sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O apressado e o precavido

O apressado e o precavido foram os dois últimos integrantes de sua família, pela qual o anjo e o diabo sempre travaram ardorosos duelos. Cada um destes conta vantagem para o seu lado, mas, como este narrador não tem especial apreço por nenhuma das partes, devo dizer que se encontram em um tipo de empate técnico, onde se algum leva vantagem sobre o outro, é por uma margem desprezível.

Geralmente, se o anjo vencia a disputa sobre uma geração da família, o diabo conseguia maior controle sobre os descendentes. Isto quando em uma mesma prole os dois não possuíam forças análogas. E era esta a conjuntura da geração do precavido e do apressado, onde sobre o primeiro, o anjo possuía maior influência, enquanto ao segundo agradavam mais as ideias do diabo.

O apressado era mais velho. Tinha como lema principal: “Viva cada dia da sua vida como se fosse o último”. O caçula, mais bem comportado e desejoso de moldar sua personalidade da forma mais diferente possível da do irmão, preferia a frase: “Melhor prevenir do que remediar”. Quando mais jovens, aliás, viviam disputando por ditos populares. Se, por exemplo, um dizia que “a pressa é a inimiga da perfeição”, o outro logo falava que não se deve “deixar para fazer amanhã o que se pode fazer hoje”.

O apressado nunca se casou. Sempre ouviu o diabo que sussurrava em seus ouvidos e lhe oferecia orgias e amores efêmeros. Desprezava todo e qualquer tipo de paixão romântica; não concebia passar um pôr-do-sol inteiro de mãos dadas com uma garota nem desperdiçar um dia de chuva em casa, vendo filme ou descansando, enquanto poderia estar lá fora a se molhar. Não era insensível, que isso fique claro. Ao contrário, apaixonava-se constantemente, diariamente. Era um entusiasta da vida, das mulheres e não tratava nenhuma delas com pouco respeito nem mesmo com pouco amor. Mas estas paixões se iam com a mesma facilidade com que vinham.

O apressado tinha a convicção de que morreria cedo, o que era seu argumento único contra todos aqueles que lhe diziam que um amor faz falta para a eternidade, que um velho sem uma velha é certamente infeliz. “Não ficarei velho”, ele respondia, não só quanto à questão amorosa como também quanto à profissional. Teve muitos trabalhos, mas foi demitido da maioria deles. Insubordinado, desprezava a hierarquia das empresas por onde passou e possuía um baixo índice de assiduidade e pontualidade. Não era raro vê-lo nas praias jogando futebol na hora do expediente. Por isso, jamais conseguiu juntar uma quantia significativa de dinheiro, o que o fazia viver sempre no limite de sua pífia conta bancária. E, se perguntavam se ele não temia o futuro, uma vez que velhos gastam mais dinheiro que jovens (por ficarem mais facilmente doentes, segundo a lógica dessas pessoas), ele respondia, com o consentimento do diabo: “Não ficarei velho”.

O apressado, porém, errou. Ele ficou velho. Cumprimentou a morte várias vezes, mas ela só conseguiu levá-lo quando ele já era nonagenário. Antes disso, caiu de moto, brigou na rua, trocou tiros em confusões em boates, reagiu a assaltos e foi esfaqueado, mas... Permaneceu vivo. E a velhice foi muito mais terrível do que seus amigos lhe haviam alertado. A falta de uma companhia, de um amor não meramente passageiro, bateu-lhe no peito muito antes de seus 90 anos. Precisou entrar na casa dos 60 para perceber que aquela seria uma década inútil se vivesse sozinho. Até tentou se apaixonar, mas havia treinado seu coração para a independência, para a solidão. Quando os 70 anos chegaram, as dores já não mais eram apenas espirituais, mas também físicas. Não chega a ser surpresa o fato de um sujeito que foi tão poucas vezes ao médico em sua vida e que sempre tratou sua saúde com tamanho desdém, uma vez que acreditava que morreria cedo, ter atingido a marca dos 70 anos de modo tão debilitado.

O apressado constantemente tomava satisfações com o diabo, perguntando por que o escutou tanto. Mas o diabo aparecia com cada vez menos frequência, ao contrário do anjo, que costumava surgir para dizer: “Ah, se tivesses me ouvido!”

Tudo era agravado porque o apressado não tinha nenhuma verba e vivia dos favores financeiros que lhe prestavam os demais moradores da vila onde morava. Jamais cogitou chegar a essa humilhação: viver de esmola, sem nenhum amor e em uma cadeira de rodas. Sim, aos 80 anos, não conseguia mais se locomover. Dependia daqueles moradores também para tomar banho, se alimentar, fazer suas necessidades... Só aos 90 anos, graças a uma falência múltipla dos órgãos, teve seu desejo realizado e morreu. Muitas décadas depois do planejado.

O precavido foi seu oposto. Tão oposto que temos muito pouco a falar sobre ele. Peço que me desculpem pela assimetria de linhas destinadas ao precavido e ao apressado. Juro que não é por preferência pessoal.

O precavido trabalhou por toda a vida no mesmo lugar, aplicou desde cedo seu dinheiro e via sua fortuna crescer dia após dia. Era respeitado e conceituado profissionalmente, formado em duas faculdades e cursando mestrado, elogiado no meio acadêmico e com pretensões de prolongar seus estudos. Não bebia, não fumava e visitava seu médico periodicamente, realizando constantes exames de rotina.

Sua esposa foi sua primeira namorada. Era tão fiel, tão bom moço, que não seria difícil confundi-lo com o seu próprio mentor, o anjo. Não tinha um casamento de todo feliz, é verdade, mas não era culpa de sua mulher nem de seu amor por ela. Trabalhava e estudava muito, simplesmente. Passava entre 14 e 16 horas na rua, oscilando entre o emprego e a universidade, de forma a ter pouco tempo até mesmo para conversar com sua amada. Não se arrependia dessa vida, porém. Planejava ter filhos e, quando já possuísse uma boa quantia monetária, viria a recompensa: largaria seu trabalho e o trocaria por outro que exigisse menos de si.

O precavido não teve uma juventude feliz, justamente porque, ao contrário de seu irmão, pensava apenas no futuro. Sua vida consistia em possibilitar que os anos que estavam por vir fossem bons para ele e sua família. O anjo no ombro do precavido estava sempre muito orgulhoso. Em suma, pode-se dizer que o precavido desejava envelhecer com saúde (o que era sustentado pelas várias consultas médicas já citadas), com uma família bem constituída e uma aposentadoria alta, ainda que tudo isso ocasionasse sua infelicidade no tempo presente.

O que o precavido não esperava, contudo, era que fosse morrer tomando um tombo simples no centro da cidade, a única queda de sua vida, queda esta que lhe provocou um traumatismo craniano, antes de completar 30 anos de idade.

Um comentário:

  1. Fiquei na merda por alguns instantes, procurando descobrir onde eu me encaixo nessa história. Talvez eu seja um pouco dos dois - assim espero!

    Aliás, será possível encontrar o equilíbrio? Deixo essa questão no ar para ser debatida comigo mesma em um momento em que eu não esteja com tanto sono.

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