruzando a cidade para encontrar os olhos daquele infeliz homem.

Se não podia fugir do poste, teria que enfrentá-lo. Deveria destruí-lo. Se, ao menos, a energia caísse e ele tivesse uma noite, apenas uma noite de sono… Telefonou para a companhia elétrica, dizendo que havia mais de dois meses que a energia não caía, que a cidade não mergulhava na agradável e almejada escuridão.

– Nesse caso, o senhor deve selecionar a opção 2 no menu inicial.

Mas a opção 2 era referente a elogios e ele queria era criticar. Ligou de novo. Agora, solicitou que tirassem aquele poste de lá, pois estava a prejudicar o sono dos cidadãos locais. Foi-lhe negado o pedido, é claro. Teria que executar a tarefa com suas próprias mãos.

Eram já três meses sem dormir, o que lhe dificultava responder à questão: "Como se destrói um poste?". A resposta veio no rádio: "Carro fica destruído após derrubar poste na Avenida Central".

Com olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, rosto pálido e cadavérico, imensas olheiras, alucinado, pegou a chave de seu automóvel, girou a ignição e pisou tão forte no acelerador que cantou pneu. Era a hora de destruir aquele poste! Dirigiu até sua localização, mas não o derrubou de imediato. Estacionou ao seu lado, a contemplá-lo, a se despedir ao mesmo tempo em que tripudiava sobre o objeto: "Hora de cair, meu amigo! Espero que tenha se divertido ao me infernizar, pois sua existência chegou ao fim!"

Deu ré o máximo que pôde, engatou a primeira marcha, acelerou e, segundos depois, já estava a 200 km por hora. Explodiu o veículo contra o poste. O airbag foi acionado e os mecanismos de segurança do carro evitaram que o homem sofresse danos mais graves, mas o poste, este caiu mesmo, conforme planejado. O que o insone não esperava era que caísse em cima do automóvel. O homem morreu não com a batida, mas com o poste que, ao desabar, esmagou-lhe o crânio. Fez-se, enfim, a escuridão e, finalmente, o homem pôde descansar.