terça-feira, 26 de novembro de 2013

O ônibus, a gorda e a festa

Todo ônibus laranja que passava era o 433. Ele não me servia, me deixava longe de casa, além de dar uma volta descomunal pelo Rio de Janeiro. Estava havia 50 minutos esperando pelo 432, em pé no lotado ponto em frente ao shopping Rio Sul, suando sob um sol de quase 40 graus, embora já caísse a tarde. Aquilo me irritava, eu inspirava profundamente para poder me controlar. Se, ao menos, o 432 fosse o único ônibus laranja, mas não! Tinha o maldito 433, da mesma empresa, com o mesmo “Vila Isabel” no painel frontal. A cada ônibus laranja que eu via no horizonte, a cada 433, a cada esperança perdida, meu coração só batia mais forte e a raiva aumentava. Caso se completasse uma hora de espera, eu já me tinha decidido a pegar o 433 mesmo e dane-se! Eu faria a tour pelo Rio, desceria longe de casa e iria andando... Tudo era melhor do que aquela agonia.

Passada essa hora, foram mais dez minutos sem nenhum ônibus laranja. Foi aí que, enfim, vi o 432! O sentimento, que poderia ser de alívio, foi de mais raiva ainda. Tive que ir quase para o meio da pista, a fim de evitar que o motorista cortasse por fora dos ônibus já parados no ponto. Nisso, dei uns encontrões, recebi outros, corri entre táxis e, quando, por fim, o motorista parou, tive que pôr minha mochila em um só ombro para conseguir subir. Ônibus lotado, é claro, provavelmente de pessoas que esperaram tanto quanto eu, tão infelizes quanto eu, tão furiosas quanto eu, tão suadas – de calor, de raiva, vai saber – quanto eu! 

Por uma fresta da janela, pude ver as peruas saindo do Rio Sul com sacolas de compras e imediatamente quis que todas morressem. O ódio aumentou quando o ônibus parou no ponto da UFRJ e uns vinte estudantes entraram. Era fisicamente impossível cabermos todos. Minha coluna latejava, minhas pernas fraquejavam, meus braços tentavam desesperadamente alcançar um ferro de apoio. Com o dedo mindinho, consegui me equilibrar na roleta, onde eu estava espremido. Eu precisava sair de lá, respirar, pensei que fosse passar mal. Mas, se passasse, não seria de outra coisa senão raiva.

Na Praia de Botafogo, o ônibus parou. Congestionamento. De Botafogo até o Santa Bárbara, levei 40 minutos. Isso era todo dia, isso não podia ser vida. Eu precisava de um carro. Quando esse pensamento me veio à mente, imediatamente concluí: se tivesse um veículo próprio, não estaria espremido. Só isso. Continuaria no trânsito de qualquer forma e ainda teria o infortúnio da direção. Ah, também não precisaria esperar tanto tempo na parada, mas me estressaria com outras coisas, como estacionamento, por exemplo. Não. Melhor ter estresse semelhante, mas pagando apenas R$ 2,50.

Conforme os pensamentos fluíam, as pessoas iam descendo e o ônibus se esvaziava. Consegui sentar, pus-me a refletir na janela, vendo a paisagem, e disso eu gostava. Acalmava-me olhar os vultos passando pela janela, ainda que a 20 km/h. E mais pensamentos chegavam a mim.

Pensei no tamanho do universo. Digo: pensar, não pensei, porque não sei qual é o tamanho do universo. Mas sei que é grande. O universo, a galáxia, o sistema solar, o planeta, o hemisfério, o continente, o país, o estado, a cidade... É tudo tão maior que eu. Que importância tenho eu para Deus? Nenhuma, é claro. Quando eu falo em Deus, quero dizer isso: a grandiosidade das coisas. Eu queria que existisse um Deus consciente, que conversasse comigo, que me respondesse, até mesmo me punisse. Mas não creio que haja. Deus deve ser é isso mesmo: a enormidade das coisas que desconhecem minha existência, a existência do shopping, das peruas do shopping, desse ônibus, do 432, do 433, dessa merda toda sem nenhuma importância. Por que vou me irritar com coisas tão supérfluas perante Ele? Ou será que me irrito justamente por elas fazerem parte do meu mundinho, exatamente porque eu não teria nenhuma capacidade de me rebelar contra o Grande Deus em sua desconhecida grandiosidade?

Com esses pensamentos, sentia-me menos irritado, mas não menos infeliz. O que me consolava eram minhas férias, que se iniciariam uma semana depois. Viajar, ficar longe desse inferno de ônibus, trabalho, trânsito!


– Próxima semana eu entro de férias! – disse-me uma mulher ao meu lado, como se imitando meus pensamentos. Tomei um susto e, dada a falta de contexto daquela afirmação, pus-me a ignorá-la. Acontece que, quando uma gorda com meio quilo de blush começa um assunto, está aquém da minha habilidade fazer com que ela se cale. Eu não respondi, mas ela persistiu... E contou que iria não sei aonde para visitar a filha, que não via os filhos havia muito tempo, que não sei o que nem o que lá. 

– E você? Trabalha onde? – me perguntou. Que inferno! Para piorar, havia esquecido meus fones de ouvido em casa! – Meu trabalho é sofrível! – ela me disse, vendo que eu não respondia à sua pergunta. E desandou novamente a tagarelar. Se essa falação tivesse ocorrido quando eu esperava no ponto de ônibus ou quando estava tomando cotovelada no nariz com o veículo amarrotado de gente, talvez eu a tivesse matado. Sorte dela que eu estava já mais calmo.

– Sou humilhada pelo meu chefe todo dia – ela continuou seu monólogo. – Ele me xinga, me desrespeita, me assedia moral e sexualmente. – “Sexualmente!”, eu pensei. Meu Deus, que gosto esse cara tem! – Sou uma boa trabalhadora, não sei por que ele faz isso comigo. A verdade é que não é só comigo. Sabe? Vou te contar uma coisa... – “Não me conte!” – Ainda que o chefe fosse uma boa pessoa, o trabalho seria sofrível. É uma função banal mesmo. Mas, sendo o chefe ruim, meu Deus! Não consigo pensar em pior conjuntura. – “Nem eu, minha senhora, nem eu!” – E já são sete anos nessa firma! Sete anos naquele mesmo escritório empoeirado, mal cheiroso, sendo humilhada diariamente. Mas valeu a pena. Vou rever minha filha depois de muitos anos! Pude juntar dinheiro graças a esse meu emprego que, apesar de asqueroso, me possibilitou essa viagem.

– E vale a pena, minha senhora? – Meu Deus, por que eu fui falar? – Vale a pena passar sete anos de sofrimento para, em troca, ter quinze ou trinta dias de felicidade?

– Nem quinze nem trinta. Vinte. Ficarei vinte dias com minha filha. Ah, vale a pena, sim! Quero dizer... Matematicamente, não vale a pena, é claro. São sete anos ruins contra vinte dias bons. Mas a vida não é assim? Quem é o felizardo que tem mais dias bons do que ruins?

Meu Deus do céu! Havia minutos eu estava justamente comemorando as minhas férias, que também serão de um período irrisório perante a infinidade do tempo de sofrimento cotidiano, e agora estou a julgar aquela pobre mulher? Meu Deus!

(Aliás, não paro de falar “Meu Deus”, é mania minha. Já disse não acreditar no Deus em que eu gostaria de acreditar. Acho que, justamente por isso, eu o invoco a todo momento...)

– A vida é uma festa! – ela me disse, peremptoriamente. Estranhei aquela afirmação, porque, a meu ver, contradizia o teor pessimista do que ela falava até então.

– Como a vida é uma festa? – perguntei.

– Ora, você já organizou uma festa? É exatamente isso: você passa meses se descabelando para escolher o lugar, as comidas, as músicas, os convidados, enfim, você passa um longo tempo desesperado com os preparativos. Mas a festa em si dura, no máximo, uma noite. Você se estressa com o fim de se acalmar. Você sofre para ser feliz.

Levantei-me imediatamente e sinalizei que queria descer na próxima parada. Parabéns, gorda, você destruiu minhas férias! Ainda faltavam cinco pontos para o ponto da minha casa, mas foda-se, eu iria a pé! Para descer aqui, eu poderia ter pego o 433. Uma hora e dez minutos esperando pelo 432 à toa. Por causa de uma gorda que não sabe espalhar o blush na cara. Uma gorda-palhaça. Uma gorda enviada pelo diabo para me mostrar o terrível significado de nossa existência.

2 comentários:

  1. Gosto do seu jeito de escrever, VG (nunca vou parar de te chamar assim :P). Poste sempre :)

    ResponderExcluir