domingo, 24 de novembro de 2013

O morto e os cegos

Um odor ruim, embora suave,
emana na cidade.
Do solo aos ares,
em todos os lugares,
a náusea é inevitável.

Alguns sabem tratar-se de um cadáver,
mas a maioria não os crê,
nem mesmo pode ver
o homem morto esticado
na avenida principal da metrópole.

O trânsito é caótico
e transeuntes se acotovelam.
Há menos espaço nas ruas,
pois há um defunto de pernas nuas,
estirado sem ninguém o notar.

Não há sangue, é claro.
Se houvesse, já teriam reparado
no infeliz fedorento putrificado.
É morte limpa, mas incomoda
os cegos com hora marcada.

Verdade seja dita:
há aqueles que conhecem a origem
do desconforto, do mal estar e do fedor.
Mas não querem num morto as mãos pôr
nem ganham crença ao contarem o que veem.

O engraçado é que naquele lugar,
onde jaz o falecido diminuto,
ora ou outra tropeça um apressado resoluto,
que deduz ter sido uma pedra ou algo que a valha
o motivo de sua queda, mas jamais um defunto!

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