segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A parede

Ele voava com magnitude pelos céus da cidade.

Não. Não se trata de outras linhas de um escritor fracassado por não conseguir tirar os pés do chão, depositando toda a sua frustração em seu personagem (embora muito esse escritor fosse gostar de voar), mas, sim, de uma queda. O que importa agora não são os muitos prédios abaixo minúsculos, o vasto campo aberto por vários quarteirões, as gotas de chuva disputando espaço entre si nem os pássaros perdidos em suas próprias liberdades, mas o que vem após. A queda. Puxaram-lhe pelas pernas e ele caiu em pé em um cubículo onde só ele cabia, certeiramente, como um livro empoeirado em seu único espaço vertical na estante.

Sentia suas costas em uma superfície fria, dando-lhe a impressão de estar nu. Porém, como enquanto voando vestia uma curta e fina camiseta e não havia agora espaço suficiente para abaixar sua cabeça e averiguar, não podia precisar sua vestimenta. Tentou com dificuldades se tatear e percebeu que, de fato, tiraram-lhe as roupas. Apavorado, tentou gritar, mas a parede encostada em seu nariz abafou-lhe. Tinha os olhos obrigatoriamente fixados nessa parede, uma vez que não conseguia mover praticamente nada de seu corpo. Vez ou outra tentava, sem mover a cabeça, deslocar sua visão para os lados, mas tudo que via eram outras paredes. Sentiu que morreria asfixiado em poucos segundos.

A parede era azul claro, com riscos brancos verticais separados por de três a quatro centímetros. Uma pequena falha na tinta podia ser percebida no lado um pouco mais esquerdo de sua visão, enquanto uma mancha de sujeira existia logo abaixo dessa minúscula ausência de tinta. Por mais que ele tentasse, não conseguia mover os músculos de seus olhos a ponto de ver o que tinha nos cantos mais extremos, portanto se conteve em apreciar o restante da paisagem que lhe era permitido.
Acima de sua visão central, um grande borrão cinza se fazia notar, acompanhado por outros borrões menores, da mesma coloração. Mais abaixo e à direita, riscos pretos, finos e verticais também quebravam a predominância do azul que, agora, estranhamente, nem parecia tão preponderante assim. Enfim, o borrão cinza se espalhou ameaçadoramente e o azul passou a ser o detalhe. Mas havia mais coisas, mais cores que ele não conseguia ver, pois não conseguia mexer seu pescoço. E, na verdade, nem queria.

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